Cascavel, Sexta-feira, 18 de outubro de 2019

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General Eickhoff - “Política não entra no quartel!”

Comandante de uma das mais prestigiosas unidades militares, sediada em Cascavel, o general Eickhoff é enfático: “temos militares no governo, mas o Exército não está no governo e o governo não está no Exército”.
Postado em 19/09/2019

Quando esteve em Cascavel na campanha eleitoral do ano passado, recebido efusivamente pela fina flor da maçonaria local, o general Amilton Mourão hoje vice-presidente da República, disse que as escolas militares brasileiras resistiram a doutrina exóticas. Ele se referia a um suposto assédio ideológico do PT ou do lendário Fórum de São Paulo.

Mourão disse também que a Venezuela não teve a mesma sorte, e as forças armadas daquele país hoje são o sustentáculo de um regime ditatorial e opressor. Há até quem defina o regime caribenho como uma típica ditadura militar terceiro-mundista, a exemplo de tantas outras, com signo ideológico trocado, que matizaram a história recente da América do Sul.

De fato o bolivarianismo cooptou as forças armadas com vistosos cargos e distribuindo insígnias para os militares leais a causa. Há muitos generais, almirantes e brigadeiros nas forças armadas venezuelanas. São mais de 2 mil oficiais ostentando as divisas que os elevam para o topo da carreira e os obriga, em contraparte, a jurar lealdade ao regime.

Para dar uma noção da desproporção, o Brasil tem 270 generais. Maduro tem mais de 2 mil. Generais, almirantes e coronéis ocupam metade dos governos de estados e 12 dos 32 ministérios bolivarianos. Também controlam a distribuição de alimentos, medicamentos, e administram a petroleira PDVSA, incumbida de explorar as maiores reservas do planeta.

 

Continência no café

Um dos 270 generais brasileiro foi promovido a essa condição no ano passado – por meritocracia, não pelo que pensa sobre a política. Trata-se de

um general de Brigada de sobrenome germânico crivado de consoantes que dificultam a pronúncia, Roberth Alexandre Eickhoff.

Ele foi o entrevistado do Café com Pitoco, evento mensal que debate temáticas pertinentes do contexto regional, eventualmente nacional e internacional, como foi o caso em tela.

O general é comandante da 15ª Brigada de Infantaria Mecanizada, unidade militar estratégica pela sua larga abrangência e pela missão fronteiriça com alçada sobre o Parque Nacional do Iguaçu e no epicentro do Mercosul - às vias de firmar importante acordo com a União Europeia e abril um mercado de 512 milhões de bocas para os agronegociantes brasileiros.

Dono de uma ascensão meteórica no Exército, instituição na qual ingressou aos 16 anos de idade, Eickhoff recebeu as insígnias de aspirante a oficial na rigorosa Academia Militar das Agulhas Negras, no Rio de Janeiro, no final dos anos 1980. Comandou unidades em Curitiba e Ponta Grossa. Participou da operação de pacificação no Complexo do Alemão, no Rio, em 2011 e da missão de paz da ONU no Haiti.

Mas a temática explorada no Café com Pitoco do último dia 28 de agosto diz respeito a outro ítem constante na curriculum vitae do general: o pós mestrado que o habilitou a ostentar as duplas estrelas do generalato e o incluiu no seletíssimo grupo de 3% do militares que cursam Agulhas Negras e chegam ao topo da carreira.

A capacitação para tanto ocorreu na Europa, na Polônia, em um curso de alto nível de política e estratégica, oferecido pelo Exército Brasileiro aos seus mais destacados oficiais.

Sem política

A exemplo do general Luna, comandante de Itaipu, Eickhoff recebeu a promoção ao generalato no simbólico dia 31 de março, data da redentora para alguns, ou de um golpe militar, para outros, dependendo do lado da trincheira que o observador está.

O comandante da Brigada não fugiu da pergunta, e ela veio cheia de espinhos: O governo Bolsonaro comporta tantos militares em seus escalões superiores quanto o regime bolivariano de Maduro.

Há o risco de a política contagiar os quartéis? Teríamos aqui uma ideologia política de sinal inverso ao bolivarianismo doutrinando nossos militares? O quartel do Exército vai virar um “puxadinho” do PSL, o partido de Bolsonaro?

Existe o risco de, uma vez contrariado, o regime bolsonarista degringolar para um golpe militar, com apoio de generais ostentado bótons do partido em seus uniformes?

“Não há espaço para uma intervenção militar... a democracia nos oferece todas as ferramentas para resolvermos os nossos problemas. A ferramenta que cada pessoa tem ao seu alcance é o voto” afirma o general.

E vai além: “política não entra no quartel. Temos militares no governo, mas o Exército não está no governo e o governo não está no Exército. Somos uma instituição de Estado”.

Acompanhe na sequência outros trechos da entrevista concedida pelo General Eickhoff no Café com Pitoco:

 

 

Amazônia I

Temos um planejamento de emprego de tropa, considerando uma hipotética invasão estrangeira. Até pelas dimensões do terreno, sabemos que é difícil impedir uma invasão. Mas estamos preparados para defender o território como os vietnamitas defenderam na guerra vitoriosa contra uma força superior, os EUA. O inimigo pode até entrar na Floresta. Mas não vai sair...

Amazônia II

Nem todos que frequentam a Amazônia estão preocupados com meio ambiente. Não faz sentido encontrar um padre lá usando balanças de precisão ou equipamentos sofisticados de mineração. (incluir trecho correto). Há interesses de outros países lá, normalmente interesse econômico.

Patrulhas

Preservar o meio ambiente é uma de nossas missões. Até por que utilizamos matas virgens em nossa instrução. São os locais onde fazemos o adestramento na selva. É questão de preservar nosso campo de instrução. Aqui, na Brigada, estamos a menos de 150 quilômetros da fronteira e por essa razão temos o poder de polícia para coibir crimes ambientais. Atuamos em parceria com o ICMBio, patrulhando áreas no Parque Nacional do Iguaçu.

Desapego

Militar não pode se apegar. Somos transferidos a cada dois anos. Quando solteiro, conheci o Brasil inteiro, suas diferentes culturas. Constituí família e aí veio a dificuldade. Minha esposa abandonou a carreira de nutricionista e não pode mais retomá-la. Só Deus sabe para onde vamos. Avisam uma semana antes o destino. Transferidos novamente, juntamos a tralha, loucura geral, filho chorando, esposa chateada, é a rotina do militar. Perguntam só por perguntar: “aceita a missão no Complexo do Alemão? Respondo: aceito.

Funil

A academia militar forma 400 oficiais por ano. Destes, em média, após 30 anos, 3% chegarão a general de brigada, o equivalente a 12 homens entre 400 formados. 2% chegarão a general de divisão, e 1%, depois de 42 anos, de serviços prestados, a general quatro estrelas.

Herói ou vilão?

Caxias, o patrono do Exército, sempre buscou pacificar, conquistar corações e mentes, catalizador da unidade nacional, ele oferecia o perdão, tratou com humanidade vencedores e vencidos. Morreu simples como viveu simples, não enriqueceu às custas das vantagens que poderia ter tido. Dizem que martirizou o povo paraguaio, eliminou a população masculina, incluindo crianças. Não foi assim, fomos invadidos, o Paraguai quem decidiu assim.

Guerra e paz I

Hoje temos ótimas relações com os vizinhos e a guerra parece figurar em um horizonte distante. Como parecia distante em 1982, na guerra das Malvinas. Ninguém imaginava que Argentina se lançaria em campanha contra o Reino Unido. Mas o governo argentino de então, precisando de apoio da população, o que faz? Faz uma guerra.

Guerra e paz II

Entre as ações que podem juntar uma nação, juntar mesmo os lados contrários, como na política polarizada de hoje, está uma guerra. Há áreas de fricção em nossas fronteiras. O Evo Morales, da Bolívia, declarou que o

Brasil trocou o Acre por um cavalo, ressuscitando uma questão que se julgava enterrada.

O artigo 142

Nossa instituição tem muita clareza de seu papel, definido no artigo 142 da Constituição. Buscar a unidade apesar da bipolaridade. O Exército busca a unidade e a estabilidade. Não estamos aqui para botar lenha na fogueira, gasolina no fogo. Estamos para serenar ânimos e buscar a coesão.

A carreira

Disponibilidade é uma exigência da carreira militar. Não participamos de ação política, não nos sindicalizamos e não fazemos greve. Convivemos com o risco, somos submetidos a dedicação exclusiva, está proibida a atividade política. Nossa remuneração é inferior às demais carreiras de estado. Dentro da União temos a pior remuneração. Militar não se aposenta, passa para a inatividade, podendo ser mobilizado a qualquer tempo.

Política fora I

As forças armadas não estão no governo. Há militares no governo. É quase um mantra, quantas vezes falei isso lá na brigada... falei dezenas de vezes aos comandantes: digam isso diariamente nos quartéis - e essa pregação vem de Brasília - política não entra no quartel. Já entrou em 1935 na Intentona Comunista, quando se discutia abertamente política nos quarteis. Resultado? Militares mortos dormindo. Isso foi o resultado de política dentro do quartel.

Política fora II

Houve outros tempos históricos em que militares eram muito envolvido na política, como na República Velha. Hoje não entra. Político entra no quartel e vem falar com o comandante. Nós queremos conversar com os políticos, conhecer a política. Eles podem vir falar. A conversa será com o comandante. Mas para precaver vale deixar bem claro: governo é governo, temos militares no governo, mas para por aí. O Exército não está no governo, o governo não está no Exército. Temos a plena consciência de que somos uma instituição do Estado. E o estado é base sobre a qual o governo vai exercer sua atividade, nós somos o estado.