Cascavel, Domingo, 23 de fevereiro de 2020

Colunas

Educação

Vander Piaia

Economista, professor da Unioeste e escritor

Antes de Marx, Platão!

Filósofo grego que viveu há 2.400 anos continua atual até hoje. No plano social, ele é o tataravô do que podemos chamar de comunismo

Publicado em: 27/07/2018

Cuba pretende alterar sua constituição para permitir novamente a existência em seu território da propriedade privada. A notícia, quase incidental, me levou a um dos meus autores preferidos, Platão, e dele à minha obra predileta, “A República”. Que eu li em versão apaixonada de jovem, com o fogo necessário para incendiar as estruturas e mudar o mundo. Então, na plenitude da minha já experiente vida, resolvi fazer uma releitura, que coincidiu com minha recente viagem à Grécia. Nestes tempos de embate ideológico feroz, onde velhas doutrinas que pareciam sepultadas, emergem do solo regadas por sonhadores saudosistas e pretensos intelectuais “progressistas”, a obra de Platão se torna uma obra fresca e atual.

Para quem não tem intimidade com o celebrado autor grego, adianto que no plano social ele é o tataravô do que hoje podemos chamar de comunismo. Vejam bem, nobres e gentis leitores, as sociedades humanas já questionavam as estruturas políticas então existentes (estamos falando de quatro séculos antes de Cristo); da crítica feroz que emanava daqueles gregos iluminados, surgiram muitas filosofias políticas, dentre as quais a ideia de uma sociedade de igualdade de bens.

Harold Bloom, um dos grandes críticos literários de nosso tempo, situa Platão como o maior escritor do mundo antigo, perdendo apenas para o desconhecido que escreveu (e que Bloom chama de Javista) os extratos do Gênesis, Êxodo e Números. No tocante a “República”, Bloom afirmou acessar a obra regularmente, para “me expor a uma sabedoria capaz de moderar a minha fúria contra as ideologias”.

Os idólatras de Karl Marx, reunidos num templo universal de uma religião chamada marxismo, tendem a perder o vetor da história ao imaginar que é sob a pena do pensador alemão que a critica social atinge sua maior potência. Ledo engano!  Seguramente não retorno a Platão para menosprezar a monumental obra de Marx, que merece o respeito, a consideração e a leitura de todos aqueles que querem entender o surgimento do marxismo e também a dinâmica do próprio capitalismo. Porém, quando Marx se veste de mago do apocalipse e tira a toalha sobre a bola de cristal, o caldo entorna. Justamente aí ele está dando os primeiros passos para a criação de uma religião das quais já derivaram muitas seitas, não se diferenciando dos profetas do Antigo e Novo Testamento que vislumbram o futuro e a partir dessas visões cooptam multidões de súditos.

Neste exíguo espaço, não poderei sequer ousar um resumo do resumo de Platão. Afinal, o intuito é tão apenas chamar a atenção para a genial obra de filosofia política denominada “A República”. Quem se aventurar por suas páginas irá se deparar também com o mito da caverna, ou com a ira platônica contra a poesia (e que se supõe era também um defeito de Sócrates). Mesmo este pecado pode ser cristianamente perdoado. Afinal, “A República” tem 24 séculos, enquanto os cadernos marxistas têm menos de 200 anos. Platão já deu suas provas de longevidade.