Cascavel, Quinta-feira, 05 de dezembro de 2019

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Capeta mora no zap

Baixado em mais de 200 mil celulares em Cascavel, WhatsApp tira o protagonismo do Facebook e terá papel central nas eleições 2020
Postado em 28/11/2019

Provavelmente a mentira começou nas cavernas, ou sobre as árvores, talvez entre Adão e Eva já rolou um fake news - dependendo do conjunto de crenças de cada um. Certo mesmo que a mentira é tão antiga quanto o Sapiens, ou antes dele, o homem de Neandertal.

Há quem relativize: “Não devemos fazer da mentira uma prática diária, mas nem todas as verdades devem ser ditas”. Fato é que o maior difusor de mentiras já desenvolvido depois da língua, o WhatsApp está no centro da estratégia política.

O Pitoco conversou com fontes já envolvidas no processo das eleições municipais do próximo ano. Para não entregar a estratégia aos adversários, elas pediram para não ser identificadas. No momento que estamos lendo esse texto há equipes prospectando celulares nos bairros. A missão é obter o “zap-zap” do maior número de eleitores possível. Isso vai para um banco de dados capaz de segmentar tudo: moradores de determinada rua setorizados por bairros e até por categoria profissional.

Os cérebros por trás da empreitada dão um status diferenciado ao zap. “Facebook já era. Deu certo nos EUA quando fake news movidas por robôs russos do Trump demoliram os Democratas. No Brasil, quem manda é o zap”, diz o marqueteiro de uma das campanhas a prefeito de Cascavel.

Segundo essa fonte, 265 mil celulares de Cascavel ostentam na tela o aplicativo verde com um telefone no círculo. Ou seja, há mais celulares com o zap na tela do que eleitores. Não é incomum ver o tiozinho que cata lixo na rua enviando mensagem de voz.

O WhatsApp passou a ser tão presente e produzir tantos impactos nas comunidades, que os responsáveis pelo aplicativo passaram a adotar medidas de redução de danos. Limitaram o número de mensagens que você pode replicar a apenas cinco contatos.

Mas a turma acha um jeito de furar o cerco. Já na campanha do ano passado descobriu-se um mercado negro do chip na Bahia. Ali era possível comprar chips (vendidos pelas operadoras a mais de R$ 20) por “cincão” cada. Aí é só municiar dezenas de pontos de impulsionamento e abrir a metralhadora da mentira fabricada.

Os chips baianos baratinhos foram usados na campanha de 2018, inclusive por candidatos de Cascavel.

Adeus, panfleto sujo

- A possibilidade de multiplicar uma mentira, usando a ingenuidade de uma parte do eleitorado e a canalhice de outra – que mesmo sabendo se tratar de uma mentira, envia a mensagem para frente – era uma arma de papel.
- Historicamente as eleições em Cascavel foram marcadas pela distribuição de panfletos sujos, apócrifos, produzidos para destruir reputações.
- Equipes eram pagas por candidatos apenas para patrulhar na madrugada os bairros mais populosos e tentar impedir o derrame dos panfletos.
- Agora, com o advento do WhatsApp, maior profusor de mentiras já desenvolvido, a tarefa de conter os mentirosos tornou-se missão impossível.


Em tempo: As listagens de WhatsApp recolhidas na periferia servirão somente para fazer o mal? Não, também serão usadas para construir imagens políticas. Mas todos sabemos que este tipo de ferramenta é muito mais eficaz na destruição.