Cascavel, Domingo, 23 de fevereiro de 2020

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E se todo o dejeto suíno de Toledo virasse energia?

Calculadora do CIBiogás responde. E mais: introdução de novas tecnologias contribui para conter evasão de jovens da roça
Postado em 11/02/2020

O município de Toledo acumula em seu território um plantel de 1,2 milhão de suínos. Há oito cabeças de porco para cada cabeça de sapiens. Considerando que cada porco terminal (em ponto de abate) pode pesar 110 quilos, e que deste montante, 65 quilos são de carne aproveitável (o restante são ossos e órgãos), temos 78 toneladas.

Na hipótese absurda que os habitantes da cidade precisassem devorar todo o plantel, consumindo meio quilo percapita/dia, os 140 mil toledenses teriam o almoço garantido por três anos.

Mas não é essa a conta que importa, até por absurda. Vale mesmo destrinchar outros ativos que estavam disfarçados de passivos ambientais: os dejetos. Se Toledo aproveitasse todo o dejeto suíno produzido pelo plantel gigante, seria possível produzir 89,6 megawatts de energia elétrica, suficiente para iluminar uma cidade de 16,3 mil domicílios, ou seja, quase 50 mil habitantes. Nesta conta o cocô do porco supriria de energia de um município do porte de Marechal Candido Rondon.

Outras possibilidades a partir da popularização do aproveitamento de dejetos: 43 milhões de metros cúbicos de biogás e 1,7 milhão/ano de botijões de gás de cozinha (de 13 kg cada).

As contas acima foram produzidas na Calculadora do Biogás, software desenvolvido pelo CIBiogás para demonstrar aos produtores a viabilidade no aproveitamento energético dos dejetos.

E a aplicação do gás de cozinha extraído da titica é uma realidade em pelo menos quatro municípios do Oeste: Entre Rios, São Miguel do Iguaçu, Marechal Rondon e Toledo. Não deixa de ser curioso, cena 1: o porquinho faz suas necessidades fisiológicas; 2) o biodigestor transforma a titica em gás de cozinha; 3) a queima do gás cozinha, assa ou frita o próprio porquinho, dono da titica, que virou combustível...

É a tal economia circular. No fim das contas o porquinho é cozinhado pelo seu próprio dejeto, ou pelo subproduto dele. Aqui reafirma-se aquela máxima: do porco só se perde o grito! Óinc, óinc...

Tecnologia fixa jovens no campo

A possibilidade de implementar a extração da energia e outros ativos dos dejetos suínos foi determinante para reter talentos jovens em propriedades rurais familiares em municípios do Oeste. A afirmação é da consultora Daiana Gotardo Martinez, analista de informações da Cibiogás. Para ela, a sucessão familiar passa pela inclusão dos jovens nos procedimentos decisórios, permitindo melhorias nos processos a partir da qualificação dos jovens na academia. Acompanhe:

Pitoco – Então o menino sai da roça para estudar e quando retorna não tem oportunidade de aplicar o aprendizado?

Daiana – Um dos principais motivos para os filhos que saíram para estudar não voltarem a propriedade é esse. O jovem não pode opinar dentro do processo produtivo tradicional dos pais. O menino viu tecnologias que poderiam melhorar os processos, mas não tem oportunidade de aplicar, e isso gera problemas na sucessão familiar.

E isso pode ser diferente...

Tanto pode, que aqui na região Oeste, projetos de tecnologia que permitem o aproveitamento dos dejetos suínos, foram determinantes para reter jovens talentosos no negócio da família. Se os meninos conseguem rodar na propriedade o que aprenderam nos bancos escolares eles ficam, do contrário...

Que outras vantagens você aponta no aproveitamento energético dos dejetos?

Lagoas abertas com dejetos da suinocultura emitem gases, cheiro forte a partir dos efluentes. A carga de enxofre é elevada, isso gera um odor de ovo pobre. O processo de biodigestão cobre as lagoas, faz o tratamento. Os gases ficam retidos, reduzindo o cheiro e a proliferação de vetores.

Qual é o melhor argumento para o suinocultor na adoção dos biodigestores: meio ambiente ou ganho financeiro?

Ambos os argumentos precisam caminhar juntos. Não se consegue falar de preservação sem ter retorno financeiro. O agricultor precisa enxergar o retorno para implementar a tecnologia. É difícil viabilizar o ambiental sem que o financeiro caminhe junto, já que são investimentos elevados.