Cascavel, Sábado, 17 de novembro de 2018

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Os primos ricos

Proporcionalmente, a receita de Itaipulândia é quatro vezes maior que a de Cascavel; um mês da receita de Santa Helena é maior que um ano inteiro da vizinha Ramilândia
Postado em 22/06/2018

Se o dinheiro que vem do petróleo para algumas conflagradas ditaduras do Oriente Médio é denominado petrodólar, cabe bem a expressão eletrodólares para os royalties cotados em moeda norte-americana pagos por Itaipu na “Costa Rica” do Paraná.

Para entender melhor como os eletrodólares irrigam a economia de municípios como Santa Helena e Itaipulândia, convém, didaticamente, promover uma comparação com a maior economia da região, Cascavel.

Se o prefeito Leonaldo Paranhos pudesse pegar todo o orçamento do município para 2018, estimado em R$ 1 bilhão, e distribuísse igualitariamente para os 320 mil moradores da cidade, cada cascavelense teria R$ 3,1 mil.

Se Santa Helena distribuísse em praça pública os R$ 228 milhões previstos no orçamento para a população, cada santa-helenense colocaria R$ 9,1 mil no bolso. Igual distribuição, realizada sobre o orçamento de R$ 120 milhões previsto para 2019 em Itaipulândia, produziria um cheque de R$ 12 mil para cada morador.

Ou seja, proporcionalmente à população, a Prefeitura de Santa Helena tem o triplo dos recursos de Cascavel, e Itaipulândia o quádruplo. Em outras palavras, para se igualar a Itaipulândia, o orçamento do Paranhos deveria ser de R$ 4 bilhões.

Primos pobres
Os contrastes ficam ainda mais acentuados quando se compara “primos ricos e primos pobres”. A partir da BR 277, no distrito de Agro Cafeeira, em Matelândia, é possível acessar uma rodovia estreita, porém primeiro-mundista.

Não há um único buraco, a sinalização é perfeita, embora desprovida de acostamento. O acesso a Ramilândia, um dos municípios mais pobres do Oeste,  é mantido pela Ecocataratas. Recursos, portanto, do pedágio.

Ramilândia é cidade dormitório da gigante cooperativa Lar. Ali, uma frota de ônibus terceirizada pela cooperativa busca todos os dias 600 funcionários, a maioria para a unidade de abate de frangos, localizada em Matelândia. Como a cidade tem pouco mais de 4 mil almas, quase 20% da população trabalha na cooperativa.

O orçamento anual da Prefeitura (recursos próprios) não chega a R$ 14 milhões. Ou seja, a prima rica e vizinha, Santa Helena, para obter o equivalente a um ano de receita de Ramilândia, precisa de pouco mais de 20 dias. Em outras palavras, Santa Helena tem mais receitas em um mês, que Ramilândia em um ano.

Outra vizinha quase indigente, se comparada com as primas ricas, é Diamante do Oeste. O diamante, no caso, é bijouteria se colocada ao lado das jóias da coroa, Itaipulândia, Santa Helena e Missal, as vizinhas ricas.

E vem mais...
Não bastasse as imensas diferenças entre as vizinhas no Extremo Oeste paranaense, mudanças recentes na distribuição do royalties irão aprofundar o fosso econômico que as separa. No dia 8 de maio, Brasília anunciou uma redivisão no bolo dos eletrodólares: agora, 65% virão para os municípios com áreas alagadas pelas hidrelétricas, ante 45% anteriores. A mudança irá acrescentar R$ 40 milhões ao orçamento de Santa Helena e novos R$ 20 milhões em Itaipulândia. Os recursos chegam com poucas restrições de aplicação. Parte é usada para subsídios aos agricultores e empresas do agronegócio. Se você tem uma área rural na “Costa Rica”, vai ganhar horas/máquinas, até 15 toneladas de calcário por ano, terraplanagem e a cobertura para aviários, entre imenso leque de benesses e subsídios.

A Friella, empresa nascida em Medianeira, acaba de receber em concessão uma área de 13 alqueires em Santa Helena, avaliada em R$ 2 milhões. Não bastasse, a Prefeitura irá licitar e construir o frigorífico da Friella para abate de suínos, em investimento de outros R$ 30 milhões provenientes dos eletrodólares.  A contraparte do frigorífico é gerar 500 empregos e investir outros R$ 70 milhões. A cooperativa Lar, maior empregadora de Santa Helena depois da imbatível Prefeitura, também recebeu subsídios de cerca de R$ 20 milhões em duas plantas agroindustriais implantadas no município.

 

Análise

Que fazer com os dólares?

São luzes que ofuscam os olhos de tão fortes, mas que não são enxergadas na abundância que suscita a disputa cega pelo poder

É justo o critério de distribuição dos royalties de Itaipu? Talvez. Há quem defenda, como o ex-presidente de Itaipu, Jorge Samek, que Guaíra receba o mesmo valor de Santa Helena, em razão da perda de sua principal atração turística, as Sete Quedas.

Itaipu vem ampliando seu leque de atuação para mais de 50 municípios da região e atenuando as disparidades. Porém, o equívoco maior pode estar na destinação desta fortuna distribuída todas os meses em moeda forte.

Afora exceções de praxe, com projetos bem elaborados e executados em alguns municípios, não há um norte para o investimento. Em partes, os recursos são usados para mascarar o empreguismo ou em obras faraônicas de eficácia e transparência duvidosas.  Em Itaipulândia, segundo o presidente da Câmara, mais de meio milhão de reais foram destinados para obra em um clube com 10 associados. Não há um foco claro no desenvolvimento econômico, premissa central para o desenvolvimento social.

Para ficar em um único exemplo, ao invés de fazer assistencialismo na roça ou na cidade com pródigos subsídios, os municípios poderiam oferecer condições facilitadas para prover avicultores, suinocultores, a bacia leiteira e mesmo os empreendimentos estabelecidos nas cidades com energia limpa e renovável do sol.

É sustentável porque elimina um custo fixo, e uma vez alcançado o retorno sobre o investimento, permite-se mais 30 anos de energia a custo zero, tornando o agronegócio e as empresas mais competitivas e rentáveis. São luzes que ofuscam os olhos de tão fortes, mas que não são enxergadas na abundância que suscita a disputa cega pelo poder.

A Costa Oeste, ou “Costa Rica”, como queiram, é maravilhosa e tem um potencial imenso. Merece ter seus recursos melhor alocados com planejamento de médio e longo prazo, com transparência e honestidade para tirar a política local das páginas policiais.