Cascavel, Quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Leia mais

“O Mecanismo” II

Corruptos festejam julgamento pelo STF; Padilha escorrega no senso comum ao amaldiçoar a mídia
Postado em 13/04/2018

Outra cena que merece atenção na série  “O Mecanismo”, em cartaz na Netflix: os advogados do doleiro Roberto Ibrahim (Alberto Youssef) e João Pedro Rangel (Paulo Roberto Costa, da Petrobras),  peticionam a Justiça para tirar a investigação das mãos do inclemente juiz Paulo Rigo (Sergio Moro).

A ideia é jogar tudo para cima, Brasília, onde, sabe-se, o Supremo irá julgar nas calendas gregas. Quando é divulgada a decisão provisória, tirando de Moro a apreciação dos fatos, a câmera dirigida pelo cineasta José Padilha passeia pelas celas da prisão de Curitiba, enfocando Youssef e Paulo Roberto Costa.

Aos gritos, os apenados dizem: “Vai para o Supremo, vai o Supremo!”. É como se comemorassem um gol. Batem cela, pulam, gritam. A cena diz muito sobre a preferência dos encrencados com a Lava Jato pelos tribunais superiores. A ordem é fugir da caneta de Moro. “O Mecanismo”, porém, não é só astúcia. Padilha escorrega em alguns lugares comuns também, flertando com os polos radicalizados dos extremos à esquerda e a direita. Em determinado ponto, surge Lucio Lemes (Aécio Neves), dizendo que já acertou com a revista “Leia” (Veja).

Aqui o cineasta é devorado pelo senso comum. Faz coro com os maluquetes que enxergam a grande mídia brasileira vendida para o sistema. É até excitante pensar assim, navegar na teoria da conspiração, mas os fatos desmentem a ligação da “Veja” com Aécio ou qualquer outro político.

Todos eles, Aécio, Lula, Temer, Dilma e outros menos votados, estamparam a capa da “Veja” em edições recentes, denunciados pela publicação da editora Abril. Padilha e outros abduzidos pela conspiração atribuem à imprensa – notadamente a Globo – todos os males do Brasil.

E o fazem por que caiu de moda atribuir nosso fracasso ao império do Norte (EUA) ou ao ET de Varginha (Chaves e Maduro desmoralizaram o argumento anti-americano).   Alguém precisa pagar o pato.

Nós eleitores, temos dificuldades de olhar no espelho, e ali enxergar os culpados pelo país ter chegado a este ponto. Então é mais fácil atribuir o lamaçal à conspiração da mídia.

Não faltarão emoções nos novos episódios de “O Mecanismo”. A segunda temporada deve ir ao ar somente em novembro, uma tentativa de não influenciar nas eleições presidenciais.  Padilha terá farta munição. Somente o entorno da prisão de Lula renderia um longa-metragem.

Em tempo:  O que o diretor José Padilha tem a dizer sobre as críticas à série? Acompanhe a fala dele na Folha de São Paulo:  

“Criou-se um ambiente irracional e polarizado, em que o dogmatismo ideológico da esquerda radical e o cinismo pragmático da direita fisiológica passaram a trabalhar juntos para negar o inegável, o fato de que todas as lideranças políticas dos grandes partidos brasileiros são corruptas. Hoje, vemos os formadores de opinião de esquerda e os membros da direita fisiológica de mãos dadas, pressionando o STF para cancelar a prisão após condenação em segunda instância. Afinal, para a esquerda, isso garantiria a impunidade de Lula; para a direita, a de Aécio, de Temer, de Jucá... O mecanismo, é claro, agradece”.