Cascavel, Quinta-feira, 23 de maio de 2019

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Karnal viu rua deserta e gente mal-encarada aqui

Badalado filósofo viveu em Cascavel aos 18 anos de idade e desejou ser apedrejado
Postado em 08/04/2019

“Não existe um país no mundo onde o governo seja corrupto e a população honesta e vice e versa”. Frases cortantes como esta marcam a trajetória do gaúcho Leandro Karnal, doutor pela USP e professor da Unicamp, autor de inúmeros livros, considerado um dos relevantes intelectuais contemporâneos.
No livro “Crer ou não Crer”,  em parceria com o pe. Fabio de Melo, que figurou entre os 10 mais vendidos na categoria “Não Ficção” em 2018,  Karnal relatou o período em que ainda tinha “telhado”, e fez o noviciado jesuítico em Cascavel, no seminário do Bairro Brasmadeira, na periferia Norte. O noviciado é um dos períodos da formação de um religioso.
No livro, Karnal relata a passagem por aqui: “Fiz o noviciado em Cascavel. Recém-saído de uma aula de mística, uma senhora pediu a Eucaristia. Ela ligou para o padre, mas ele não podia. Eu acabei indo...Era uma estrada deserta e no caminho havia umas pessoas mal-encaradas. Eu me lembrei da história de São Tarcísio, ele foi morto levando a Eucaristia. Foi apedrejado. Então, naquele momento, eu desejei o martírio. Eu tinha 18 anos. Das bobagens que se pode fazer na juventude, desejar o martírio é a menos graves (risos). Não fui apedrejado”.
Poupado das pedras, mas não das moedas, Karnal afastou-se da igreja e hoje é o segundo maior cachê de palestra do Brasil, atrás apenas do também professor Sergio Cortella.
Para ouvir histórias como esta, no breu da periferia Norte de Cascavel, é preciso pagar entre R$ 60 mil e R$ 90 mil. É o valor das palestras do menino que quis ser apedrejado para virar mártir.
Ressalve-se, porém: Tanto Karnal quanto Cortella, embora faturem alto com cachês, também fazem diversos eventos gratuitos para entidades sem fim lucrativo.

Berço do PT e do MST

O seminário do noviciado jesuíta, no Brasmadeira, foi o berço da Pastoral Operária em Cascavel, no início dos anos 1980. Ali as chamadas Comunidades Eclesiais de Base, influenciadas pela chamada “Teologia da Libertação”, tinham raízes profundas e forneceram alguns dos primeiros quadros do PT e do movimento sindical na cidade.
Outro seminário cascavelense, o São José, sediou a reunião que fundou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. O MST foi fundado em Cascavel, em 1984, como relata esse trecho no portal oficial do MST:
“Em 1984, os trabalhadores rurais que protagonizavam essas lutas pela democracia da terra e da sociedade se convergem no 1° Encontro Nacional, em Cascavel, no Paraná. Ali, decidem fundar um movimento camponês nacional, o MST, com três objetivos principais: lutar pela terra, lutar pela reforma agrária e lutar por mudanças sociais no país”.