Cascavel, Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Leia mais

R$ 34, a pizza do servidor

Administração se contorce a milímetros da linha vermelha da Lei de Responsabilidade Fiscal

Sempre acossado pelo Sismuvel, o sindicato dos servidores, controlado nos anos 90 por um aguerrido PT aderbalista, o então prefeito Salazar Barreiros dizia, em outras palavras, que o serviço público oferecia algumas vantagens, como a estabilidade, mas que jamais pagaria bons salários. E que aos mais ambiciosos restava batalhar a independência econômica na iniciativa privada.
Faz sentido. A Prefeitura de Cascavel pode ser lida como um microcosmo do que acontece no Governo Federal. Pequenas concessões se transformam em muitos milhões na folha de pagamento. Aqui, faz semanas, o Sismuvel e o Paço negociam o reajuste anual dos servidores, cuja data base o ex-vereador Aderbal fez recair sobre o antológico 1º de maio.
A proposta do Paço seria motivo de gargalhadas nos inflacionários anos 90 pré-plano Real: 1,7%. O servidor que ganha R$ 2 mil, terá R$ 34 de reajuste, o equivalente a uma pizza grande, quem sabe com um guaraná de brinde na promoção. O Paço age assim por que pretende perder a motivação e os votos do funcionalismo?
Vejamos: 1,7% reflete os atuais índices inflacionários, os mais baixos desde o Plano Real. Embora seja um índice irrisório, ele incide sobre uma folha de pagamento gigante. E o número anão, que compra apenas uma pizza, multiplicado por quase 10 mil servidores, vira gigantes R$ 6,6 milhões adicionais a débito no orçamento do município.
É por essa razão que o modesto auxílio moradia de R$ 4,2 mil pago a magistrados e promotores, lá no fim da linha se transforma em quase R$ 1 bilhão. São estas contas macroeconômicas que o sujeito que está petiscando uma pizza com uma porção de ketchup tem dificuldade de entender.
Fato é que, quando o poder público devora todo o orçamento na operação meio, no custeio, os recursos chegam minguados a ponta, onde está o pagador de impostos e financiador da máquina. Um exemplo que até a turminha que usa fraldas entende: Cascavel tem 3,5 mil crianças na fila por uma vaga em CMEI (creche).
“Impossível zerar esta fila, o orçamento não comporta”, disse ao Pitoco, na última terça-feira, a secretária Márcia Baldini (Educação). A pasta que ela chefia já tem quase 5 mil servidores. E pactuou com o sindicato a conta gotas (1,28% ao mês), o reajuste determinado pela União para pagar o piso nacional aos professores.
Márcia logo vai requisitar mais 200 servidores para ativar creches e escolas projetadas para o biênio 18/19. Os CMEIs em boas instalações e ofertando cinco refeições de primeira qualidade por dia, passaram também a ser objeto de desejo da classe média em apuros na recessão econômica.
Somente em uma escola municipal, em uma única semana, foram 87 transferências de alunos de escola privada para a conta do Paranhos. Já são 2 mil alunos a mais na Rede Municipal, que já passa de 30 mil boquinhas. Tamanha demanda na educação e na saúde (400 novos servidores este ano), elevou em maio último o gasto com folha para quase 50% do orçamento. O limite legal é 51,3%.
Olhando assim para o “pastel de vento” orçamentário, até que a pizza de R$ 34 não parece tão indigesta...