Cascavel, Sábado, 22 de setembro de 2018

Leia mais

Pastorear o Paranhos

Conversão do prefeito de Cascavel à fé evangélica se deu em meio a crise familiar e dolorida derrota eleitoral

O pastor Alcione Gomes, da Comunidade Evangélica de Cascavel, igreja sem placa ou templo, tem árdua missão: pastorear ovelhinhas do mundo da política, entre elas, o agitado prefeito de Cascavel, Leonaldo Paranhos.

Mais delicado ainda é transitar sem escorregar pela linha fina que separa a ovelha mansa do patrão mandão. É que o pastor alterna papéis. Ora é guia espiritual de cidadão ajoelhado, ora lhe deve obediência, na condição de presidente da Fundetec.

A Comunidade Evangélica, da qual faz parte o núcleo duro do governo Paranhos (o próprio alcaide, seu pastor Alcione, e os influentes comissários de gabinete, Alcineu Gruber e Diego Gomes), tem um desenho diferente.

Com cerca de 200 membros em Cascavel, eles se reúnem na residência dos fiéis. A organização prega a simplicidade, um retorno às origens, e olha com ressalvas os mega-templos e contratos milionários de mídia de outras denominações, fatores que geram voracidade de arrecadação por meios nem sempre defensáveis. Acompanhe trechos da entrevista com o pastor que pastoreia Paranhos:

Pitoco – A igreja sem templo é disruptiva?
Pastor Alcione Gomes – De alguma forma, sim. Representa uma ruptura com templos faraônicos e um retorno às origens. Até o terceiro século pós Cristo, as pessoas se reuniam nas casas, não havia templos. Quando a igreja virou religião oficial do Estado, governantes passaram a construir templos. Aí perdeu-se a essência.

Templos imensos, como o de Salomão, da IURD, refletem a luxúria de nossos tempos?   
Descaracteriza a ideia inicial. O rei dos reis, Jesus, não tinha um lugar para reclinar a cabeça. Já satanás oferece o reino na Terra. Templos faraônicos são expressão do coração dos homens, nem sempre alinhados com o coração de Deus. O coração do homem precisa de um império para chamar de seu.

Grandes templos, grandes contratos na televisão, expansão planetária, pedem muito dinheiro para financiar...
Há uma forçação do dízimo e oferta. Esse financiamento forçado é pouco comentado no Novo Testamento. Na igreja primitiva, a oferta era espontânea, vinha de uma visão de comunhão, nem precisava pedir, as pessoas entendiam a necessidade de prover as estruturas, por modestas que fossem.

Não há milagreiros demais nos templos?
Eu acredito em milagres. Presenciei uma experiência de cura, aos 12 anos de idade, dentro de uma igreja evangélica. Albert Einstein, o grande cientista, dizia: “Para quem não acredita em milagres, eles não existem. Para quem acredita, existem. O fato de estar vivo é um milagre”. Agora, sim, há excessos. Alguns são curados, outros vão no embalo.

Como a ovelha Paranhos passou a frequentar o rebanho de Alcione?
Conheci Paranhos pessoalmente em 2006, com uma Bíblia aberta sobre a mesa. Era um momento difícil. Ele e Fabíola enfrentavam uma severa crise familiar. Paranhos acabara de sofrer uma derrota eleitoral dolorida para deputado. Ali ele se converteu. A pancada foi forte. Na contagem regressiva, chegamos ao número 9, mas não houve nocaute. E mesmo os nocauteados podem se levantar...

Você prescreveu o afastamento do mundo das urnas, naquela ocasião?
Não foi bem isso, mas Paranhos ficou quatro anos sem disputar eleição pela primeira vez na vida. Era um período especial, de conversão. Ele se voltou para a família, para a Palavra e para a sua profissão. 2008 tinha eleição de novo. Nos unimos em oração. Disse para ele: “Ore, se Deus responder, vá em frente no seu projeto político”. Sem uma resposta, decidiu não disputar... Continuamos orando e na disputa seguinte, em 2010, veio a resposta: sem dinheiro, com os antigos vínculos políticos rompidos, ele milagrosamente foi eleito deputado estadual.

Foi o milagre das urnas?
Para quem crê que joelho no chão ajuda, que há sabedoria nos atos de Deus, sim.

Como você consegue separar a figura de pastor do prefeito da figura do subordinado dele na Prefeitura?
Digo assim: Paranhos, agora não é o secretário que vos fala. Agora é o amigo, é o pastor que vai falar contigo. Aí tratamos de questões pessoais, familiares, questões espirituais. Se o pastor não amar suas ovelhas, não poderá tocá-las. Tem que ter esta proximidade. Ninguém abre o coração para quem não é próximo.  Neste momento não o trato como político, trato-o como pessoa, é um diálogo de pastor para ovelha.

E ele acata?
É meio teimoso. Mas eu também sou. Ele é argumentador, como todos sabem. Mas acata. É admirável o temor dele a Deus.

Rezaram muito na campanha para prefeito de 2016?
Nos debates rezávamos antes, durante e depois. Eu orava em silêncio enquanto ele estava no debate.

Por que o segmento evangélico é tão fragmentado?
Lembra da Torre de Babel? Construíram uma torre até o céu para que fossem vistos da Terra. O plano de Deus é uma igreja única, universal. Bem diferente do que fazem ao contruir torres para si, para fazer seu nome, sua bandeira, sua placa...

Você convive bem com o contratidório ou com denominações hostilizadas por alguns evangélicos, como as religiões afro-brasileiras?
Não me relaciono com instituições. Me relaciono com pessoas. Tenho amigos católicos, ateus, espíritas. As pessoas são mais importantes que instituições. E pessoas merecem respeito.