Cascavel, Sábado, 20 de abril de 2019

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Renato Silva, quase...

Por muito pouco o empresário não foi candidato único a prefeito de Cascavel em 2000; revelação surpreendeu participantes do Café com Pitoco
Postado em 01/04/2019

As estrelas estavam alinhadas para Renato Silva ser o candidato único a prefeito de Cascavel no último sopro de um milênio, o ano de 2000. Ele admite que trabalhou por esta possibilidade. “Não é pecado”, afirmou no “Café com Pitoco” do último dia 27 de fevereiro.

Seria uma façanha e tanto. Afinal, o que nunca faltou em Cascavel foi rivalidade política e profusão de candidatos a ocupar aquela cadeira estofada no 3º andar do Paço.

Porém, de fato, naquele ano o quadro enxugou. Tanto assim que o pleito foi quase plebiscitário: Edgar Bueno x Tiago de Amorin Novaes. Por que a candidatura única não prosperou?

É possível entender melhor o contexto histórico nesta entrevista concedida pelo fundador da Univel no evento mensal realizado pelo Pitoco com apoio institucional do Sicoob Credicapital, Condomínio Vila Firenze e Bourbon Cascavel Express.

As origens
Nasci em Rio do Sul, Santa Catarina, mas passei a infância em Tapejara do Norte, aqui no Paraná. Fomos trabalhar na lavoura do café. Curioso isso para um catarina que não tinha visto café nem dentro da xícara.

A grota
Era uma família de 11 irmãos que comia pão de trigo uma vez por mês. No dia a dia, era pão de inhame colhido lá da grota. O pai era rigoroso, dava amor, mas impunha ordem e disciplina na família. O divertimento aos domingos vinha somente após socar pilão pela manhã. À tarde então  podíamos jogar bolita. Às 18 horas todos tinham que se apresentar para tratar os animais.

Lenheiro
Caminhava seis quilômetros do sítio até a escola. Passava muito medo, eu era criança, voltava pelos pastos e matos,  já estava escuro, era susto com cachorro, com barulhos. Logo arrumei um emprego em um hotel, rachando lenha.

Alexandrina
Fui promovido ao bar do hotel, tentei namorar a Alexandrina, mas os pais dela foram contra: “Imagina só, minha filha namorando com o rachador de lenha?” Me casei em Tapejara com a Ódina, companheira de uma jornada de 46 anos. Casamento é assim, há uns embates frontais, mas só tenho a agradecer à Ódina: são três filhos e três netos, os tesouros que Deus me deu.

Saqueiro
Na juventude trabalhei em farmácia, em armazém de secos e molhados... Ainda hoje me recordo daqueles homens testando o menino saqueiro. Jogaram um saco de 60 quilos em minhas costas, como para me testar. Quase caí, mas levei o saco até onde tinha que ser levado.

Formiga
Quando vejo, como aconteceu em meu aniversário de 68 anos (em 26 de fevereiro), doutores e mestres presentes ao evento organizado na Univel para me homenagear, me recordo da infância difícil e chego à conclusão que ninguém pode ser subestimado, nem mesmo uma formiga.

O empreendedor
Muito jovem ainda, comprei um cacho de bananas e um engradado de aguardente das marcas Três Fazendas e Oncinha. Montei um boteco. Lugar muito pobre e coração grande. Vendia fiado, me comovia, não sabia dizer não. Claro que ia quebrar, e quebrei (Renato chora neste trecho).

O vendedor I
Pensei: como vou pagar essa conta? Arrumei emprego para viajar por uma empresa de armarinhos de Maringá. Uma das linhas vinha até Corbélia. Minha irmã já estava em Cascavel. No moinho Corbélia, do Badotti, eu disse: “Tem alguma coisa para eu vender aí?”.

O vendedor II
Virei vendedor de farinha de trigo, mudei-me para Cascavel em 1975. Me deram um fuscão para eu fazer a região. Na primeira visita, vendi 20 sacos para a Panificadora Quincas, em Toledo. Pensa num cara feliz!

O pagador
Graças a Deus ganhei dinheiro, voltei a Tapejara com uma lista deste tamanho. Eu devia para o padeiro, o leiteiro... Que alegria pagar aquelas contas! Paguei todo mundo.

Urnas na veia
Em 1980, o Tancredo Neves organizava um partido. O representante no Paraná era Affonso Camargo que tinha laços com os Badotti, meus patrões. Precisava filiar gente e lançar alguém candidato a vereador. Para ser obediente fui candidato em 1982, fiz 1.749 votos, o mais votado entre os novos.

Nome de rua
Depois fui secretário de Administração, presidente da Câmara, prefeito em exercício. Já posso até ganhar nome de rua quando morrer, se ainda restar uma rua a ser nominada.

Enxuto
Como presidente da Câmara, já tínhamos 21 vereadores e menos de 20 funcionários. Era um assessor por bancada. Tínhamos 13 vereadores no MDB e um único assessor, o Valentin Bressan, que hoje mora em Florianópolis. E dava conta de tudo.

Cueca furada
Como dizia o Ulisses Guimarães, abri a mala, coloquei um pijama, escova de dente e umas cuecas furadas e rumei para Brasília. As possibilidades jogavam contra. Eu mal e mal sabia vender açúcar, como iria fundar uma universidade?

Malucos I
Levei sorte, fiz amizades, procurei mais ouvir do que falar, fiquei amigo dos conselheiros. Foi muita luta. Até aqui na cidade havia divisão - uns contra, outros a favor. O pessoal da OAB daria apoio à criação do curso de Direito desde que eu fechasse o curso que funcionava em Toledo, olha as maluquices!

Malucos II
O curso de Direito me levou à loucura, fiquei dois anos indo todo mês até à antessala da reunião do conselho. No dia em que foi aprovado o curso, que era o 16º item da pauta, eu já estava com a mala dentro do taxi, não aguentava mais, ia embora para não voltar mais.

As rádios
Quando vereador eu não gostava da forma que o jornalismo da Colmeia era conduzido. Tinha um programa lá que ao invés de unir as pessoas em torno de causas, dividia a sociedade. Esse foi um dos motivos pelo qual eu aceitei a oferta e comprei a emissora - para mudar aquilo...

Perdulários
A rádio não estava bem financeiramente, na época. Apanhei muito para ajustar aquilo e também o conteúdo. Alguns setores do jornalismo têm muito para falar, mas não têm gestão. Eles têm solução e opinião para tudo, mas não têm para si próprios.

Santa Tereza
A rádio FM de Santa Tereza do Oeste eu obtive por concessão. Em outros tempos era muito comum se alinhar politicamente com interesses políticos de Brasília, como foi no caso dos cinco anos de mandato para o Sarney. Comigo não foi assim.

Bananada I
Rádio não é grande negócio. A de Santa Tereza enfrenta dificuldades até hoje. Certo dia, quando eu negociava a Colmeia, um determinado diretor da emissora da época me disse: “Possivelmente, se você comprar bananas com o dinheiro, terá mais resultado que comprando uma rádio”.

Bananada II
Mais adiante em seu raciocínio, ele disse: “Mas se você comprar bananas, você será o bananeiro. Se comprar a rádio, será um dono de rádio. Se você ligar para o general e disser para a telefonista que você é o bananeiro, ele não irá atender a ligação”.