Cascavel, Terça-feira, 16 de outubro de 2018

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Soldado Ferroni, 99

Testemunha ocular do maior acontecimento do século 20 mora em Cascavel

O sossego da rua Castro Alves foi interrompido naquela manhã de 5 de julho. A causa era justa. A banda do Exército e o pessoal da Acreb estava ali para celebrar os 99 invernos de um dos últimos remanescentes do maior acontecimento do século passado.

Mario Ferroni, pracinha da Força Expedicionária Brasileira (FEB), serviu aos aliados contra o eixo nazi-fascista na Segunda Guerra Mundial. 99 invernos. O mais árduo deles foi em campo de batalha, ao pé do Monte Castelo, na Itália fascista, sob temperatura congelante.

O soldado Ferroni recebeu o Pitoco na manhã da última quinta-feira. Incrivelmente lúcido e saudável, a única evidência de uma vida quase secular está na audição, duramente castigada nos campos de batalha, e agora praticamente ausente no velho guerreiro.

Ferroni era operador da metralhadora .50. Não sabe – ou não quis dizer – quantos alemães morreram nas rajadas que disparou. Ele não quer se vangloriar da morte. Antes pelo contrário, responde com uma frase de silenciar o campo de batalha: “ A guerra é uma coisa muito triste, a gente mata sem ódio”.

Nome no jornal

A presente reportagem pode ser a centésima vez que Mario Ferroni aparece em evidência em um jornal. Mas a primeira vez que ele viu seu sobrenome italiano estampado em um periódico é algo para jamais ser esquecido.

Acompanhe este trecho, extraído do livro de memórias produzido pelo combatente, com base no diário que ele produziu às escondidas ao pé da montanha naqueles 12 meses em que combateu na Europa:

“Foi na tarde do dia 26 de fevereiro do ano de 1943, na cidade de Caçador (SC). Eu passeava despreocupadamente pela rua 15 de Novembro, quando em dado momento deparei com um grupo de amigos lendo um jornal... um deles dirigiu-se a mim e disse:  - você também foi convocado. Meu nome também estava naquela grande lista entre aqueles inúmeros que tinha sido escolhidos para a defesa da Pátria”.

Assim, Mario Ferroni descreve em detalhes como soube que teria que partir para a Itália. “Fiquei alguns minutos entre melancólico e pensativo, lembrava-me da vida pacífica que levava, dos meus 23 anos de idade, das mil ideias e esperanças que planejava para o futuro, mas eis que naquele momento via ao longe no horizonte, surgir uma negra nuvem de incertezas”.

Sobrevivente

E, de fato, as nuvens seriam negras. Do contingente de pracinhas da FEB, colegas de agruras de Ferroni,  451 morreram, 1.145 tombaram feridos em combate, 35 foram feitos prisioneiros, dez foram sepultados como “soldados desconhecidos” (estavam irreconhecíveis) e outros 19 jamais foram localizados.

“Passei o inverno inteiro entrincheirado em posição de combate, com temperaturas sempre abaixo de zero. Quando a primavera chegou e o tempo melhorou, veio o comando para subirmos o morro e enfrentar os alemães que estavam lá no alto. Muitos amigos do meu pelotão tombaram mortos. A gente se obrigava a matar para não morrer. Subia sem medo, pois o medo aniquila. Os alemães recuaram para a divisa com a França e depois se entregaram”, relata o pracinha.

O soldado Ferroni combateu até a rendição alemã, em maio de 1944. Retornou para Santa Catarina sem um único ferimento, um único arranhão sequer. Casou-se com Cacilda Roman (in memorian), com quem teve quatro filhos, dois deles cascavelenses, já que passou a morar aqui em 1953, atraído pelo ciclo da madeira.

A carreira profissional do guerreiro foi toda dedicada à Industrial Madeireira do Paraná. De suas reminiscências de guerra, dos estrondos que lhe custaram a audição, do frio que lhe gelou o corpo e a alma, ficaram aquelas palavras profundas, que não querem silenciar: “A guerra é uma coisa muito triste, a gente mata sem ódio...”.

Longa caminhada

Qual o segredo da longevidade? Como chegou aos 99 anos o homem que encarou a morte todos os dias no maior matadouro humano da história, a Segunda Guerra Mundial, que custou a vida de mais de 50 milhões de pessoas?

A sobrevivência no campo de batalha certamente associou a destreza do guerreiro com generosas doses de sorte. Mas a longevidade quase centenária tem outro segredo, muito simples, segundo Mario Ferroni: “Eu sempre caminhei muito. O segredo é caminhar”, ensina.