Cascavel, Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

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Jairo Eduardo

Jairo Eduardo Jornalista, criador e editor do Pitoco e cronista na Rádio Colmeia e Radio T. Interaja com o editor: pitoco@pitoco.com.br. WhatsApp:
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Humildade, presidente!

O menino que pilotava uma monareta e lia tudo, desde outdoor até pixação anarquista, lembra da placa 40 anos depois: “Cobre-se botões”

Publicado em: 27/07/2018

Meu hábito de ler tudo o que está escrito na rua vem de longe. E me acompanha até hoje. Leio placa de trânsito, outdoor, faixa, adesivo de motoboy, cartaz da curandeira, pixação anarquista no muro, números e letras de placas de carro.  É meio doentio. Deve ser transtorno obsessivo compulsivo.

Menino ainda, percorria quase diariamente com minha monareta verde a empoeirada rua Flamboyant, entre os bairros Alto Alegre e Coqueiral, quando aquilo ainda pertencia à periferia de Cascavel. Havia uma placa no meio do caminho. E era lida todos os dias pelo menino. Estava escrito:  “Costureira. Cobre-se botões”.

Nunca entendi bem o que significa cobrir botões, mas para os padrões de poucas letras daquela comunidade de baixa renda, o idioma pátrio estava bem tratado, com a aplicação correta da ênclise e a certeira concordância verbal. Pensando aqui com meus botões: por que ainda me recordo de uma frase trivial, 40 anos depois?

Foi meu hábito de ler tudo que me fez passear os castanhos pelo rótulo de um produto alimentício adquirido recentemente no comércio de Cascavel. Eu procurava ali a data de validade, tardiamente, diga-se de passagem, pois o produto já estava na dispensa de minha residência.

Estava tudo OK com a validade. Então por que aquele produto tinha o aspecto ruim, alteração na cor e no odor? Conheço os produtores. São de uma grande indústria do agronegócio regional. Fotografei a embalagem e enviei para um diretor: “Dá uma olhada neste lote, há problemas com ele”.

No dia seguinte, logo cedo, uma moça simpática da grande indústria ligou. Pediu mais informações e se prontificou em trocar o produto. Declinei o gesto gentil. Para que dar tanto trabalho a eles? Então ela perguntou: “Conhece nossa indústria, nosso trabalho?”

Respondi afirmativamente. Disse que admiro a marca e o diretor para o qual enviei a foto, embora em certa ocasião eu tenha sido destratado pelo presidente da empresa. Para usar um lugar comum, o mundo dá muitas voltas, e quis o destino que certo dia um lote alterado de um produto alimentício tenha parado exatamente na residência do jornalista “persona non grata”.

Talvez, se o jornalista fosse imaturo e medisse menos as consequências, poderia abrir um rombo na reputação da marca em sua área mais sensível: a confiança do consumidor em um produto alimentício. Mas vingança é um prato que não se come frio nem quente. Nem mesmo morno. É um prato indigesto, que simplesmente não se come. Acho que li em algum muro: “Perdoa teus inimigos, ou eles irão dormir contigo, em tua cama”.  

Se o poder do cargo e da bajulação subiu à cabeça do excelentíssimo presidente a ponto de torná-lo arrogante, a empresa e seus milhares de postos de trabalho não podem pagar pela sua empáfia. Firmeza de caráter e humildade, presidente! Longa vida para a indústria, e chega de reclamar sobre o leite derramado...