Cascavel, Sexta-feira, 10 de julho de 2020

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A Globo já foi pior

Muitos eleitores que aplaudiam quando a Globo denunciou o “Mensalão” e o “Petrolão” trocaram de canal quando seu ídolo político entrou na linha de fogo
Postado em 22/06/2020

Amigo meu cascavelense foi “picado” por dois vírus. Primeiro pelo vírus do fanatismo político, que gera efeitos colaterais como endeusamento de “mitos” e transtornos obsessivos acompanhados de passamentos de panos. Depois foi “picado” pelo corona. Fora do peso e portador de outros elementos agravantes para o Covid-19, baixou no hospital e “cortou o maior prego”. Chegou a pensar que ia morrer.

Tomei a liberdade de enviar um zap e perguntar como estava. Naquele dia, o amigo deixava o hospital com um suspiro. Sobreviveu. Dei uma “folheada” no perfil dele no Facebook. A exemplo de tantos outros picados pelo primeiro vírus, ele batia na Rede Globo, dizendo que a emissora exagerava os fatos e criava pânico para desestabilizar o governo do ídolo. Não irei perguntar se após a experiência com o segundo vírus, ele mantém essa opinião. Talvez até eu fosse desrespeitoso, se o fizesse. Prefiro tentar entender por que algo do senso comum contaminou inclusive gente que eu considerava esclarecida, letrada.

O fetiche político com a Globo será melhor entendido se cravarmos aqui: já foi pior. Muito pior. Quando Roberto Marinho se aliançou com a ditadura militar nos anos 1960, a Globo mostrava um Brasil cor de rosa. O Jornal Nacional, que tinha uma vinheta curiosa, com peixinhos nadando em imagens toscas ornadas pelo vozeirão de Cid Moreira e por Sergio Chapelin, só falava bem do governo. Ocultou até onde pode as manifestações pelas eleições diretas para presidente. Aquela Globo era ruim, pois estava a serviço de um regime. Habilidoso no trato com os generais, Marinho capilarizou a emissora com inúmeras outorgas de TV para todo o território nacional, incluindo aí parcerias com amigos da ditadura, como Antonio Carlos Magalhães na Bahia, Paulo Maluf em São Paulo e José Sarney no Maranhão, todos da Arena/PDS. A última quartelada de Marinho, antes de virar chuvisco, foi o apoio ao farsante Fernando Collor de Melo.

Quando os herdeiros do “dr. Roberto” começaram a assumir a rede, no final dos anos 1990, a Globo pôs o jornalismo para fazer o que se espera do jornalismo: entre outros, denunciou FHC, Lula, Dilma e Temer, e hoje faz cobertura crítica ao bolsonarismo. Em 2013, a Globo chegou a pedir perdão, publicamente, pela edição criminosa de um debate presidencial para beneficiar Collor e pelo apoio à ditadura de 1964.

Muitos eleitores que aplaudiam quando a Globo detonou o “Mensalão” e o “Petrolão”, trocaram de canal quando seu ídolo político entrou na linha de fogo. Preferem, agora, a TV do bispo mercenário ou a emissora do Silvio, aquela figura que sempre viveu à sombra do poder e agora pôs o genro para mandar no Ministério das Comunicações. Meu amigo vai mudar de ideia? Talvez não. E nem é o objetivo deste artigo. Deixemos a doutrinação ideológica para quem domina a técnica: os veículos chapa-branca. A Globo já foi pior...