Cascavel, Sexta-feira, 20 de julho de 2018

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Osmar, branco e franco

Pré-candidato ao Palácio Iguaçu, o pedetista Osmar Dias diz que Ratinho Júnior e Cida Borghetti são sequência do governo Richa

Naquela manhã de sábado, em pleno veranico de maio, Osmar Dias chegou alguns minutos atrasado ao estúdio da rádio Colméia, na rua Mato Grosso. Era compreensível. Ele fizera uma longa viagem em um Ford Focus alugado até Cascavel no dia anterior, chegando ao hotel no início da madrugada. “Não uso jatinho nem helicóptero”, alfinetou, com endereço certo: os voos da governadora em aeronaves públicas na pré-campanha reeleitoral e de Ratinho Junior, menino bem posicionado financeiramente.

Na entrevista concedida ao editor do Pitoco na Colméia, Osmar envia recados aos agronegociantes que se afastaram pela participação dele no governo petista e diz que, na polarização esquizofrênica da política nacional, quem optou pelo outro lado - leia-se Aécio Neves, também não se deu muito bem.

Por fim, Osmar reafirma sua candidatura ao Iguaçu e diz que, se for preterido nas urnas, sua cadeira de vovô e um trago da boa cachacinha o aguardam na varanda da fazenda em Rancho Alegre do Oeste, cidadezinha de pouco mais de 2 mil almas no noroeste do Paraná.

Pitoco – O senhor acaba de completar 66 anos de idade, é meio avesso a modernismos. Parece um perfil bem distante do suposto clamor pelo novo...
Osmar Dias – Estou na faixa etária ideal para governar o Paraná. Vamos analisar os novos? Enfrentei um candidato que se apresentava como novo em 2010. Deu no que deu. O candidato precisa ser novo no método. Precisa romper com o sistema do compadrio. Melhor ficar vermelho para dizer não a um pedido do que sair amarelo depois. Perdi aquela eleição, mas não perdi a honra.

Há 19 mil seguidores na sua página no Facebook. A Cida tem 57 mil, Ratinho soma 657 mil. Rede social será determinante? O senhor está familiarizado com esse meio?
Coloquei perfil no Facebook faz pouco tempo. Alguém pode dizer: Osmar chegou tarde na rede. Veja, eu estava afastado da política havia oito anos, vivendo em paz. Internet é ferramenta importante para chegar ao eleitor, mas acredito ainda na botina no chão, conversar com as pessoas olho no olho.  E não é muito difícil distinguir: os candidatos que você citou representam a continuidade do atual governo. Eu sou o candidato que irá romper com essa forma de fazer política.

O que podemos esperar de diferente em um eventual governo seu?
Veja o caso dos 30 comissionados empregados na Sanepar. É ilegal, tem que acabar. Foram nomeados em 2011, acharam um nome bonito para designar a função deles, recebendo elevados salário para não fazer nada.

Isso tem relevância orçamentária?
Quem consumia até 10 metros cúbicos de água da Sanepar, tinha um tratamento tarifário diferenciado. Baixaram para cinco metros. Ali economizaram com os mais pobres para pagar cargos comissionados. Essa farra de comissionados precisa acabar.  Depois anunciam lucros de R$ 1 bilhão da Sanepar como um grande feito. Na verdade, as tarifas cresceram 135% mediante uma inflação de 58% no período.

O senhor trabalhou com o pai do Beto, José Richa. Portanto, conheceu ambos e bem. Compare pai e filho.
Primeiro quero dizer que os comissionados da Sanepar deveriam ser condenados a devolver o dinheiro que receberam durante sete anos. Se eleito for, irei exigir essa reparação. Não gosto de falar de adversário político, derramar mágoas. Mas o pai do Beto era um político muito respeitado. O filho, principalmente depois do noticiário policial dos últimos dias, vamos deixar para os eleitores julgarem.

No mundo do futebol, fala-se que perder de 7 x 1 é menos dolorido do que ser derrotado por 1 x 0 no último minuto dos acréscimos. O senhor perdeu por menos 1% dos votos uma eleição para governador. É dolorido?
Foram apenas 10.549 votos de diferença. Isso, no eleitorado do Paraná, é quase nada. Cheguei a gravar esse número na memória: 10.549. E usei os algarismos para jogar na loteria. Mas ao contrário de outros sortudos da política, que dizem ter ganho dez ou doze vezes, nunca ganhei nada.

Foi dolorido, então?
Olha, eu debatia propostas e recebia pauladas. Denunciaram meu vice. E até aliados pediram para eu rifar o vice, Derli Donin, aqui de Toledo. Eu decidi que não faria pré-julgamento. Mais tarde ele foi inocentado. Sempre acreditei que fosse uma pessoa digna, perdi a eleição mas não perdi a dignidade. Derrota sim, desonra não. Mas que doeu, doeu. Pensei em nunca mais disputar eleição.

O mundo político carimba no senhor a palavra “indeciso”. De onde vem isso?
Isso foi em 2010. Até o último minuto o meu irmão Álvaro era o vice da campanha presidencial de José Serra. De repente isso mudou. A vice foi para o DEM. Então só na véspera da convenção eu decidir disputar o governo do Paraná, pois com o Álvaro na chapa tucana, eu seria adversário dele aqui no Paraná. Irmão contra irmão? Jamais eu ficaria contra meu irmão. Então isso não é indecisão, isso tem outro nome: lealdade.

Agora a situação se repete: o seu partido tem candidato a presidente, Ciro Gomes. E o Álvaro é candidato ao mesmo cargo, mas por outra sigla...
Repete-se mesmo: não ficarei contra meu irmão. Liguei para o Ciro, conversei com ele, expliquei a situação. Ele entendeu. O Ciro também tem um irmão na política. Irmão que não apóia irmão não tem caráter. E não é só pelo laço consanguíneo. O Álvaro é um paranaense disputando a presidência. É a chance de o Paraná eleger o presidente da República.

Lula é preso político?
Lula é político preso. Resta agora esperar o julgamento final, para ver qual será a pena, todos que fazem coisas erradas tem que pagar, seja quem for.

Como avalia as primeiras pesquisas eleitorais?
Somente 30% estão indicando candidatos. 70% não respondem. Não dá para se basear no que pensam 30% do eleitorado.

Você se ofende ao ser chamado de Urtigão?
De forma nenhuma, esse apelido vem lá de trás por causa da barba comprida e do uso das botas.

O PDT é uma sigla de pouco tempo na televisão e poucos recursos. O senhor está isolado? Vai se aliar com quem?
O PMDB traria uma boa estrutura na hipótese de aliança. Mas primeiro precisa saber se o Requião não será candidato. Ele fica muito irritado quando não colocam o nome dele nas pesquisas.

O senhor não teme perder o discurso do rompimento com tudo que está aí aliando-se ao chamado “Quadrilhão do PMDB”?
Fala-se em quadrilhão do PMDB, do PT, do PSDB. Tudo vai de como o líder conduz a conversa. Eu não dou fundo partidário e não ofereço vantagens. Não prometo cargo para ninguém, não irei lotear o governo. Farei alianças em cima de projetos.

Uma vez eleito, o senhor acha que obterá maioria na ala fisiológica da Assembleia pela cor de seus olhos ou pelo prateado de suas barbas?
Com os deputados será assim: se quiserem apoiar, apoiem. Estarão sabendo que não haverá loteamento. A Assembleia é o retrato de Brasília. Divide-se os cargos na base e obtém-se corrupção e ineficiência. Tem que romper com essa desculpa da governabilidade. Deputado que não vota em projeto de interesse da população vai se queimar com o eleitorado. Não é preciso comprar votos para passar bons projetos.

Constrange-lhe o fato de ter feito parte do governo Dilma? Isso o afastou das lideranças do agronegócio?
Primeiro, eu fiz parte de uma instituição de 300 anos, o Banco do Brasil. Não fui ao banco fazer turismo nem política. Algumas pessoas que me cobram nesta linha votaram no Aécio. Eu pergunto: quem votou nele pode bater no peito e roncar papo? Entrei no Banco do Brasil com R$ 70 bilhões na carteira de crédito rural. Quando saí, o plano safra estava em R$ 180 bilhões. Foram os cinco maiores planos da história. Trabalhei tecnicamente, fiz minha parte.

Todos os candidatos farão discursos na linha da agricultura...
Sim, todos farão. A diferença é que nasci embaixo de um pé de café, não preciso fazer cursinho de seis meses para falar de agricultura.

Os dirigentes das cooperativas do Oeste continuam com um pé atrás por sua passagem no governo Dilma...
Alguns, sim; não todos.  Quando fui senador ninguém ajudou mais as cooperativas e os agricultores. Só um projeto já justificaria apoio das cooperativas: O Requião não queria os transgênicos. Eu peitei, arrumei uma encrenca com ele.  Coloquei na mesa e assinei: autorizado plantar, produzir, vender, exportar. Peguei briga, me desgastei. As cooperativas ganharam muito com isso. Armazéns: nunca as cooperativas tiveram tanto dinheiro para isso, somente a Coamo aumentou a capacidade de armazenamento em um milhão de toneladas.

É o suficiente para debelar o mau humor em relação à sua pessoa no setor?
É o momento de reflexão dos homens e mulheres do agronegócio. Eleição não é brincadeira. Ou trata com seriedade e confia as chaves para alguém com experiência para dar conta das complexidades de governar um Estado como o Paraná, ou vamos continuar brincando de bater panela na janela.

A Copel está bem gerenciada?
Estou preocupado com a Copel. A empresa perde ações milionárias, parece que não tem departamento jurídico. Por que a Copel se associa com multinacionais para investir no Nordeste, em energia eólica? Por que não investe em energia solar no Paraná?

Está pronto para ser espinafrado na campanha? O eleitor anda agressivo...
Primeiro de tudo, é preciso restabelecer o respeito. E isso começa dentro da família de cada um. Sujeito precisa se envergonhar de cometer uma infração no trânsito, nos falta formação moral. As instituições estão moralmente falidas. Ninguém respeita o Legislativo, o Judiciário e o Executivo menos ainda. As instituições e os homens públicos só voltarão a ser respeitados quando se derem ao respeito.

Todo mundo que se candidatar vai apanhar na rede social...
Aprendi agora, recentemente, a mexer com esse tal Whatsapp e rede social.  Logo percebi que nestas plataformas as pessoas têm facilidade para inventar história sobre a gente. É uma criatividade... virou campo para covarde xingar a gente. Não têm coragem de falar na cara, vão ali xingar e fazer malcriação.
 
Já foi vítima do fake news?
Sim, já fui. Só uma lei rigorosa para punir e dar conta destas besteiras que alguns postam na internet. Esses dias dei entrevista em emissora de rádio de Santo Antônio Platina. Perguntaram-me se eu aceitaria o Ratinho na chapa. Eu disse que sim, e completei: se ele quiser ser senador na minha chapa para ganhar experiência, já que ele precisa de mais experiência, será bem-vindo. Mas tiraram essa parte final na edição. E disseram que eu aceitaria postular o senado na chapa do Ratinho. Isso é fake news na veia.

O senhor é um político estatizante?
Vamos lá, tamanho do Estado: considero estratégicas empresas como a Copel e a Sanepar, na medida que são reguladoras de preços e permitem fazer política pública em benefício da população. Tem problemas nas estatais? Tem, sim. Mas não se pode matar a vaca porque ela está com berne. Mata o berne!

Os bernes são os deputados fisiológicos?
Falo em cortar gorduras. Se é preciso lotear cargos comissionados para atender deputados e políticos, não me apoiem, que não vai ter. Tem que cortar na ineficiência. A Polícia Civil tem 15 mil carros. 8 mil funcionam, outros 7 mil estão encostados, quando não sucateados. Porém a empresa contratada para manutenção recebe sobre 15 mil veículos.  É inaceitável, isso vai acabar.

Jogando agora no seu campo: a União Europeia anda desconfiada do frango paranaense e fechou as portas para alguns players...
Trata-se de interesse comercial criminoso da União Europeia, que é grande importadora, para derrubar preços. É grave. Se o avicultor não alojar seis lotes por ano, vai para o prejuízo. O embargo impacta milhares de famílias. Quando era secretário da Agricultura, sempre fui muito cauteloso com a questão sanitária. Qualquer virgula vira um risco.  O Estado tem que fiscalizar, e os demais elos da cadeia têm de fazer sua parte. Com as cooperativas não tem problemas, são muito cuidadosas. Mas empresas como a BRF correm muito atrás do lucro, acaba escapando uma coisa aqui ou ali. Não pode deixar passar, contamina todo o sistema. E o conjunto não pode pagar por uma empresa que não cumpriu exigências sanitárias.

Sua candidatura é para valer?
Estou atravessando o Paraná de carro. Eu teria coisa mais agradável para fazer, certo? Mas não estou para brincadeira. É assunto muito sério a eleição deste ano. Eu não preciso de mandato. Sou sucessor de um homem que trabalhou muito e deixou patrimônio para os filhos, terras, sou produtor rural. Só tenho duas cadeiras para sentar em 1º de janeiro de 2019: na cadeira de governador, no Palácio Iguaçu, se a população me escolher, ou na cadeira da varanda de minha fazenda, em Rancho Alegre do Oeste.