Portal Pitoco

O último pinheiro do império

Araucárias tombadas no breu da noite, no centro de Cascavel, levaram consigo os últimos vestígios do império que colheu 387 mil pinheiros aqui

Redação Pitoco20 de agosto de 2026
O último pinheiro do império

Janeiro de 2024: foto produzida por um atento observador da arborização urbana de Cascavel registra o vazio em frente a um prédio histórico. O endereço é bem conhecido, Avenida Brasil, esquina com rua Pio XII, onde está uma unidade da rede de farmácias Nissei.

Ali, naquela calçada, até o ronco inclemente de motosserras atravessar alguma madrugada escura, havia duas araucárias. Elas reinavam soberanas desde algum momento entre 1979 e início dos anos 1980.

Quem pagou para cortar, a “otoridade” que autorizou a derrubada, e quem efetuou o corte protegido pelo breu da noite, talvez não tenha imaginado que, simbolicamente, o tombo das coníferas sobre a calçada fique para a história como o derradeiro pinheiro do império, algo tão forte que fez desaparecer o último vestígio visível da maior potência industrial – guardadas as proporções de época – que já operou no Oeste do Paraná, a Imapar.

Antes de alguém se incomodar com o estorvo das araucárias, o prédio deu abrigo a outra instituição reputada: a Câmara Municipal de Cascavel. Antecedendo os vereadores, radicou-se ali o império do pinheiro: a Industrial Madeireira do Paraná (Imapar), na virada da década de 1970 para 80. A sede era a face urbana da potência.

A Imapar tornou divulgados por aqui três sobrenomes: Festugatto, Galafassi e Marder. Oriundos do Rio Grande do Sul, eles chegaram à vila poeirenta de Cascavel na década de 1950, após assumirem o território imenso da Imapar, mensurado na época como equivalente a 40% da área total do município, segundo o pioneiro Francisco Konolsaisen.

Renato Festugatto, o patriarca, era contabilista e levava muito a sério trazer para o papel cada detalhe. Segundo o neto dele, que leva o nome do avô e hoje atua em Cascavel na produção de ovos, os registros precisos do contador esmerado traziam os seguintes números: nos 87 mil hectares da Imapar, foram extraídas 387 mil araucárias.

PRIMEIROS BILIONÁRIOS

Reportagem publicada na revista do Pitoco, em abril de 2019, fez todas as contas a partir do pinheiro já beneficiado: o faturamento constituiu certamente o primeiro CNPJ bilionário da cidade.

Para dar uma dimensão do que foi o Ciclo da Madeira em Cascavel, o bilhão da araucária não conta tudo. Milhares de árvores de outras espécies também foram serradas pela Imapar e outros madeireiros. E os Festugatto tocavam apenas três, das quase 150 serrarias que se estabeleceram aqui no auge.

A exploração do pinheiro foi o primeiro colchão de riquezas gerado em Cascavel. Grande parte da produção foi destinada para a reconstrução da Europa pós-guerra e a construção de Brasília. A Imapar estava para o agro local como a Coopavel está hoje para Cascavel.

O nome da potência da época, cujo logotipo trazia o desenho em forma de taça das araucárias, faz muito, não está mais naquele prédio com testada para Avenida Brasil. E desde meados de 2024, o último vestígio da presença dos imperadores do pinheiro desapareceu também, em uma noite escura atravessada pelo “ronco” da motosserra.

Baú do Pitoco

Morte no pinheiral

O trágico acidente que vitimou a dona da floresta escura de pinheiro abalou Cascavel nos estertores do Ciclo da Madeira; segue aqui um trecho da longa reportagem publicada pela revista do Pitoco sete anos atrás

A vida mudava rápido para os Festugatto naquela segunda metade dos anos 1960. O núcleo familiar, composto por Sergio Mauro, filho do patriarca Renato, e a esposa Helena Portugal, saiu de um apartamento de dois quartos em Porto Alegre para uma vasta residência em Cascavel.

A família nunca pertenceu a aristocracia gaúcha, mas os pinheiros de Cascavel começavam a construir uma fortuna. A Imapar já empregava mais de 800 funcionários em suas três serrarias e a legislação exigia disponibilizar um médico do trabalho.

Então os empreendedores foram buscar na capital gaúcha o médico Ramão Beltrão Vaucher. Voaram até Cascavel para apresentar o local e convencer o doutor gaúcho a ficar.

Após devidamente apresentado à cidade, o médico e a família Festugatto partiram em direção a Foz do Iguaçu. Ao chegar em Santa Tereza do Oeste, decidiram entrar na fazenda da Imapar para mostrar a extração do pinheiro.

Ali aconteceria o fato mais trágico. “Estavam olhando o corte de um pinheiro. De repente passou a ventar e a árvore inclinou para cair sobre a área de segurança, onde estavam os visitantes. Minha mãe correu para onde estava programada a queda. E a árvore caiu exatamente onde ela tentou se abrigar”, relata Renato Festugatto Neto (foto).

Morria ali, aos 32 anos, Helena, a esposa de Sergio Mauro. O impacto da morte prematura da dona da floresta sob os pinheirais de Cascavel alongou-se por décadas.

Certamente muitos anônimos morreram esmagados sob troncos imensos naquele período em que vozes roucas da floresta ecoavam a palavra “madeira”. Certamente, não faltou quem atribuísse os óbitos a uma vendetta da natureza.

Notícias relacionadas