Cascavel, Domingo, 23 de fevereiro de 2020

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O riacho invisível

Ecopark Oeste revela encantos de um curso d’água escondido
Postado em 10/02/2020

Minha relação com o riacho vem de longa data. Para ser mais preciso, 13 de maio de 1967. A casinha de madeira de talvez 40 metros quadrados em que dona Irene deu à luz o “Eduardo” (com ajuda da parteira Maria), estava localizada a não mais que 50 metros de uma das nascentes do córrego.

Dali o curso dágua corria no sentido Oeste, atravessando a Avenida Foz do Iguaçu (hoje Tancredo Neves), e seguindo em direção ao fundo de vale entre os bairros Santo Onofre e Aclimação. Deram um nome meio “nada a ver” para o riacho: Córrego Bezerra. Por décadas ele corria invisível ao lado de uma fazenda de soja, região onde hoje está o bairro FAG. Dali seguia seu curso milenar até misturar águas ao Rio Paraná.

O rio “m.”

Veio o “progresso”. Adensamento urbano, invasões, favelização. As obras do EcoPark Oeste, bancadas por Itaipu, foram precedidas de uma limpeza. Quase 2 mil pneus foram retirados do leito do córrego. Também havia uma geladeira e um carrinho de supermercado, entre outras quinquilharias.

Naquela área, mas próxima das nascentes, o riacho ganhava um nome nada glamouroso: rio merdinha. Dispensa explicações.

Ruído do delta

Após as águas cruzarem sob a Avenida Brasil surgiram escondidos alguns encantos, só agora visíveis. Da área de caminhada do novo parque é possível enxergar uma laje onde a água ganha velocidade.

Ali o riozinho forma um pequeno delta, com uma ilhota ao meio na poderosa condição de divisora de águas. O ruído é daqueles que os aplicativos vendem nos anúncios do Instagram para acalmar nós, os ansiosos.

Caminhar ali permite experiências sensoriais incríveis: o crepúsculo tinge o vale em tons alaranjados. Tizis, quero-queros, corujas, tesourinhas, grilos, cigarras e anfíbios formam a orquestra em serenata.

Cerca viva

O pessoal da jardinagem caprichou. Quaresmeiras estão plantadas no entorno. Alamandas em flores já estão a serpentear pelas cercas de arame especialmente projetadas para abriga-las. Bosques de árvores frutíferas estão a caminho.

E, surpresa: ainda existem peixes no riacho. Incrível a resiliência desses bichos. Menino, me banhei no riozinho (escondido da dona Irene). Hoje até arriscaria a colocar os pés na laje que antecede o delta.

Afinal, a rede coletora de esgoto de Cascavel chegou a 98% do município, marca que pode legar ao passado o apelido cheiroso do riacho, que agora se revela aos poucos...

Conhecer para gostar

Sim, há um preço ambiental a pagar quando se constrói um parque em área de preservação, minada de nascentes. Porém, aproximar as pessoas do riacho a ponto de ouvi-lo correr entre as pedras, permite criar afeição, sinergia.

Difícil gostar do desconhecido. Quando conhecemos e enxergamos, tendemos a gostar e proteger. “Quem não sabe por que caminho chegará ao mar, deve tomar o rio por companheiro”, disse Plauto.

Pegue sua bike e vá passear às margens do córrego encantado. Nos vemos lá. Afinal, a beleza e a paixão estão nos olhos de quem vê...