Cascavel, Terça-feira, 17 de setembro de 2019

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O riso venceu a carranca

Para expressar seu mau humor, você precisa movimentar 102 músculos da face; para sorrir, apenas 6. Exercite a lei do menor esforço
Postado em 29/08/2019

Confesso que desconhecia o humorista Léo Lins. Não há motivos para esconder minha ignorância a respeito do rapaz de 36 anos que tem no currículo o fato de trabalhar com o Gentili, esse sim, conhecido pelo espaço que cavocou na rede algo como um Tiririca envernizado. Não dá para conhecer todo mundo. Celebridades surgem e desaparecem na internet no exíguo espaço dos 15 minutos de fama.

Fiquei sabendo que o Lins existia quando um vídeo saltou na tela  do meu celular. Era o próprio, trazendo uma narrativa alternativa da história de Cascavel, com base em fatos pitorescos como onças, tigres, bairros com nome de autódromo, o inacabável Catuaí e até um dinossauro assustando gente na rua.

Como Lins citou um político conhecido da cidade, ao dizer de forma dúbia que o ex-prefeito “sobreviveu a vários crimes”, acabou por suscitar a réplica de um ex-secretário. Na sequência o humorista deu sua tréplica: triplicou o número de ingressos vendidos.

Todos os que foram mal-humorados com o Lins ajudaram o comediante a vender ingressos. O local estava lotado, a fila saia da portaria e dava quase meia volta no gigantesco centro de convenções. Quase todos eram jovens. Soube depois que esses meninos e meninas ajudaram no roteiro do tal vídeo, passando algumas esquisitices da cidade para a assessoria do humorista.

Houve outras reações negativas às piadas de Cascavel. Foram elas que me levaram ao anfiteatro ver o show. Queria conhecer o sujeito que reúne tanta coragem para fazer piada num Brasil contaminado pelo mau humor da política e pela ditadura do politicamente correto.

As coisas poderiam ser mais simples: não gosta das piadas na linha hipopótamo (suja e pesada)? Não vá ao show. Se está ruim o espetáculo, vaie o humorista e retire-se. Isso é liberdade de expressão, palavrinhas que causam urticária em uma galera que saiu diretamente da caverna da obscuridade política para o protagonismo insensato.

“O humorista é, invariavelmente, mal humorado. Seu humor vem de uma profunda e constante indignação com a degradação da raça humana”. A frase encontrei na internet, sem autoria divulgada. A outra que achei tem autor: Kurt Cobain. Diz ele: “Meu mau humor atinge o meu relacionamento com a minha própria pessoa”.

No fim das contas, com o teatro jogando gente pelo ladrão, Leo Lins mostrou que o sorriso debochado pode vencer a carranca. E ainda deixou um importante ensinamento para você, cansado da bipolaridade política brasileira que ameaça internar uma nação inteira no hospício: “Contra mau humor crônico alheio, tome um chá de sumiço. É tiro e queda”. Sugestão de destino: Lugar Incerto e Não Sabido (Lins).