Cascavel, Segunda-feira, 10 de agosto de 2020

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Ratinhos, ratos, ratazanas...

Nós, sapiens, fracassamos, aprendemos pouco da caverna escura até a contraluz da tela do celular refletida em nossas faces: é vital distinguir o sábio do sabido
Postado em 06/07/2020

Para entender a decisão do governador Ratinho Júnior ao redigir e assinar o decreto que endureceu a regra do jogo no combate à epidemia, primeiro é preciso descontaminar ideologicamente o debate.

Voltemos a 2018. Ratinho era candidato por uma sigla do centrão, coligada na ocasião com o médico paulista Geraldo Alckmin. Não houve entusiasmo no apoio. Roeu-se a corda. Ratinho se sentia bem mesmo no voto BolsoJunior.

Havia ainda um encantamento do pai dele com o 17. O “Ratão” é muito eclético. Em outros tempos encantou-se também com Lula e Dilma.

Ratinho Júnior era o único governador na comitiva de Bolsonaro aos EUA, 120 dias atrás. Era também um dos três – entre 27 governadores – que não assinou a carta pela democracia, exarada de seus pares, contra  ataques do presidente às instituições.

Então é fácil cravar: Ratinho não ordenou o fecha geral para afrontar o negacionismo epidemiológico. O fez porque a água bateu no bumbum. Certamente não quis se indispor com o eleitorado bolsonarista, mas a água chegou ao pescoço.

Não há suprimentos básicos para intubação nas UTIs. O sapiens é um animal esquisito. No orçamento americano de 2020 há 750 bilhões de dólares para a defesa. Isso é mais que a metade de toda a riqueza que o Brasil gera em um ano, medida pelo PIB.

Porém, a mais sofisticada arma ao alcance dos botões de Trump em sua maleta atômica foi incapaz de impedir que 130 mil americanos morressem atacados por um agente minúsculo, o coronavirus. 

Os americanos têm um arsenal capaz de transformar o planeta em pó. Mas não tinham respiradores, buscados às pressas na China por gigantescos cargueiros voadores, após humilhante ligação de Trump para Xi Jinping implorando pelos equipamentos.

O sapiens parece não ter dado certo, e aprendeu pouco na longa viagem das cavernas escuras até as telas multicoloridas. Não entro no mérito do decreto. Conheço as dores do pequeno comerciante que precisa cerrar as portas. Mas tenho uma dúvida: o prefeito Paranhos vai recorrer do fecho geral por convicção ou por conveniência eleitoral? 

Vai cutucar seu amigo Ratinho por estar de fato seguro de que damos conta do crescimento galopante da epidemia na cidade ou para ficar bem com parte do eleitorado?

É um jogo perigoso, de gato e rato. É preciso distinguir sábio de sabido. A banana pode devorar o macaco e a esperteza engolir o esperto. Ratinhos são bichos até simpáticos depois de filmes como Ratatouille e animações com Mickey Mouse e Tom & Jerry. Porém, ratazanas geram asco.

Dinheiro é importante, mas a vida vem primeiro. Voto é importante, mas a vida vem primeiro.