Cascavel, Domingo, 20 de janeiro de 2019

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321 olhos na índole

Loja pode perder até R$ 3 mil/dia com furtos; supermercados gastam horrores com sistemas
Postado em 07/12/2018

Rapaz entra no supermercado em Cascavel. Vai direto para a “arara” das havaianas. Tira os chinelos gastos, cuja tira do pé esquerdo está fixada por um prego, os coloca na arara, e calça um par novinho.

Põe na cestinha um produto barato para justificar a “visita” e vai para o caixa. Na saída, é abordado por um homem de preto com um radiotransmissor na mão. O “chinelão” estava sendo monitorado por meia dúzia das 321 câmeras instaladas na loja.

A partir do flagrante, cada supermercadista adota um procedimento. No caso do “havaiano”, apenas devolveu o produto e assinou um termo em que confessa o crime. Outros empresários preferem entregar o meliante a PM.

O preço da índole humana - associada as mazelas da segurança pública brasileira - cobra elevado preço do empreendedor, que certamente repassa ao consumidor final. É o tal “custo Brasil”.  Para ficar em um exemplo, o sistema de segurança instalado na mais nova loja instalada em Cascavel, o Irani do Parque Verde, não saiu por menos de meio milhão de reais.

E não há alternativa. Tem que pôr a mão no bolso. Afora o “big brother”, também é preciso agregar ao sistema de segurança até dez fiscais por loja (somados os dois turnos), incluindo os operadores da central de monitoramento de câmeras.  

“Sem o sistema, as perdas com furtos chegam fácil a R$ 3 mil por dia em cada loja”, estima o especialista Junior Bonzanini, profissional que implantou as câmeras no Irani. Ele utilizou um software produzido na USP e que está disseminado em mais de 100 países.

O supermercado visto pela central de monitoramento é um espetáculo à parte. É possível ver a unha pintada de caneta Bic da operadora do caixa.  Ver a gota de sangue que manchou o jaleco do açougueiro. Todos estão monitorados, o tempo todo.

“Câmeras de até 8k de resolução gerenciadas por programas de última geração captam até o movimento de passar o produto no caixa, identificando se o produto foi registrado pelo código de barras ou não. Nisso, o equipamento é mais preciso que o olho treinado de um gerente postado há meio metro do check out”, diz Junior.

É desconfortável para o cliente e o funcionário ver-se enxergado nos detalhes desta forma? Pode ser. Mas foi o sistema implantado no Irani que identificou e neutralizou um ataque a gás de pimenta perpetrado por um homem insano, mês passado.

Entre a segurança e a privacidade, cada vez mais, a sociedade será conduzida a optar pela primeira.

Em tempo: os produtos mais visados nos supermercados continuam sendo bebidas quentes (uísque que pode custar até R$ 300), cortes nobres como a picanha e badulaques inexplicavelmente caros, como lâminas de barbear da Gilette.

 

Editorial

O cliente pede uma indenização por um amassado no carro no estacionamento do mercado? Digita-se a placa no sistema e verifica-se se a “lesão” no carro não era anterior a visita. Cliente acha que foi “logrado” no troco? Recupera-se as imagens, zoom na mão do caixa, e confere se houve engano. A tecnologia só não dá jeito mesmo é para a índole humana, a “doença” da cleptomania, que aflige muitos de nós, inclusive alguns daqueles que xingam os políticos de corruptos nas redes sociais.

 

Fé na gôndola

Pelo menos mais duas robustas lojas de supermercado podem ser inauguradas ou iniciadas em 2019. O Muffatão na Tito Muffato e o Irani na Tancredo Neves, cujas obras, ao lado do Fórum, já começaram. Será a maior loja da cidade, erigida com ênfase na sustentabilidade, incluindo aproveitamento da água da chuva e energia solar.