Cascavel, Quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

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Dias de Álvaro

Pré-candidato ao Palácio do Planalto nestes tempos de Brasil sem rumo, senador defende refundação da República e presidente “com legitimidade popular”
Postado em 23/02/2018

Quem de nós abriria mão de um salário vitalício de R$ 30.471,00? Álvaro Fernandes Dias abriu. O valor diz respeito à aposentadoria de ex-governador do Paraná. O benefício é legal. Dias o considera imoral. E deixou de receber quase R$ 10 milhões desde que deixou o governo do Paraná, 26 anos atrás.

Somando o benefício renegado a cortes que promoveu em seu gabinete no Senado, ele diz economizar cerca de R$ 50 mil mensais aos cofres públicos, totalizando em 2017 mais de R$ 700 mil. “Para cobrar o fim dos privilégios do vizinho, é preciso que você tenha exterminado com seus privilégios”, disse ele, na visita ao Show Rural, em Cascavel.

Álvaro e o irmão Osmar receberam uma herança milionária do pai fazendeiro, daí por que é mais fácil abrir mão da aposentadoria e propagar o feito, certo? Talvez. Há outros milionários na política que continuam sugando cada centavo do dinheiro público.

Candidato a presidente da República pelo Podemos, movimento inspirado no Avante do francês Emmanoel Macron, que atropelou a sucessão presidencial em seu país, Álvaro Dias disputou seu primeiro pleito no distante 1968, o “ano que não terminou”, segundo Zuenir Ventura, elegendo-se vereador em Londrina.

Se tiver sucesso em outubro, Dias assumirá a presidência com 74 primaveras e irá concluir o mandato com quase 80. Diante de tão longeva carreira, não pode ser apresentado como “novo”. Ele inclusive refuta a onda do novo, fala na refundação da República e alerta para a situação política do país que dá margem a figuras como o  “herói do sertão que irá resolver tudo a bala”, em óbvia  referência a Jair Bolsonaro.  Acompanhe os principais trechos extraídos de entrevistas que Álvaro Dias concedeu em Cascavel aos comunicadores Valdomiro Cantini e Caio Gottlieb na tarde de 9 de fevereiro, durante o Show Rural Coopavel.

Troca de partidos
Não existem partidos no Brasil, existem siglas usadas para registro de candidaturas e para receber o fundo partidário, que é dinheiro dos impostos pagos pela população. Sou um contestador da velha política a vida inteira, por isso mudei várias vezes de sigla, não de partido. Não encontrei até hoje um partido de fato. Hoje estou em um movimento, o Podemos. Um dia pode se tornar um partido, mas para isso é preciso fazer a reforma política. Somos reféns deste sistema.

Os “novos”
Agora fala-se muito dos tais outsiders, gente supostamente de fora da política. Então surge a figura do grande aventureiro.  Trata-se de uma leitura errada. A população não está buscando nomes diferentes. O povo brasileiro deseja hoje substituição do sistema de governança, que é a causa da crise ética, social e econômica.

Refundação da República
Falo, inspirado no gaúcho Olivio Braga, da refundação da República. Uma ampla reforma do Poder Executivo, estendida para o Judiciário e o Legislativo, com o fim dos privilégios, do foro privilegiado, das aposentadorias especiais. Enfim, uma completa reforma no sistema federativo. O brasileiro trabalha seis meses por ano para pagar os custos do governo. Mas quem pode enfrentar esse problema? Você já abriu mão dos seus quando fala em eliminar privilégios? Para combater privilégios do vizinho tenho que abrir mão dos meus.

Congresso Nacional I
Como obter apoio de um Congresso, parte dele fisiológico, para as mudanças? É preciso inverter a ordem. O PT e outros iam ao Congresso comprar votos, alimentar o propinoduto do petróleo, do mensalão, fazendo rimar governabilidade com promiscuidade. Proponho inverter isso.  Um presidente com legitimidade popular que saberá se comunicar com a sociedade, “vender” a reforma para a população primeiro, e com a força do povo, aprovar as mudanças no Congresso, sem barganhas.

Congresso Nacional II
É preciso aprovar as mudanças nos primeiros 100 dias de governo. Governar é 50% gestão e 50% comunicação. É a capacidade de se comunicar com a sociedade. Só o povo mete medo no político. Com o povo ao lado da mudança, o congressista não irá remar contra a correnteza. Nada é mais forte que uma proposta com apoio popular. Somente isso irá romper com o loteamento, o toma-lá-da-cá, o vale-tudo e o aparelhamento do Estado.

O modelo I
Quando governei o Paraná, nenhum deputado indicou secretário, reitor de universidade ou delegado de polícia. Quem governa é quem nomeia. Só assim poderá escolher os melhores. Isso representa o rompimento com um sistema maldito, usina de escândalos, modelo plantado em Brasília e clonado para muitos estados e municípios, embalado em um complexo e sofisticado projeto de corrupção em nome de um projeto de poder de longo prazo para enriquecimento ilícito.

O modelo II
O modelo que está aí é cruel com o povo brasileiro. Veja a saúde, veja o desemprego. São 61 mil homicídios em 2017.  A violência chegou a esse patamar porque roubaram o dinheiro da segurança pública. Temos agora uma grande oportunidade. É a eleição mais importante desde a redemocratização. Sonhei em 2010 e 2014 que alguém trouxesse essa proposta que hoje ofereço à nação. Ninguém trouxe, então decidi eu mesmo bancá-la.

Reforma política I
Um em cada três senadores está lá sem ter recebido um único voto. São os suplentes. É preciso acabar com a suplência. Se faltar o titular, por qualquer motivo, a cadeira fica vaga até a próxima eleição. Não fará falta nenhuma.  Aliás, para que três senadores em cada Estado? Proponho dois, é o suficiente. Mas isso tem que nascer de fora do Congresso.

Reforma política II
Plebiscito também não funciona nestes casos, pois o Brasil vive um momento de esquizofrenia política. O presidente da República tem que chamar a mudança para si. Tem que ter autoridade política para uma ampla reforma. Eu convocarei especialistas de fora do Congresso para evitar o corporativismo, elaboraria uma ampla reforma e venderia a ideia para a sociedade. Só depois levaria a proposta para o Parlamento aprovar.

Pesquisas
Estou muito feliz com as pesquisas eleitorais, elas até superam minhas perspectivas para este momento de pré-campanha. O que vale neste momento é a rejeição, pois diz respeito ao passado e ao presente. A minha é a menor rejeição entre todos. Até o outsider (Luciano Huck) é mais rejeitado que eu, com 27% . Tenho apenas 13% de rejeição. É uma glória em um cenário com todos desacreditados e a política no chão. Só tenho que agradecer.

Os analistas
Já que o político é tão criticado, peço licença para criticar os críticos. Muitas vezes sem sair do estúdio da televisão ou da redação do jornal, sem sentir a rua, os tais analistas batem na tecla do tal novo. Não é isso que dizem as pesquisas qualitativas do Ibope e Data Folha. Ambas enfatizam experiência administrativa, passado limpo e coragem para combater a corrupção. Modelo novo, isso sim.  Mudança de sistema, que está corcomido, destruído...

Reforma trabalhista
Defendi a reforma trabalhista desde o início, até no programa Fantástico. Não me escondi, me apresentei. Quando o governo mandou o texto para o Senado, eu queria aprimorá-la. O governo não permitiu. Quando vi que a proposta já estava aprovada pela maioria, lavrei meu protesto, votando contra. Não votei contra o conteúdo, votei contra a forma de encaminhamento. Reforma tem que eliminar conflitos, não alimentá-los. Então, quando vi que meu voto não tinha mais consequência, lavrei meu protesto.

Reforma da Previdência
Estão escamoteando a verdade quando responsabilizam o aposentado. Parte da responsabilidade está nas aposentadorias, mas também na inadimplência de R$ 400 bilhões que o governo não cobrou.  Libera R$ 18 bilhões do BNDES para a JBS e não provisiona os R$ 2 bilhões que o grupo deve para a Previdência. Libera BNDES para o Eike Batista e não desconta o que ele deve à Previdência e depois vai por a mão grande no bolso do aposentado.  Mas a reforma é necessária, desde que atendida a complexidade do país.

PT, Temer e a dívida
O PT e Temer destruíram as finanças públicas do Brasil. 60% do orçamento vai pagar juros e serviços da dívida, que saltou de R$ 1,5 trilhão para R$ 4, 8 trilhões em menos de uma década. Somente o pagamento de juros no ano passado foi superior à dívida inteira de 2008. O que fizeram com este país?

Lula
O Estado democrático de direito preconiza que a legislação tem que ser respeitada. Goste-se ou não do julgamento ou do julgado. Não importa. A jurisprudência diz que o condenado em segunda instância está com a ficha suja. Então não pode disputar a eleição e seu lugar é na cadeia, não na urna eletrônica. E ponto final.

Bolsonaro I
Em tempos de terra arrasada, surgem os sujeitos aventureiros. É preciso alertar a sociedade. Vivemos um momento político e econômico delicado. Somente em 2022 vamos recuperar a renda per capita que tínhamos até alguns anos atrás. Isso pede um administrador experiente, de passado limpo. Do contrário surgirá o aventureiro das sombras, o herói do sertão, o valentão querendo resolver tudo na bala...

Bolsonaro II
Quem tem que se armar para defender a população é o Estado brasileiro. O povo paga impostos para ser defendido pelo Estado, pelo governo, e não para se defender em uma guerra civil que querem implantar no país. Esse tipo de ideia surge evidentemente porque não existe exame de sanidade mental como condição para obter candidatura presidencial no Brasil.

Bolsonaro III
Alguém apareceu aqui no Show Rural, vindo de longe, e mostrou que desconhece nossa agricultura. Em breve a Índia importará alimentos do Brasil tanto quanto a China. O mundo precisa 60% a mais de produção até 2050. O planeta espera que 40% deste acréscimo venham do Brasil. Este tipo de político é muito urbano. Não sabe distinguir azeitona de mamona. Precisa colocar os pés descalços no chão do interior do País para entender esta conta.

Tempo na tela
Prefiro ter menos tempo na TV a compor com o lixo da política e usar o tempo suplementar obtido para explicar alianças com forças do atraso. Teremos aliança e tempo de TV o suficiente para levar nossa mensagem. É a oportunidade do Paraná. Já levam daqui o dinheiro, agora querem levar o voto. Se levarem, depois não devolvem e continuaremos chorando o Estado abandonado, desprezado e em segundo plano. Recebam bem os visitantes, mas não lhe ofereçam o voto.

É prá valer?
Eu não faria brincadeira de ser candidato a presidente para depois retirar o nome ou disputar outro cargo. Só uma coisa pode me impedir de disputar a presidência, a morte. Sei ser generoso comigo, não acredito que ela venha. Dia 7 de outubro, quem apertar o número 19 vai ver minha foto na urna, vivo, concorrendo à presidência de República.