Cascavel, Domingo, 31 de maio de 2020

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#partiu Buenos Aires

Relativamente barata, essencial para decifrar o sapiens sul-americano médio, a metrópole portenha tem seus encantos e desencantos. E muita história
Postado em 06/01/2020

Buenos Aires é uma aula de história a céu aberto. Entender o DNA político, social e humano do sul-americano médio pede uma imersão na capital mais cosmopolita do continente.

 

E para extrair a essência portenha, antes de aplicar em seu perfil na rede social a hashtag #partiu Buenos Aires, é aconselhável seguir alguns rituais: ler Jorge Luis Borges, assistir “Evita”, a película estrelada por Madonna, conhecer pelo menos o refrão de “Não Chores por Mim Argentina” e, talvez, ensaiar alguns passos de tango.

Porém Buenos Aires, ou simplesmente BA, como é apresentada lá, é muito mais. Em alguns pontos, muito menos. Borges, expoente da literatura portenha, versava em suas obras sobre o caos que governa o mundo. Possivelmente as paixões e ódios da política argentina o influenciaram aqui.

Dividida em ideologias idiotizantes – como o Brasil de hoje – a Argentina produziu a ditadura mais cruel da América Latina contaminada pela “Guerra Fria” entre EUA e URSS.

Antes da ditatura o ódio já mostrava sua garra: quando Evita Peron faleceu no inverno de 1952, adversários políticos do peronismo ergueram cartazes com a inscrição: “Viva o câncer!”. Foi um tumor maligno que a levou.

PAIXÃO REDONDA

Também é importante, antes de alçar voo para BA, conhecer algo do mundo da bola. A paixão pelo futebol é algo que flerta com a insanidade. Se um argentino olhar para você e fizer um movimento diagonal com a mão, ele está se referindo ao River Plate. Se o movimento for horizontal, a referência é ao Boca Junior. Os movimentos traduzem a faixas no uniforme das equipes. A rivalidade entre Boca e River é algo de outro mundo.

Vale uma visita ao estádio La Bombonera, no La Boca, bairro operário que abriga outra atração turística, o Caminito, beco estreito ladeado por barracos de zinco pintados em cores vivas. Ali também é possível fazer fotos com astros do futebol como Messi, Maradona, Riquelme e Carlitos Téves, desde que você não se importe com o silêncio e a imobilidade deles; afinal, são apenas bonecos em tamanho real.

Também no bairro tipicamente proletário está o boneco do guerrilheiro Ernesto Che Guevara, argentino de nascimento, morto na selva boliviana. Dica: se fotografar o barbudo e não quiser se incomodar, guarde a imagem para si. Se postar a foto, terá que suportar a patrulha ideológica dos fanatizados pelas igrejinhas políticas.

Outra incongruência no bairro operário La Boca: ali está o metro quadrado mais caro de toda a Buenos Aires, equivalente apenas a Recoleta (melhor apresentado na página seguinte). São os camarotes do Boca Junior, onde há assento para Maradona e a aristocracia do movimento horizontal na camiseta.

Os camarotes vip foram construídos nos anos 1990 pelo então presidente do Boca, Maurício Macri, que duas décadas depois seria eleito presidente da República. Cada espaço apertado destes pode custar até meio milhão de reais.

Jacarandás, plátanos e a influência francesa

  • A arborização de Buenos Aires vem do tempo em que a Argentina figurava entre as cinco principais potências do planeta. Sim, isso ocorreu no início do século passado.
  •  BA atraia gente muita culta da Europa. A França, potência cultural hegemônica da época, teve papel preponderante da arquitetura e no paisagismo.
  •  Foram os paisagistas franceses que orientaram a plantação jacarandás, tipuanas e plátanos, hoje centenários. As espécies foram prospectadas na flora argentina.
  • A escolha foi caprichosa. Segundo con - ta o guia Juan Andres Erjavec, estudou - -se o período de florada das árvores, para que – em alguma medida – a cidade ficasse florida por mais tempo.
  • Assim sendo, dezembro marca o cre - púsculo das flores roxas do jacarandá e a chegada alegre das delicadas flores da tipu - ana, conhecida na capital portenha somente como “tipá”.
  • O tipá põe tapetes amarelos no “ca - mino”, tornando BA mais leve e alegre com suas generosas áreas de sombra.

A Casa Rosada

  • Um dos principais pontos de visitação de Buenos Aires, a Casa Rosada é a sede do governo argentino. O edifício está localizado no ponto em que se erguia a Fortaleza Real de Don Juan Baltazar da Áustria, construída pelo governador Fernando Ortiz de Zárate em 1594. A velha fortaleza foi demolida na década de 1850 para dar lugar ao edifício da Alfândega Nova. Sob a presidência de Domingo Faustino Sarmiento, o edifício foi pintado de rosa, cor que mantém até hoje.

 

Aqui termina a cobiça

Gente que matou e morreu pelo poder, que acumulou fortuna e influência, descansa miseravelmente inerte no Cemitério da Recoleta, o ponto final da aristocracia portenha

 

Incrível – porém revelador – que um dos pontos turísticos mais badalados de Buenos Aires seja o cemitério. Não se trata de qualquer campo santo, até pela escassez de santidade. Trata-se do Cementerio da la Recoleta, cravado na região imobiliária mais cara de Buenos Aires.

Assim que a reportagem do Pitoco chegou ao local, um novo “hóspede” estava sendo preparado para morar ali pela eternidade. O caixão chegou em um soturno veículo negro, uma limousine da última viagem para a cidade dos mortos. Visualmente era possível observar que se tratava de um militar maçom. Militares e maçons são muitos no Cemitério da Recoleta, necrópole de biografias fantásticas, que somente a paixão, o ódio e a busca cega pelo dinheiro e o poder podem explicar.

Inúmeros ex-presidentes argentinos, incluindo o contemporâneo Raul Alfonsin e sua esposa, estão sepultados ali. Não há covas rasas, túmulos, gavetas. O que há são mausoléus que custaram até 1,5 milhão de dólares.

São histórias incríveis. Como da madrugada que se ouviu um disparo de fuzil no Recoleta. Eram os guerrilheiros de extrema esquerda conhecidos como Montoneros. O tiro foi para arrebentar um cadeado e violar o mausoléu do general Pedro Eugenio Aramburu.

O caixão de Aramburu - ditador argentino entre 1955 e 1958 - foi sequestrado pelos Montoneros. O guerrilheiros, que misturavam marxismo com peronismo, exigiam a título de resgate que os militares devolvessem o corpo mumificado de Evita Perón, escondido em Milão, na Itália.

E o mausoléu mais visitado, com turistas de todo o mundo, continua sendo o de Evita. O eleitor argentino precisa de um cadáver famoso para idolatrar. Todas as manhãs, há décadas, surgem flores frescas no túmulo da ex-primeira dama. São anônimos, gente do povo, que fez do gesto um ritual de vida.

De toda forma, ali, no Recoleta está o ponto final das ambições desmedidas, da luta encarniçada por poder e dinheiro, o último capítulo da beligerante e aristocrática elite portenha.

 

Curiosidades do Recoleta

FOCINHO BRILHANTE

  • O focinho na escultura de um cachorro está brilhando. Todo mundo põe a mão ali. Acredita-se que, ao tocar o focinho do “perro” (cachorro, em espanhol), você está carimbando seu retorno para Buenos Aires. O cachorro famoso está ao lado da estátua de sua dona, Liliana, que morreu na viagem de núpcias à Áustria, em 1970. E foi homenageada pelo pai milionário com um mausoléu no Cementério de la Recoleta ao lado de Sabú, o “perro”, que morreu no mesmo dia, mas a 14 mil quilômetros de distância da dona.

RANCOR ETERNO

  • Salvador María del Carril era governador de San Juan. Fez publicar no diário oficial que não pagaria mais as contas da esposa, Tibúrcia, tida e havida como compulsiva nas compras. Magoada, ela passou 30 anos sem conversar com o marido. Quando Salvador morreu, a viúva edificou um belíssimo mausoléu no Recoleta, com uma estátua dele voltada para o Sul. Em vida, Tibúrcia atestou que o busto dela deveria voltar-se para o Norte, de costas para o marido, já que seu ressentimento duraria toda a eternidade

LINDO DE MORRER

  • Desde sempre, o cemitério da Recoleta foi endereço dos mais ricos. Ser enterrado aí era sonho de consumo de muitos, inclusive de David Alleno. Ele era empregado do cemitério e sonhava em passar a eternidade ali. Economizou durante toda a sua vida para que isso acontecesse.Com a ajuda do irmão, viajou a Itália, onde encomendou uma escultura. No dia em que sua tumba ficou pronta, David se matou com um tiro. Estava ansioso demais para inaugurá-la e não conseguiu esperar a morte por causas naturais.

 

Buenos Aires? Nem tanto

Capital tem os problemas semelhantes aos de outras metrópoles e equacionou mal o descarte do lixo; argentino adora uma buzina no trânsito

 

Nem tudo são flores amarelas da tipuana ou roxas do jequitibá em Buenos Aires. Nem em todo lugar o ar é bom. Nas proximidades das lixeiras, por exemplo. A cidade não encontrou ainda uma equação para os detritos e não pode se orgulhar da limpeza.

Há muita pichação em vários pontos, a maioria deles de natureza política, com ênfase em grupos presumivelmente anarquistas que atacam governos e militares. “Fuera milicos do estado assassino” está pichado na embaixada do Chile. A Catedral Metropolitana de Buenos Aires, onde Jorge Mario Bertoglio, o Papa Francisco, foi bispo por uma década e meia, estava isolada por grades na tentativa de afugentar os pichadores.

Há muitos idosos na população de BA. É muito comum ouvi-los tossindo ou pigarrando. Não é para menos. O ar é carregado pela poluição oriunda de uma frota gigante. Mesmo veículos de pequeno porte são movidos a diesel.

O Pitoco captou uma cena muita rara, uma grande avenida vazia, no início da manhã de um domingo. A propósito, a largura das vias, desenhadas na primeira metade do século passado, se deu às custas do estreitamento do passeio, amontoando os pedestres.

Muitas vezes, há avenidas fechadas por manifestações. Quando se pergunta ao motorista do Uber o tempo da viagem, ele ressalva: “com manifestação ou sem?”. Manifesta-se por tudo. Por Macri, contra Macri, pelos coletes amarelos da França, pelos ativistas chilenos, pela “Pirralha”, enfim, há muitos estrangeiros em BA.

No Uber – que funciona bem, rápido e barato – encontra-se motoristas venezuelanos, peruanos e colombianos. Há inclusive um condutor surdo, algo que somente a revolução do compartilhamento por aplicativo poderia permitir.

Os carros de táxi, em esquisita combinação de cores (amarelo e preto), são numerosos, mais de 40 mil. E são (com exceções) mal cuidados, sucateados, sujos e caros. 10 x 0 para os aplicativos. Porém, alguns motoristas “manejam” muito mal. Dirigem mostrando fotos dos netos no celular. Comem faixa, esquecem o semáforo, e dá-lhe buzina. Argentino buzina no trânsito.

Pobreza? Sim, muita, 40% da população, segundo revelou este mês pesquisa publicada por “El Clarin”, o principal periódico portenho.

No Villa 31 está a maior favela do país, com 40 mil habitantes, muitos deles paraguaios, bolivianos e venezuelanos. Olhando da rodovia, e comparando com os morros do Rio de Janeiro, dá para dizer que a favela de los “hermanos” é padrão “classe média” meio esgualepada.

 

Patagônia Roja

  • O termo patagônia vem de big foot, ou pé grande. Está em todos os lugares. A cerveja Patagônia Roja (vermelha), é excelente pedida no verão portenho. A temperatura chegou a 37 graus nesta primeira quinzena de dezembro.
  • Como nem todos apreciam o excelente vinho argentino com o termômetro nas alturas, a Patagônia era a estrela do principal polo gastronômica de BA, o Puerto Madeiro, onde estão alguns dos melhores restaurantes da capital.
  • Ali o que não pode faltar é o bife de chorizo, corte nobre que consagrou a Argentina, retirado do miolo do contrafilé bovino.

Vale o que custa?

  • Um bom restaurante no Puerto Madero, com algumas patagônias vermelhas, irá lhe custar perto de 1,3 mil pesos, cerca de R$ 90.
  • O voo parte de Puerto Iguazu pela Latam; são cerca de 90 minutos até Buenos Aires. Passagem aérea e hospedagem (4 diárias) no bom hotel Savoy (quatro estrelas, decoração francesa, no coração da cidade, próximo do Congresso Nacional), R$ 1,4 mil (em suaves prestações).
  • O transporte por aplicativo é barato. O metrô (primeiro da América do Sul) é funcional e abrangente. Resumo: Buenos Aires é um ótimo lugar para visitar e mais em conta que muitos destinos turísticos brasileiros.

Em tempo: leve adaptador para tomadas ou uma potente bateria suplementar para seus gadgets.

 

Compatriotas no metrô

  • Atrapalhado no metrô de Buenos Aires, o Pitoco foi interpelado por dois estudantes. Gentis, eles deram dicas importantes. Emily, de Cuiabá, e Murilo, de Brasília, estão cursando Medicina na Fundación Barceló, universidade privada da capital portenha. “No auge do custo, a mensalidade fica em R$ 1,5 mil”, disse Murilo, que terá de validar o diploma para exercer a profissão no Brasil.