Cascavel, Domingo, 11 de abril de 2021

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Nossas amadas múmias

Dos faraós do Egito, passando pela múmia de Lenin, aos bustos do século 21, a busca desembestada das multidões sem rosto por salvadores da pátria
Postado em 23/02/2021

Divulgo meus pitacos diariamente na rádio T e, aos sábados, na CBN. Dia desses um ouvinte pediu minha opinião sobre o frenesi gerado pela visita do presidente Bolsonaro a Cascavel. Em resumo, avaliei como segue:

Não é somente aqui. Por onde ele for, haverá gritaria (mito, mito, mito!), dezenas de celulares acionados, cartazes atacando os inimigos reais ou imaginários, e gente fazendo qualquer coisa para obter uma foto com o ídolo. Precisamos desespe-radamente acreditar em alguém ou em algo. E o líder que conseguir decifrar as angústias, medos e esperanças desta multidão sem rosto que procura um salvador para chamar de seu, fará sucesso na política.

Desde os faraós do antigo Egito, milhares de anos atrás, cultiva-se o “culto à personalidade”. Construía-se uma pirâmide inteira para cultuar o faraó. Muitos séculos depois, tiranos do comunismo, do fascismo e do nazismo, se empenharam em transformar humanos em semideuses. Basta dizer que a múmia de Vladimir Lenin, 97 anos após a sua morte, ainda é venerada na Rússia.

Estátuas e bustos destes “mitos” estão por toda parte, inclusive na Coreia do Norte, onde o culto à personalidade elevou os genocidas da dinastia Kim ao grau de divindades supremas. No Brasil o culto começou com os Pedros da família imperial, ganhou tração com o ditador Getulio Vargas, prosseguiu com Leonel Brizola e Lula, e agora segue com o Messias Bolsonaro.

Quem cultua, passa pano em busto. Da mesma forma que havia caravanas do Brasil inteiro para gritar “bom dia, presidente Lula!” - quando este restava preso em Curitiba -, se o Messias for encarcerado por corrupção, haverá inúmeros - muitos daqui, de Cascavel - para gritar em frente ao cárcere: “Boa noite, mito!”.

A paixão por políticos de índole duvidosa, porém argutos e intuitivos, não nasceu com o Messias, e não irá morrer com ele. Enquanto houver analfabetismo político e efeito manada, haverá ídolos e idólatras.

Em tempo 1: Ouvinte também perguntou: e se restarem apenas Lula e Bolsonaro no 2º turno?

Respondo:

- Qual é o problema? Teremos então que - novamente - escolher entre os incapazes e os capazes de tudo.

Em tempo 2: Brizola morreu dizendo que, na eleição presidencial de 1989, as tais “elites” escolheram quem enfrentaria Collor no 2º turno. “Escolheram Lula, pois seria mais fácil derrotá-lo”, repetia o velho caudilho. Qualquer semelhança com o quadro atual seria mera coincidência?