Cascavel, Segunda-feira, 26 de agosto de 2019

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Máquina do Tempo - Nos tempos do coronel Aroldo

Mais temido que respeitado, ex-delegado de Cascavel era apenas uma peça da engrenagem mafiosa que controlava o Paraná
Postado em 22/01/2019

(Por Alceu Sperança)

 

O policial-militar Aroldo Ferreira da Cruz, morto a tiros no dia 10 de abril de 2001, no Mato Grosso, aos 75 anos, foi um homem muito temido nas décadas de 50 e 60, quando comandava a Delegacia de Polícia de Cascavel. Mas também era um homem respeitado e influente por méritos pessoais inegáveis. Sua esposa Léia era muito bondosa e os filhos se relacionavam muito bem na comunidade. Freqüentavam a Igreja Presbiteriana, da qual eram ótimos divulgadores.

Cruz integrava a rede de elementos de confiança da máfia pessedista-lupionista(*) que controlou o Paraná durante muitos anos e esteve por trás da grilagem de terras, da expulsão de posseiros e do acobertamento e impunidade de jagunços. Essa máfia colocou a Polícia Militar, como todos os demais instrumentos do Estado, a seu serviço. Tudo isso foi facilitado pela repressão das ditaduras e pela ausência da Justiça no interior do Estado.

Aroldo Ferreira da Cruz nasceu em Paranaguá, filho de José Ricardo e Maria Acácia Cordeiro da Cruz. Ingressou na Polícia Militar de Curitiba em 1943, durante a II Guerra Mundial, como voluntário. Entre 1946, quando concluiu o curso de cabo, e 1964, quando se esgotou um ciclo histórico no país, prestou uma série de cursos e passou para a Reserva com a patente de tenente-coronel.

Depois de nomeado para comandar destacamentos da PM em várias cidades paranaenses, Cruz assumiu o cargo de delegado de polícia em Londrina. Em 1955, o lupionismo quis reforçar seu esquema em Cascavel, ameaçado pela permanência do PTB de José Neves Formighieri na Prefeitura, e designou Cruz para comandar a delegacia de Cascavel.

Aroldo Cruz, então com a patente de capitão, foi nomeado oficialmente para chefiar a delegacia de polícia de Cascavel pelo decreto 2.324, de 8 de maio de 1956, assinado pelo governador Moysés Lupion. Como delegado, seu brilhante trabalho profissional foi obscurecido pela obediência às ordens emanadas da máfia incrustada no governo do Estado, que o fez amargar uma péssima fama.

Tinha amigos leais, por outro lado. Miguel Silvino dos Santos, o Baiano, soldado da PM que serviu sob seu comando e depois foi absorvido pelo Poder Judiciário como oficial de justiça, deu um testemunho bastante significativo a respeito da ação contraditória de Aroldo Cruz:

─ Como delegado de polícia, foi um exemplo para a comunidade. Malandro, com ele, era fora de circulação. Como soldado subordinado ao mesmo, notei muita sinceridade naquela autoridade. Sempre nos dizia: “Cuidado! Não vai lograr ninguém abusando da farda que eu tomarei todas as medidas necessárias a favor de quem estiver certo. Quando vir alguém andando sem destino, veja as mãos. Se estiverem calejadas, deixa ir embora. Se estiver com as mãos lisas e sem documento, traz para eu averiguar a situação”.

Todo o respeito que o coronel Aroldo, como era chamado, granjeou como policial e cidadão foi empanado pelas arbitrariedades ou omissões que protagonizou. “A polícia, comandada pelo delegado Aroldo Cruz, se recolhia ao quartel e deixava os jagunços tomarem conta da cidade, andando de (revólver) 38 na cintura e dizendo bobagens para os outros”, declarou à revista Oeste o ex-juiz Epiphânio Alves de Figueiredo. “A população saía à rua de dia  porque precisava. Mas à noite ninguém punha o pé para fora de casa”.

(Fonte: Projeto Livrai-Nos!)

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(*) ─ O governador Moysés Lupion aparentemente desconhecia as arbitrariedades de seus subordinados

 

Sonho do xerifão era plantar soja

 

Aroldo Cruz contava sempre aos amigos que seu sonho era um dia sair da polícia e se dedicar exclusivamente à agricultura e à pecuária. Foi o que fez depois de liberado das funções oficiais em sua chácara de bom tamanho à qual, com o tempo, foi juntando mais terras. Como agricultor, foi um dos primeiros a se destacar no boom sojífero e a modernizar a produção, aderindo imediatamente à mecanização agrícola.

O desempenho de sua lavoura de soja chegou a deslumbrar o mundo, tamanha a quantidade e o rendimento exibidos, tornando-se um modelo de produtor. Suas terras mais próximas ao perímetro urbano vieram depois a se transformar em loteamentos tais como Santa Cruz, Primavera, Tarumã e Paranaguá. Na região, também teve participação importante na formação das cidades de Cafelândia e Nova Aurora, que pertenciam originalmente a Cascavel.

Um dado categórico sobre o fato de que era estimado por muitos, embora detestado por mais pessoas, foi o resultado de sua única participação direta em pleito eleitoral. Aconteceu em 1960, quando enfrentou a poderosa máquina local do PTB, capitaneada pelo ex-prefeito José Neves Formighieri, cujo cunhado, Octacílio Mion, era o candidato de um amplo arco de forças à Prefeitura de Cascavel.

Mion se lançou escorado por uma fortíssima coligação: PTB/UDN/PDC. Venceu, recebendo 3.647 votos. Cruz concorreu apenas pelo PSD, tendo obtido 2.535 votos. Se o PTB fosse acreditar apenas em si mesmo e saísse sozinho, a UDN e o PDC poderiam lançar candidatos, dividindo os votos de Mion. Com isso, Cruz teria grandes chances de ser o vitorioso. Basta assinalar que o PSD fez a maioria dos vereadores na Câmara para perceber que essa era uma possibilidade muito concreta.

Já enquanto obtinha sucesso em todos os empreendimentos que promovia em Cascavel, Cruz decidiu se aventurar por outras regiões do país, como a Bahia, onde se estabeleceu na região de Barreiras e fundou a cidade de Mimoso do Oeste (hoje, Luiz Eduardo Magalhães), e o Mato Grosso, onde fundou a cidade de Juara. Nesse Estado, possuía imobiliária e hospital, com interesses concentrados sobretudo em Cuiabá e Porto dos Gaúchos. Foi no interior da imobiliária de Cuiabá ─ Santa Cruz ─ que sua vida contraditória e polêmica chegou ao fim, abreviada por três disparos de arma de fogo.