Cascavel, Sexta-feira, 20 de julho de 2018

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Os jovens velhos

Tiozão da Sukita fisgou sua vaga no estacionamento

“Não sou idoso. Sou normal como qualquer outro homem”. A frase é do industrial cascavelense Eliseu Zanella (foto), 74 anos.  Ele acaba de percorrer os 21 km da meia maratona das Cataratas, em Foz do Iguaçu, em 2 horas e 27 minutos.
Zanella não é exceção. A longevidade do brasileiro saltou de 46 anos de idade nos anos 40, para 75 agora. Mas os legisladores brasileiros parecem viver em um mundo antigo, e continuam incluindo os jovens senhores de 60 anos na faixa etária que precisa de uma muleta legal.
Não é incomum ver um sessentão atlético saltando de um carro esportivo adesivado como “idoso”. E usando a vaga especial, destinada aos “velhos” no supermercado ou via pública. Em Cascavel, somente na área de estacionamento regulamentado, há quase 300 vagas para o “tiozão” da Sukita, aquele jovem senhor com moletom nas costas, visto seduzindo a “novinha” na propaganda do refrigerante.
E o número de candidatos a vaga especial não para de crescer. Nos primeiros seis meses deste ano, a Cettrans emitiu 662 credenciais de idosos. Dois em cada três, são perfil “tiozão” da Sukita, ou seja, com menos de 65 anos.
No transporte coletivo, esta faixa etária de jovens velhos, ou velhos jovens, como queira, também recebe tratamento diferenciado. Eles são isentos da tarifa, onerando o sistema e impactando o valor pago por todos os demais usuários.
Na Alemanha, as pessoas na faixa dos 70 anos são tratadas como “normais”, para usar uma expressão do maratonista Zanella. Naquele país, é comum motoristas de idade já avançada chegarem mais cedo a um evento e ocupar uma vaga mais distante no estacionamento. “Alguém pode chegar em cima da hora e precisar da vaga mais próxima”, raciocinam eles.
Seria pedir demais exigir o mesmo grau de civilidade em nossa cultura terceiro mundista, mas é inegável que o envelhecimento da população fará rever o conceito de tratar o tiozão de 60 como idoso.
É coração de pedra quem defende a revisão do benefício? É insensibilidade social? Beba uma sukita e relaxe. Não haverá vaga para todos os sessentões, mesmo que seja designada a eles metade das vagas. A estimativa do IBGE é que o Brasil terá 19 milhões de pessoas com 80 anos ou mais em 2060.
Sim, com alguma sorte, todos seremos “tiozões” um dia. A alternativa a envelhecer é pior. Mas nenhum de nós vai querer ser tratado como velho com 60 cravos colhidos no jardim da existência. Ou vai?