Cascavel, Sexta-feira, 17 de agosto de 2018

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O pinto pagou o pato

Em desespero, lideranças perceberam o abraço do afogado

Jamais houve um dia como 29 de maio de 2018 no agronegócio do Oeste do Paraná. E possivelmente jamais irá se repetir. Bastava olhar nos olhos dos dirigentes da Coopavel, JBS, Frimesa, Globoaves, Lar, Pluma Agroavícola, entre outras gigantes, reunidos emergencialmente na Acic. A melhor palavra para descrever a expressão dos executivos é “desespero”. Mas falou-se também em tsunami, caos e catástrofe.
A palavra “caos” surgiu pela primeira vez na quinta-feira da semana passada, na posse da Acic, e saiu da garganta apertada do presidente da Coopavel, Dilvo Grolli. Era um momento de inflexão. Até aquele ponto – e inclusive naquele evento específico – havia apoio declarado das principais lideranças de Cascavel a greve dos caminhoneiros.
No dia seguinte o tom mudou. Reunião emergencial do G8 no fim de semana. Na segunda-feira uma nota do grupo das principais entidades da cidade apelava aos associados: retirem o apoio, não participem das manifestações, se o fizerem, não usem o nome das entidades.
Embora tardiamente, as lideranças perceberam que a outrora manifestação simpática se transformara numa espécie de “chupa-cabra”, aquele mitológico monstro que devora os animais do sítio.
A imagem que melhor traduzia aquela hora do espanto era proibida de compartilhar. Em um celular, um boquiaberto agronegociante assistia o vídeo de uma máquina exterminando pintainhos como se fosse um liquidificador gigante. Apenas uma das empresas ali presente, acabara de sacrificar 1,6 milhão de pintainhos. O pinto pagou o pato.
Resumo dos depoimentos: R$ 200 milhões por dia de prejuízo na agricultura do Oeste, um “estoque” de 10 milhões de frangos passados do ponto do abate (e outros 70 milhões na fila), mortandade em massa, canibalização, contratos de exportação descumpridos, multas contratuais gigantes e o pior: confiança quebrada com os clientes de dezenas de países.
“O ano de 2018 terminou hoje para nós. 2019 também está perdido”, resumiu o executivo Elias Zidek, da Frimesa. Ele disse que a empresa terá que renegociar pagamentos e empregos serão debelados. “A comida de amanhã está morrendo hoje”, lastimou o executivo envolto em uma expressão extenuada.
Pior, naquele momento, terça-feira, 9º dia de paralisia total, o Oeste do Paraná era o torniquete apertado do movimento. Nada se movia. Caminhões que ousassem entrar na cidade eram buscados de volta para os pontos de aglomeração. “Fomos sequestrados”, desabafou um executivo.
Embora isso não tenha mais importância agora, em algum momento entre o caos e a catástrofe, soube-se que o apoio incondicional de ontem, virou o pesadelo de hoje e de amanhã. E alguns dos que lamentam agora, embebidos de legítima indignação, percebem ter recebido o abraço do afogado.

Editorial

Jogar o bebê no ralo junto com a água suja da bacia. Matar a galinha dos ovos de ouro. Envenenar o boi junto com o carrapato. Há muitas expressões populares para definir como o estrangulamento do agronegócio abalou a economia regional. Os efeitos da asfixia tem potencial para produzir um cenário tal, que o diesel pode ser distribuído gratuitamente que não haverá carga para carregar. O pinto está morto. O bom senso também. E a lucidez há muito já não está se sentindo bem...