Cascavel, Quarta-feira, 19 de junho de 2019

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Agonia no campo: quedas de luz preocupam produtores rurais no Paraná

Problema é mais agudo na região Sudoeste, que concentra produtores de suínos, aves e leite. Copel diz que está investindo para melhorar as linhas de distribuição
Postado em 06/03/2019

No final de fevereiro, o governador Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) viajou aos EUA, acompanhado por uma comitiva do Executivo estadual, para prospectar soluções tecnológicas para o agronegócio paranaense. Acompanhado do secretário de Planejamento e Projetos Estruturantes, Valdemar Bernardo Jorge, e dos presidentes da Celepar, Allan Costa, e da Agência Paraná Desenvolvimento, José Eduardo Bekin , Ratinho visitou empresas do Vale do Silício, consideradas exemplo no fomento à inovação.


No cotidiano, porém, os desafios enfrentados pelos produtores rurais do Paraná estão bem longe da realidade da alta tecnologia. O problema principal está na infraestrutura para o recebimento de um insumo básico: a energia elétrica. As frequentes interrupções no fornecimento – e os prejuízos ocasionados pelas quedas – têm mobilizado os empresários do setor, especialmente na região Sudoeste do Paraná.

As reclamações chegaram aos deputados estaduais paranaenses, que cobraram medidas contra o problema em sessão na Assembleia Legislativa do Paraná, também na última semana. A Copel, por sua vez, afirma que investirá R$ 2,6 bilhões na distribuição de energia elétrica (veja os detalhes abaixo).

Sem comida e com calor
O fato de a queixa ser mais estridente entre os produtores de cidades do Sudoeste do estado não é à toa. Na região se concentram produtores de suínos, peixes, aves e leite – as culturas mais afetadas quando ocorrem as quedas de energia. “Esse tipo de produção é mais sensível por que, quando há uma interrupção no fornecimento de energia elétrica, a mortandade dos animais acontece de forma muito rápida”, explica Luiz Eliezer Ferreira, economista da Federação da Agricultura do Paraná (Faep).

Em Francisco Beltrão, o empresário Roberto Pecoits – que também é diretor da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep) – é um dos que sentem no bolso os resultados da queda de energia. A propriedade de Pecoits é especializada em ovos férteis e pintinhos, que somam produção de 100 mil unidades por dia. A empresa trabalha, também, com 90 mil dúzias de ovos para consumo por semana.

O produtor explica que, além da frequência das quedas, o principal problema enfrentado pelo setor é a duração dos períodos sem energia elétrica. “Há duas ou três semanas, ouvi os relatos de um produtor que ficou 25 horas sem luz. Ele perdeu 12 mil frangos”, diz Pecoits.

A explicação para perdas tão significativas está justamente no nível de mecanização e de uso de tecnologias na produção de animais. No caso dos frangos, por exemplo, a alimentação e o controle de temperatura são automatizados. Além disso, sem energia muitas propriedades não conseguem captar água para fornecer aos bichos.

As perdas, em dinheiro
Apesar de significativas, as perdas financeiras ocasionadas pelas interrupções são difíceis de mensurar. Para dar a dimensão do problema, o economista da Faep usa um exemplo com base em um caso hipotético. “Se um produtor tem 50 mil aves alojadas, e vende cada uma por uma média de R$ 0,78, o prejuízo da perda da produção pode chegar a R$ 39 mil”, diz Ferreira.

No caso do leite, as perdas também são altas porque o produto, altamente perecível, precisa ficar armazenado em ambientes resfriados. “Podemos pensar em um produtor que armazene três mil litros de leite por dia. Se o resfriador ficar sem energia, com o leite a R$ 1,26 o litro, o produtor teria um prejuízo de R$ 3,78 mil em apenas um dia”, explica o economista. “Isso tudo sem contar os possíveis danos em equipamentos”, completa.

As quedas, em números
As interrupções de energia que tanto afligem os produtores não dão dor de cabeça só no campo. Segundo dados do Painel de Desempenho das Distribuidoras de Energia Elétrica, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as quedas são motivo para 94,57% das reclamações dos consumidores atendidos pela Copel. Ainda de acordo com as informações da Aneel, a quantidade média de interrupções por unidade consumidora atendida pela empresa passou de oito por mês em 2018.

A Aneel também informa a duração das interrupções. Considerando todas as quedas por unidade consumidora, o resultado é de uma média de mais de 15 horas por mês sem fornecimento de energia no ano passado. No caso dos atendimentos aos chamados por ocorrências emergenciais, em 2018 o período de espera médio ficou entre três e quatro horas.

Por fim, quando comparada às outras distribuidoras de energia consideradas grandes – ou seja, que atendem a um mercado com mais de 400 mil unidades consumidoras –, a Copel Distribuição não fica entre as melhores na qualidade do serviço prestado, segundo a Aneel. No chamado Ranking de Desempenho de Continuidade de 2017, em que a Agência considera a quantidade e a duração das interrupções no fornecimento, a Copel ficou em 19º lugar entre 33 empresas. A campeã foi a Energisa, de Minas Gerais.

Problema generalizado
Os dados não implicam, porém, que a situação esteja confortável em outras regiões do país. De acordo com Cícero Bley Junior, empresário do setor de energias renováveis, o problema na estabilização do sistema do fornecimento é enfrentado em todo o país, e não somente no Paraná. “O modelo brasileiro de geração, transmissão e distribuição de energia faz com que as pontas das linhas tenham apagões sucessivos”, explica.

Segundo ele, o principal gargalo está na centralização do sistema, estratégia que não é bem sucedida em países de grandes dimensões como o Brasil. “A integração nacional funciona melhor em países da Europa, porque os territórios são menores. Em grandes extensões, há perda de 10% a 15% de energia somente na transmissão”, diz.

No caso do Paraná, os problemas se agravam porque regiões que antes tinham pouca demanda, como o Sudoeste, cresceram com base em atividades que precisam de grande quantidade de energia – o que não foi acompanhado pela estrutura do sistema. “As redes são muito antigas. Pedimos junto à Copel para que haja uma melhor manutenção dessas linhas e estamos esperando os investimentos”, diz Luiz Ferreira, da Faep.

Solução possível
Além da manutenção, o caminho para melhorar o serviço pode incluir a instalação dos chamados microgrids. Esse tipo de rede é complementar ao sistema como um todo, e geralmente é sustentado por recursos energéticos locais, como o sol ou o vento. “Como ficam mais próximos das unidades consumidoras, os microgrids podem trabalhar separadamente ou integrados ao grande sistema, dependendo da quantidade de energia que está sendo solicitada”, explica Cícero Bley Junior.

Por conta dessa característica, as redes locais podem entrar em ação em casos de interrupção no fornecimento, suprindo a demanda enquanto o sistema comum não é restabelecido. “Isso tudo é uma questão de segurança energética. As empresas não se mexem para produzir um sistema nacional mais inteligente e, com isso, vão colecionando recordes negativos”, critica o empresário.

O que diz a Copel
Procurada pela reportagem, a Copel enviou nota em que afirma que, até 2021, serão investidos R$ 2,6 bilhões na distribuição de energia elétrica. Para 2019, o investimento previsto é de R$ 835 milhões, dos quais 65% serão destinados a obras. Entre as melhorias estão previstas ações no âmbito do programa Mais Clic Rural, voltado para as redes do interior.

Lançado em 2015, o Mais Clic Rural tem o objetivo de modernizar as redes de energia no campo. Segundo a Copel, medidas como a instalação de religadores automáticos proporcionaram redução de 22% na duração da falta de energia para os produtores entre 2015 e 2018.

Em relação à instalação de microgrids, a Copel informa que está investindo em dois projetos do tipo. Um deles fica em Faxinal do Céu, próximo à Usina Foz do Areia. Já o segundo caso é fruto de uma parceria com a Itaipu Binacional. O sistema, com projeto piloto em São Miguel do Oeste, é baseado na geração de energia a partir de biodigestores de dejetos de suínos.

No texto, a Copel lembra, por fim, que as redes de energia são “sujeitas à ação de fatores alheios ao controle da empresa”, como condições climáticas adversas e quedas de árvores. Segundo a nota, “muitas vezes os estragos e as dificuldades de acesso a determinadas regiões causam demora na volta do fornecimento”.

Fonte: Gazeta do Povo