Cascavel, Sexta-feira, 20 de julho de 2018

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Comprar, retalhar, vender

Aos 88, Gilberto Trivelatto conta – pela primeira vez - como transformou florestas em cidades no Brasil profundo e abriu 23 loteamentos em Cascavel

Ele nunca plantou um pé de milho. Mas foi o proprietário de algumas das maiores áreas de terra do Brasil. O negócio de Gilberto Trivelatto não era a agricultura. Ele chegava antes do milharal. “Comprar, retalhar, vender” são os verbos que este empreendedor ativo até os dias de hoje, aos 88 anos de idade, gosta de conjugar.

Filho de um pedreiro italiano de Pádova, natural de Rio Claro, interior de São Paulo, Trivelatto dedicou grande parte de vida profissional à escrivaninha e máquina de escrever. Era contabilista. Até que, já estabelecido em Araçatuba, no rico interior paulista, lhe surgiu uma oportunidade no mercado imobiliário.

Então adquiriu quatro alqueires e pegou gosto pelo verbo “retalhar”. Começava ali a trajetória do maior loteador de Cascavel nos anos 1970 e 1980. Ele chegou à região via Goioerê no final dos anos 1960.  Em solo cascavelense pisou pela primeira em 1972. “No lugar da Catedral havia uma capelinha de madeira e na Avenida Brasil tínhamos exatamente 100 metros de asfalto”, recorda-se.

Dono de um faro apurado, o empreendedor que acabara de vender 915 lotes em Goioerê, logo percebeu o potencial da “Capital do Oeste”, à época ainda longe desse título. Trivelatto então desbravou o Sul do município, extensas áreas localizadas para além da BR 277. O primeiro loteamento foi denominado “Jardim Guarujá”, local que hoje abriga o conjunto de casas populares financiadas pelo finado BNH.

Mais tarde, Trivelatto concluiu os loteamentos Cruz Grande, Jardim Palmeiras, Aclimação, Santos Dumont e foi o desbravador da região Norte de Cascavel, com o Clarito, uma imensa fazenda transformada em cidade. A palavra Norte voltaria ao dicionário do loteador, mas isso ocorreu quando Cascavel ficou pequena para os verbos comprar e vender do mantra trivelattano.

Antes de enveredar para o Brasil profundo, Gilberto Trivelatto lançou o Clube de Campo Lago Azul. Até hoje ele detém um recorde: 5 mil associados, 20 mil pessoas com os dependentes. Foi o maior do gênero. Na inauguração, trouxe o velho palhaço Chacrinha e suas chacretes. Afinal, quem não se comunica, se trumbica.

O Lago Azul não era a primeira experiência dele no ramo. Em Araçatuba, Barretos, Catanduva e Rio Preto, o empreendedor já havia produzidos clubes de campo. E a inauguração era sempre um acontecimento. Trivelatto pagava cachês para gente como Roberto Carlos e Chitãozinho & Xororó. Ele era uma espécie de Beto Carreiro dos anos 1970.

De florestas a cidades

Quando partiu para o Mato Grosso  em seu monomotor Cessna, Trivelatto percebia as terras apertadas para as famílias grandes do Sul. Lá longe havia oportunidade na imensidão. Vendia áreas de 30 a 40 alqueires na Amazônia brasileira. Transformou a floresta em cidades. Foi ele quem abriu as áreas onde hoje estão quatro municípios, entre eles, Aripuanã e Colniza.  

Em Aripuanã, Trivelatto arrematou 110 mil hectares. E fez daquilo o que melhor fazia: retalhou e vendeu. Depois adquiriu 204 mil hectares onde hoje está Colniza, na divisa de Rondônia com o estado do Amazonas. Era longe, seis horas de voo a partir de Cascavel.

“Distância não era problema. Ele fazia questão de visitar as áreas pessoalmente. A gente filmava do avião e mostrava aos corretores e potenciais compradores aqui do Oeste do Paraná para instruir a venda”, afirma o advogado Romildo Amaral, há 37 anos, parceiro das aventuras do loteador.

O amigo advogado se declara fã do parceiro. “Ele tem um olhar clínico. Se ele diz: essa área é boa, pode investir sem medo”, diz Romildo. Escolhida a área, era o momento de retalhar. O empreendedor tinha uma patrulha própria de maquinário, maior que das prefeituras da região. Certo dia, deu um susto no vendedor da concessionária Komatsu quando apontou para o trator mais caro, o A60. “Quanto é?”, perguntou. Com o valor anotado, disse em seguida: “Vou levar três”. Trivelatto levava mesmo. Retalhar era preciso. E para tanto ele usava equipamentos próprios, incluindo os A60, motoniveladoras e caminhões basculantes.

Foi ele quem abriu as estradas em Aripuanã, Colniza, Nova Ponte Verde e Santa Rita de Trivelatto. Embora tivesse que pernoitar em barracas na floresta, nunca adquiriu malária ou levou corridão de onça. “Sou um cara protegido”, disse.

Outros voos foram para a Bahia, Tocantins e Maranhão, sempre comprando, retalhando e vendendo. Em um dos voos entre Cuiabá e Vilhena, o anjo da guarda quase abandonou o empreendedor. O piloto negligenciou na trava e logo após a decolagem a porta ao lado do passageiro ilustre se abriu. O aparelho retornou ao campo de aviação. Foi só um susto. “O que é isso companheiro?”, ralhou Trivelatto com o piloto. Como não havia muito tempo para discutir, partiram novamente.

Aulas do professor

“Barbaridade, o tempo passa”, exclama Gilberto Trivelatto após olhar para o calendário e citar seu aniversário de número 88, ocorrido no último 3 de abril. Longevo, gozando boa saúde, lúcido, Trivelatto é provocado a passar a receita do empreendedor vitorioso. Se alguém espera frases feitas, na linha auto-ajuda, irá se desapontar.

Trivelatto é um sujeito da vida prática. Que conselhos ele daria a um jovem inspirado em sua trajetória? “Invista no mercado imobiliário”, diz sem titubear. E o segredo da multiplicação? “São o preço e a qualidade da mercadoria. Compre bem para vender bem”. Mais claro e direto, impossível.

O homem que chegava diariamente às 6 da manhã ao Clube de Campo Lago Azul para corridas matinais seguidas de um mergulho e muitas braçadas para depois embarcar no avião e enfrentar horas de voo rumo aos grotões do Brasil, deixa também outra dica: “Nunca financiei nada. Não trabalho com dinheiro emprestado, não simpatizo com banco”.

Em tempo: Gilberto Trivelatto foi dono da TV Tarobá desde sua entrada no ar, em 1979, até o início dos anos 1980. Pressionado e cercado até a porta do cartório por gente ligada à Globo, que estava de olho na emissora, ele manteve a palavra empenhada e vendeu a tevê para os Muffato. Ele foi pioneiro também na modalidade condomínio fechado, no Jardim Gramado, em paralelo ao alto da Avenida Brasil.