Cascavel, Domingo, 23 de fevereiro de 2020

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Silêncio no condomínio

Autores do envenenamento do gatinho para preservar limpo o capô do carro caminham para o eterno e harmonioso silêncio
Postado em 28/01/2020

O Erasmo é vizinho do Ademir, da Assunta e do Fernando. O Alberto e a Erminda também estão bem próximos. A Lídia e a Lúcia estão alguns metros distantes do grupo. Todos “moram” no cemitério.

Parei, dia desses, para olhar mais de perto um campo santo escondidinho em meio a uma vasta plantação de soja, entre Palotina e Toledo. Cemitérios contam muitas histórias, como o da Recoleta, em Buenos Aires, retratado na edição anterior desta revista.

Mas interessa também assuntar (com todo respeito), coisas que o cemitério não diz. Se entendermos esse local como um condomínio, fica mais fácil entender. Ali ninguém repara na grama do vizinho.

A propósito, não se incomoda também com o vizinho que decide aparar a grama com aquela máquina barulhenta justo no sábado a tarde, horário reservado para a siesta dos vivos.

Ali, no “condomínio” que visitei, fotografei e filmei, ninguém mais se incomoda com as patas sujas do gatinho sobre o capô do veículo. Isso não é motivo de desavença. Ninguém vai à portaria de São Pedro registrar queixa pelo batidão na caixinha JBL do filho adolescente da vizinha.

Ninguém mais se importa com o ruído do salto alto no apê de cima, ou mesmo dos urros incontidos dos amantes em êxtase no outro lado da parede. Será que é preciso morrer para obter esse nível de cordialidade?

Necrópoles estão cheias de pessoas que envenenaram gatinhos para que não sujassem as preciosas latas de seus flamantes, lotados de adoradores do vil metal, abarrotados de gente que não suportava o ruído da JBL ou da máquina de cortar grama.

Esses locais temidos por muitos, estão cheios de indispensáveis e impacientes, que agora obtiveram o silêncio duradouro, a paz dos cemitérios.

É inescapável. Todos iremos habitar o silêncio em algum momento. A capela de Évora, em Portugal nos envia recados. Trata-se de uma igreja feita de fêmures, tíbias, costelas e crânios humanos. No portal está escrito: “Nossos ossos esperavam pelos vossos”. Em outras palavras, se os mortos pudessem me dizer algo naquela vista ao “condomínio do silêncio”, talvez diriam: “És o que fomos, serás o que somos”.

Paremos, todos, de nos importar com a patinha suja do gatinho ou com a titica do pombo no para- -brisa... tudo passa, e esses incômodos também passarão, para sempre...