Cascavel, Quinta-feira, 14 de novembro de 2019

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Jairo Eduardo

Jairo Eduardo Jornalista, criador e editor do Pitoco e cronista na Rádio Colmeia e Radio T. Interaja com o editor: pitoco@pitoco.com.br. WhatsApp:
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Os mercenários

Obtivemos a tabela de compra e venda de políticos em Cascavel

Publicado em: 16/07/2018

Era um dia qualquer da Cascavel dos anos 90. O PT era oposição. Se não me engano, só tinha um deputado no Paraná, Pedro Tonelli, apicultor de Capanema.

Presenciei a cena, eu era dirigente da sigla, da qual fui primeiro suplente de vereador. Na reunião do conselho deliberativo - em uma das espartanas casas de madeira que sediaram o partido nos tempos pré-Odebrecht - formou-se uma fila de uns dez militantes.

A frente do grupo estava o líder estudantil trotskista Luiz Fernando Reis, hoje professor universitário e líder sindical na Unioeste. Lembro da irmã dele, Solange, agora docente da Unioeste, chorando naquele ato de desfiliação.

Estavam ali também o Alfredo Carvalho e um militante que apelidamos de Convergência Socialista, uma ala radicalizada do PT, que depois se abrigou no PCO, ou PSOL ou PSTU, qualquer coisa assim.

O PT era um guarda-chuva de várias correntes. Algumas agiam quase como pequenos partidos dentro do partido. O pessoal desfiliado em massa pertencia à Democracia Socialista (DS).

A saída dos Reis e outros vinha acompanhada de uma explicação: “o PT virou mais um partido, foi devorado pela luta institucional, voltou-se para os gabinetes, para a eleição de deputados, prefeitos... enfim, foi devorado pelo sistema que um dia combateu”.

O monstro do sistema, agora batizado de “mecanismo” pelo cineasta, engoliu de fato as boas intenções, como agora todos sabemos. Com algumas ligações telefônicas, esta semana, constatei que o mecanismo permanece voraz, insaciável.

Uma fonte que está no centro das negociações políticas em Cascavel me passou a tabela. Apoio de vereador cascavelense para deputado está tabelado em R$ 30 mil. Apoio de estadual para federal, até R$ 200 mil.

Prefeitos pedem em torno de R$ 50 mil, conforme o tamanho do rebanho a ser tocado para fulano ou beltrano. Lideranças intermediárias, pastores, líderes comunitários também se oferecem na prateleira eleitoral (não todos).

E quem eles estão vendendo? A si? Não. Estão vendendo seus liderados, que se transformam em carne fresca na jaula de leões do mecanismo.

Talvez por essa razão aquela turminha de sonhadores, utópicos, que aspiravam a política ideológica, da campanha voluntária, norteada por uma causa, tenha se enfileirado naquela tarde dos anos 90 em Cascavel. Os utópicos partiram. Ficaram os mercenários. O mecanismo é imortal, imoral, atemporal.

Em tempo: nem todos os vereadores, prefeitos, lideranças estão a venda no mercado eleitoral. Toda generalização é banal. Mas o dinheiro continua tão forte como sempre, capaz inclusive, como dizia o exagerado Nelson Rodrigues, de comprar até amor verdadeiro.