Cascavel, Sexta-feira, 10 de julho de 2020

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Analogic influencer

Neymar Jr., Anitta, Felipe Neto, Pablo Picasso, Pitoco e os conteúdos das telas multicoloridas ao rolo de papel higiênico: plataformas importam, mas o jornal no papel resiste
Postado em 15/06/2020

Neymar Jr., Whindersson, Anitta, Felipe Neto. Eles têm milhões de seguidores no mundo das multicoloridas telas touchscreen. Postam de tudo, de trivialidades a futilidades, passando eventualmente por manifestos antifascistas. São os tais “digital influencers”, gente com tanta inserção e plateia quanto o célebre “boa noite” na voz grave de William Bonner, o âncora do telejornal de maior audiência do País.

Uma simples pose para uma foto com camisa de grife, ou um vídeo rápido divulgando um artigo de luxo, coisas de apenas alguns minutos e um clique de postagem, pode render para cada uma destas estrelas das redes sociais um cachê milionário. Por uma postagem, Neymar Jr . cobra R$ 2,7 milhões. Ele posta para 139 milhões de “parças” no “Insta”.

Trazendo para o mundo dos mortais comuns, a página do Pitoco no Facebook chegou recentemente a 12 mil seguidores. Iniciante no Instagram (plataforma que devorou as demais redes, notadamente no público feminino e juventude), tenho ali pouco mais de mil viventes.

Pois bem, a exemplo de tantos outros setores da economia, nós do Pitoco formos pegos em “calças curtas” com o advento da epidemia. Suspendemos a impressão por um período, trouxemos o jornal para a plataforma digital e formamos grupos de WhatsApp com nossos milhares de assinantes. A operação foi parcialmente bem-sucedida.

Alguns se adaptaram rapidamente. Outros, notadamente aqueles de cabelos prateados pelo luar do tempo, chiaram. Retornamos com o impresso na semana passada. Nossos jornaleiros ouviram com frequência a frase: “Finalmente o Pitoco no papel está de volta! ”.

São as particularidades de um mundo em transição, com notável resistência na comutação completa do palpável para o “digitável”. O milenar mundo do carbono resiste aos bytes, e o papel do jornal permanece imbricado com o jornal de papel.

Assim sendo, com quase um quarto de século de história, o Pitoco no papel não vislumbra data para aposentadoria. Vai prosseguir em uma plataforma híbrida, ofertado no tradicional e no virtual.

No fim das contas, o que conta mesmo é conteúdo. Entendo que plataforma é secundária. Um bom jornal impresso em rolo de papel higiênico terá leitores. No best-seller “A Sutil Arte de Ligar o F*da-se”, Mark Manson relata passagem de um analógico notório: Pablo Picasso.

Enfadado em uma mesa de bar no centro de Paris, Picasso passou a “rabiscar” um desenho no guardanapo. Levantou- -se abruptamente e amarrotou o papel em gesto brusco. Uma mulher que acompanhava a cena interrompeu o gênio, sem reconhecê-lo, e disse:

- Não faça isso, dá para mim esse desenho!

- São 20 mil dólares! - Retrucou Picasso

- Como? 20 mil dólares por um desenho que você fez em três minutos em um guardanapo?

- Sim, 20 mil dólares. Eu levei 60 anos para aprender a fazer um desenho assim em três minutos! Picasso deixou o ambiente com a mulher boquiaberta.

Meu trabalho no Pitoco vale apenas R$ 250 anuais. Ainda assim, sempre haverá aquele para dizer: - É caro. Trata-se de uma folhinha de papel que você redige na metade de um dia!

Pretensioso, dando uma de Picasso, eu poderia responder: - levei 30 anos para aprender a fazer uma folhinha de papel com o conteúdo que trago no Pitoco. Mas não. Prefiro afirmar que, também de forma pretensiosa, talvez eu seja um dos últimos influenciadores analógicos da humanidade.