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Quando a música toca, todos dançam e se desenvolvem na APAE de Boa Vista da Aparecida

Da emoção de uma mãe ao sonho de uma escola planejada para a educação especial, nova sede transforma a rotina de alunos, famílias e profissionais

Redação Pitoco01 de setembro de 2026
Quando a música toca, todos dançam e se desenvolvem na APAE de Boa Vista da Aparecida

Música, dança e inclusão: uma balada em Boa Vista da Aparecida para celebrar as diferenças. 

A música começa e, por alguns instantes, não existe cadeira de rodas, limitação, dificuldade ou diferença que impeça alguém de dançar. Em Boa Vista da Aparecida, no Oeste do Paraná, uma professora segura as mãos de um aluno e acompanha seus movimentos. Mais adiante, outro estudante dança sentado. Alguns se movimentam sozinhos. Outros precisam de ajuda. Há quem dance com o corpo inteiro e quem faça da expressão do rosto o seu jeito de acompanhar a música. 

A cidade recebe a 6ª edição da Balada das APAEs, um encontro que reúne cerca de 150 alunos das APAEs de Boa Vista da Aparecida, Três Barras do Paraná e Capitão Leônidas Marques, acompanhados por mais de 60 profissionais e colaboradores.

No meio da festa está Vanessa Duarte, de 36 anos. Ela não anda e não fala. Tem paralisia. Mas acompanha tudo ao seu redor com atenção. E, segundo a mãe, Ivanilde Monteiro Duarte, não há dúvida de que a filha entende muito mais do que consegue dizer.

As duas desenvolveram, ao longo de 36 anos, uma linguagem própria. Um olhar basta e um gesto também. E ainda existe o relógio. Quando está perto do horário de ir para a APAE, Vanessa começa a olhar para o relógio no braço da mãe e sinalizar que está na hora. Ela não quer se atrasar e além disso é vaidosa, gosta de estar arrumada, não quer colocar qualquer roupa e, quando não aprova o que vestiu, faz questão de demonstrar. Ivanilde acha graça. E faz tudo para que a filha sinta-se bem. 

Uma “balada” para celebrar talentos, encontros e inclusão

É por isso que, quando fala da Balada das APAEs, Ivanilde não relata apenas sobre uma festa, mas sim da alegria da filha. “Os alunos que andam, as professoras dançam com eles e quem está na cadeira de rodas como a minha filha, também. É muito bonito o projeto, eles ficam alegres.”

Criada em parceria entre as APAEs de Boa Vista da Aparecida, Três Barras do Paraná e Capitão Leônidas Marques, a iniciativa se tornou um dos momentos mais aguardados pelos alunos. A cada edição, uma das cidades assume a organização. A festa aproxima pessoas que compartilham muito mais do que uma escola. E talvez seja por isso que a dança seja tão simbólica, pois ali cada um encontra seu próprio jeito de participar.

“A música e a dança contribuem diretamente para o desenvolvimento dos nossos alunos em diferentes aspectos, estimulando a comunicação, a memória, a atenção, a coordenação motora e a expressão corporal. Para alguns alunos que têm dificuldade de se comunicar pela fala, por exemplo, a música e o movimento se tornam uma forma de expressar sentimentos e interagir com o mundo. Além disso, são atividades que fortalecem a autoestima, a confiança e a socialização. Quando eles participam de uma apresentação, ensaiam juntos e percebem que são capazes, isso gera um sentimento muito importante de pertencimento e autonomia. A Balada das APAEs representa justamente esse momento: um espaço de convivência, alegria e inclusão, onde nossos alunos podem se expressar, mostrar seus talentos e, principalmente, serem protagonistas”, explica o diretor da APAE de Boa Vista da Aparecida, Rafael Berlanda. 

Uma história de coragem, resiliência e esperança

Quando Vanessa nasceu, Ivanilde morava em um sítio e trabalhava na roça. Depois do nascimento da filha, mudou-se para Boa Vista da Aparecida para ficar mais perto de recursos que pudessem ajudá-la. O médico percebeu ainda nos primeiros dias que havia algo diferente, mas não contou imediatamente. Pediu que a mãe voltasse dez dias depois. Foi naquela consulta que Ivanilde recebeu a notícia de que a filha era uma criança especial. “Foi um choque, fiquei desesperada e comecei a chorar, mas tive que ser forte.”

O médico me encorajou, disse que existiam recursos e assistência para que a filha tivesse qualidade de vida. Quando a menina tinha dois anos, começou a ser atendida pela APAE de Cascavel. Durante seis anos, três vezes por semana, Ivanilde fazia o caminho entre Boa Vista da Aparecida e Cascavel com a filha. Era uma rotina cansativa, mas ela voltava para casa feliz. “Sempre pensei que enquanto Deus me der vida, eu vou lutar pela minha filha.”

Foi na APAE que Ivanilde começou a perceber mudanças que, para quem olha de fora, podem parecer pequenas, mas para ela eram gigantes. Vanessa, que antes permanecia somente deitada, passou a conseguir ficar sentada sozinha na cadeira. A evolução não aconteceu de uma vez, mas foi construída em pequenas conquistas. “Depois que ela entrou na APAE eu percebi muita melhora, tudo o que eu falo ela entende. Ela é uma menina muito inteligente.”

Vanessa e o diretor Rafael Berlanda na nova escola da APAE, símbolo de uma nova fase de acolhimento e inclusão.

Depois de 32 anos, uma nova escola

A história da APAE da Escola Bom Jesus de Boa Vista da Aparecida, no entanto, não começou na nova sede. Durante mais de 32 anos, a instituição funcionou em duas casas adaptadas. Foram espaços importantes para que o atendimento existisse e se desenvolvesse, mas que não haviam sido construídos originalmente para funcionar como uma escola de educação especial. Até que surgiu a possibilidade de construir uma nova escola pensada desde o início para aquela realidade. 

Com estrutura planejada especificamente para a educação especial, a nova sede da APAE de Boa Vista da Aparecida, inaugurada no dia 21 de agosto, foi viabilizada com recursos do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado das Cidades (Secid). O município também participou da construção, com uma contrapartida superior a R$ 200 mil. As novas salas permitem ampliar e qualificar o atendimento multiprofissional, com espaços destinados a áreas como terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicologia e assistência social.

A estrutura também fortalece os atendimentos realizados pela instituição por meio do SUS e do Programa Nacional de Apoio à Atenção da Saúde da Pessoa com Deficiência (PRONAS). Atualmente, mais de 35 crianças da rede municipal de educação, diagnosticadas com transtorno do espectro autista nos níveis 2 e 3 de suporte, são atendidas neste trabalho. “A inauguração da nova escola da APAE é a concretização de um sonho que vai permitir ampliar o atendimento, acolher mais pessoas e oferecer um ambiente mais seguro, acessível e preparado para atender às necessidades de cada aluno. Olhar para essa escola pronta é olhar para o futuro e ter a certeza de que estamos deixando um legado. Um legado de amor, respeito, inclusão e esperança. E, para mim, que comecei aqui aos 18 anos, poder vivenciar esse momento é uma honra e uma das maiores emoções da minha trajetória dentro da instituição”, ressalta Rafael. 

Mas as novidades não param por aí. A futura sala multissensorial já foi aprovada pela Secretaria de Estado da Educação (SEDEF) e contará com investimento superior a R$ 300 mil. O espaço será preparado para trabalhar diferentes estímulos — sons, texturas, cheiros, cores, luzes e outras experiências sensoriais. “Quando falamos em educação especial, investir em estrutura é investir diretamente no desenvolvimento, na aprendizagem e na inclusão. Um ambiente adequado oferece melhores condições para que os profissionais desenvolvam seu trabalho e, principalmente, para que nossos alunos tenham acesso a um espaço seguro, acessível, confortável e preparado para suas necessidades. Por isso, a nova escola  representa muito mais do que a construção de um prédio. É um investimento nas pessoas, famílias, profissionais e, principalmente, no futuro dos nossos alunos”, conclui o diretor Rafael.  


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