Cascavel, Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

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No bar do Penco

Ao picotar o bilhete premiado do pré-sal, agimos como o milionário da Mega-Sena morto pela “Égua Loura” em bodega periférica
Postado em 28/10/2019

Jairo Eduardo - Editor do Pitoco
A descoberta do pré-sal no litoral brasileiro gerou momentos de ufanismo. O então presidente Lula chegou a falar em “bilhete premiado”. Parecia ser a redenção econômica e social do mais longevo país do futuro da história.

Após chantagear o governo na aprovação da reforma da Previdência, o Senado decidiu picotar o bilhete. Irá por um barril de petróleo nas costas de cada um dos mais de cinco mil prefeitos brasileiros e dos 27 governadores. Estamos falando de R$ 106 bilhões, ou ainda mais: algo que pode chegar a 30 bilhões de dólares dependendo do apetite das petroleiras que irão disputar o mega-leilão do petróleo no próximo mês. O dinheiro vem do bônus de assinatura da cessão onerosa.

A fortuna pulverizada pelo país vale pouco. Será bem aplicada por fulano, roubada por siclano e pagará privilégios e mordomias de beltrano. Enfim, mesmo que os “fulanos” sejam majoritários nisso, a fortuna fragmentada perde força.

TRILHÃO NÓRDICO

Como fizeram outros países? A Noruega criou seu fundo soberano com o petróleo descoberto no Mar do Norte. Hoje tem 1 trilhão de dólares aplicados e rendendo. É uma poupança, um lastro, capaz de enfrentar qualquer tsunami econômico no planeta.

No campo oposto do petróleo, a Venezuela tem milhões de miseráveis grameando sobre as maiores reservas do planeta, no vale do rio Orinoco.

Queremos o machado de ouro dos vikings ou apodrecer como os infelizes eleitores do Maduro? Seria luxúria constituir uma poupança bilionária como a norueguesa em um país desalentado como o Brasil? Então qual seria outro caminho?

BALA DE PRATA

Com os mesmos 30 bilhões de dólares que vamos picotar agora em novembro, a China construiu, em 39 meses, uma mega-obra de infraestrutura, setor que gera muitos empregos e dinamiza a economia: 1.318 quilômetros de trem de alta velocidade ligando a capital Pequim até o centro financeiro, Xangai. Seria como ligar Curitiba a Brasília a 300 km/h pelo preço de R$ 100 por passageiro. De carro a viagem consumiria quase 17 horas. No trem bala chinês, menos de cinco.

“ÉGUA LOURA”

Em julho de 2005, o deficiente físico carioca Renné Senna viu sua vida mudar ao ganhar R$ 52 milhões de reais no concurso 679 da Mega-Sena. Entre generoso e relapso, ajudou os 11 irmãos e envolveu-se com uma “novinha” conhecida como “Égua Loura” ou “Viúva da Mega-Sena”.

Traído, ameaçou tirá-la do testamento. Desprevenido como a nação que não sabe o que fazer com suas riquezas, foi tomar uma no Bar do Penco, em Rio Bonito. Foi assassinado a tiros sob encomenda da “Viúva da Mega-Sena”.

O Brasil é o paraplégico que tirou o bilhete da loteria, encheu os bolsos furados e foi ao bar beber uma. Poderia investir a grana em um projeto de educação. Se houvesse um projeto para educação... Poderia investir em um megaprojeto de infraestrutura. Se existisse um... É um país sem projeto que se encantou com a novinha, levou o drible da égua loura e picotou o bilhete premiado.

A “Viúva da Mega-Sena” pegou 20 anos de cana, mas cumpre a pena em prisão domiciliar. E nossa nação? Permanece presa. Presa ao varejinho da política, ao improviso, ao voo de galinha de quem não consegue planejar a longo prazo. É o chinês no trem-bala e o brasileiro de Maria Fumaça, rumo ao bar do Penco...