Cascavel, Segunda-feira, 20 de setembro de 2021

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Urna na fila do osso

Chaplin cozinhou e comeu a botina quando garimpava em busca do ouro; famintos por poder e votos oferecem ossos para a patuleia
Postado em 24/08/2021

17 de julho de 2021, Cuiabá: no estado maior produtor de grãos (localizado no país maior produtor de alimentos do mundo), uma fila com dezenas de miseráveis se formou sob o sol escaldante da capital conhecida como Cuiabrasa.

As pessoas estavam lá - no maior produtor de proteína animal do mundo - não por um pedaço de carne. Estavam lá por um punhado de ossos. A fila do osso, como ficou conhecida essa vergonha nacional, dá a dimensão de como o debate está atravessado no Brasil.

Não estamos debatendo o déficit estimado em mais de R$ 170 bilhões no Orçamento da União no próximo ano, fator que agrava a inflação já fora de controle, índice que pressiona os juros para cima e pune toda a economia, notadamente os mais pobres.

Não estamos debatendo um projeto de retomada econômica a partir do avanço da vacinação. Não estamos debatendo a sopa de ossos. Estamos debatendo urna. A dita cuja não sai da cabeça de nossos líderes. Eleição é obsessão. Eles só pensam naquilo.

Já virou frase feita isso de colocar a próxima eleição na frente da próxima geração. Aquele mundo à parte de Brasília, onde a nota fiscal de R$ 600 por cabeça em restaurantes finos e caros é ressarcida na tesouraria do STF, no Congresso ou no sigiloso cartão corporativo do Planalto, estabelece um universo paralelo.

Pior: boa parte da opinião pública – talvez até a turma da fila do osso – embarca nestes debates estéreis, onde até cadáveres insepultos, como o debate democracia x ditadura, assombra aquele mundo de fantasia encravado no Centro Oeste.

Faz lembrar o clássico “Em Busca do Ouro”, de Charles Chaplin. Rodada em 1925, a película traz Carlitos cozinhando e comendo sua própria botina. Tal qual a botina, até onde se sabe, urna não é comestível.

E a fila do osso no Brasil não é ficção de gênio do cinema. A fila é gerada pela ambição desmedida da turma que pôs a urna no cardápio e não quer largar o osso em Brasília. Botina na bunda dessa gente nojenta! Mandemos todos para casa em 2022!