Cascavel, Quarta-feira, 17 de outubro de 2018

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Os trigais da 277

Agricultura, meio ambiente e progresso em fina sintonia na região Oeste

Agricultura em escala, progresso e preservação ambiental são irreconciliáveis? A melhor resposta pode estar em um dos trechos rodoviários mais belos do Brasil, no Oeste do Paraná, entre Santa Tereza do Oeste e Céu Azul.

Ali, naquele trecho de pouco menos de 30 quilômetros, a BR 277 e o Parque Nacional do Iguaçu enamoram entre retas e áreas sinuosas. Seguem paralelas, bem próximas, como se de mãos dadas, para vencer juntas as curvas, aclives e declives do trecho.

Nesta época do ano, no inverno, o cenário fica ainda mais bucólico com as “ondas esmeralda” que a brisa produz nos trigais.  Para além do belo, os cultivares na faixa de domínio, entre o asfalto e o parque, tem uma função nobre.

A lavoura produz um aceiro verde, uma faixa de proteção contra as queimadas que tantas vezes castigaram a última grande reserva de Mata Atlântica no Paraná.

“É um tapete verde, com o qual contribuímos para proteger a floresta de incêndios”, afirma orgulhoso o produtor rural Rafael Mariotto. Ele é um dos agricultores que prestam o relevante serviço ambiental às margens do parque.

O critério para utilização da faixa, que tem em média 30 metros de largura, é a “testada” da propriedade com o parque. Nem todos os vizinhos aceitaram plantar ali, pois a produtividade é baixa devido ao sombreamento. A umidade também fica elevada por força das gotículas do orvalho. Coube ao pessoal da concessionária Ecocataratas, em sintonia com a direção do Parque Nacional, estimular os agricultores.

Em média, colhe-se ali entre 80 e 90 sacas por alqueire, apenas uma fração da excelente produtividade regional em áreas ensolaradas. E o aceiro verde é um sucesso. Faz pelo menos cinco anos que não ocorrem incêndios nas franjas do Parque Nacional.

Porém, ao ver de Mariotto, a floresta dorme com o inimigo. O linhão que corre paralelo ao parque é a maior ameaça. “Já vi macaco sofrendo descarga ali e caindo em chamas dentro do parque”, relata o agricultor.

Ele defende a remoção de postes e cabos elétricos da beira do parque e a construção de uma estrada nas margens da mata para facilitar o transporte de máquinas e o cultivo do tapete de soja e trigo. Afinal, se o trigo é o pão que alimenta a cidade, o Parque Nacional é o habitat que assegura o último refúgio de diversificada flora, além de onças, catetos, dezenas de aves, tamanduás e outros bichos em risco de extinção.

Aqui, na harmoniosa relação entre agricultores e meio ambiente, o Oeste oferece ao planeta uma lição de convívio respeitoso entre a produção e a preservação.