Janeiro de 2024: foto produzida por um atento observador da arborização urbana de Cascavel registra o vazio em frente a um prédio histórico. O endereço é bem conhecido, Avenida Brasil, esquina com rua Pio XII, onde está uma unidade da rede de farmácias Nissei.
Ali, naquela calçada, até o ronco inclemente de motosserras atravessar alguma madrugada escura, havia duas araucárias. Elas reinavam soberanas desde algum momento entre 1979 e início dos anos 1980.
Quem pagou para cortar, a “otoridade” que autorizou a derrubada, e quem efetuou o corte protegido pelo breu da noite, talvez não tenha imaginado que, simbolicamente, o tombo das coníferas sobre a calçada fique para a história como o derradeiro pinheiro do império, algo tão forte que fez desaparecer o último vestígio visível da maior potência industrial – guardadas as proporções de época – que já operou no Oeste do Paraná, a Imapar.
Antes de alguém se incomodar com o estorvo das araucárias, o prédio deu abrigo a outra instituição reputada: a Câmara Municipal de Cascavel. Antecedendo os vereadores, radicou-se ali o império do pinheiro: a Industrial Madeireira do Paraná (Imapar), na virada da década de 1970 para 80. A sede era a face urbana da potência.
A Imapar tornou divulgados por aqui três sobrenomes: Festugatto, Galafassi e Marder. Oriundos do Rio Grande do Sul, eles chegaram à vila poeirenta de Cascavel na década de 1950, após assumirem o território imenso da Imapar, mensurado na época como equivalente a 40% da área total do município, segundo o pioneiro Francisco Konolsaisen.
Renato Festugatto, o patriarca, era contabilista e levava muito a sério trazer para o papel cada detalhe. Segundo o neto dele, que leva o nome do avô e hoje atua em Cascavel na produção de ovos, os registros precisos do contador esmerado traziam os seguintes números: nos 87 mil hectares da Imapar, foram extraídas 387 mil araucárias.
PRIMEIROS BILIONÁRIOS
Reportagem publicada na revista do Pitoco, em abril de 2019, fez todas as contas a partir do pinheiro já beneficiado: o faturamento constituiu certamente o primeiro CNPJ bilionário da cidade.
Para dar uma dimensão do que foi o Ciclo da Madeira em Cascavel, o bilhão da araucária não conta tudo. Milhares de árvores de outras espécies também foram serradas pela Imapar e outros madeireiros. E os Festugatto tocavam apenas três, das quase 150 serrarias que se estabeleceram aqui no auge.
A exploração do pinheiro foi o primeiro colchão de riquezas gerado em Cascavel. Grande parte da produção foi destinada para a reconstrução da Europa pós-guerra e a construção de Brasília. A Imapar estava para o agro local como a Coopavel está hoje para Cascavel.
O nome da potência da época, cujo logotipo trazia o desenho em forma de taça das araucárias, faz muito, não está mais naquele prédio com testada para Avenida Brasil. E desde meados de 2024, o último vestígio da presença dos imperadores do pinheiro desapareceu também, em uma noite escura atravessada pelo “ronco” da motosserra.
Baú do Pitoco
Morte no pinheiral
O trágico acidente que vitimou a dona da floresta escura de pinheiro abalou Cascavel nos estertores do Ciclo da Madeira; segue aqui um trecho da longa reportagem publicada pela revista do Pitoco sete anos atrás
A vida mudava rápido para os Festugatto naquela segunda metade dos anos 1960. O núcleo familiar, composto por Sergio Mauro, filho do patriarca Renato, e a esposa Helena Portugal, saiu de um apartamento de dois quartos em Porto Alegre para uma vasta residência em Cascavel.
A família nunca pertenceu a aristocracia gaúcha, mas os pinheiros de Cascavel começavam a construir uma fortuna. A Imapar já empregava mais de 800 funcionários em suas três serrarias e a legislação exigia disponibilizar um médico do trabalho.
Então os empreendedores foram buscar na capital gaúcha o médico Ramão Beltrão Vaucher. Voaram até Cascavel para apresentar o local e convencer o doutor gaúcho a ficar.
Após devidamente apresentado à cidade, o médico e a família Festugatto partiram em direção a Foz do Iguaçu. Ao chegar em Santa Tereza do Oeste, decidiram entrar na fazenda da Imapar para mostrar a extração do pinheiro.
Ali aconteceria o fato mais trágico. “Estavam olhando o corte de um pinheiro. De repente passou a ventar e a árvore inclinou para cair sobre a área de segurança, onde estavam os visitantes. Minha mãe correu para onde estava programada a queda. E a árvore caiu exatamente onde ela tentou se abrigar”, relata Renato Festugatto Neto (foto).
Morria ali, aos 32 anos, Helena, a esposa de Sergio Mauro. O impacto da morte prematura da dona da floresta sob os pinheirais de Cascavel alongou-se por décadas.
Certamente muitos anônimos morreram esmagados sob troncos imensos naquele período em que vozes roucas da floresta ecoavam a palavra “madeira”. Certamente, não faltou quem atribuísse os óbitos a uma vendetta da natureza.





