Cascavel, Segunda-feira, 18 de junho de 2018

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Beto Richa nega declarações de Fanini e diz que são "enredo de novela mexicana"

Vídeo disponível em: https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/beto-richa-nega-recebimento-de-propina-e-diz-que-declaracoes-de-fanini-sao-enredo-de-novela-mexicana.ghtml

O ex-governador do Paraná Beto Richa (PSDB) deu uma entrevista exclusiva à RPC, nesta quarta-feira (6), para se defender das acusações feitas contra ele na proposta de delação premiada de Maurício Fanini, réu em três ações penais da Operação Quadro Negro.

Beto Richa afirmou que Fanini é "réu confesso" e que as declarações dele são "enredo de novela mexicana". Confira, logo abaixo, a entrevista na íntegra concedida à repórter Carolina Wolf.

RPC e o G1 tiveram acesso à proposta de delação feita à Procuradoria-Geral do República (PGR). O material foi veiculado nos telejornais da emissora e no G1 na terça-feira (5).

Fanini é ex-diretor da Secretaria de Estado da Educação (Seed). Ele foi preso duas vezes pela Quadro Negro. A ação investiga desvios de verbas que deveriam ser usadas na construção e reforma de escolas estaduais.

A estimativa do Ministério Público do Paraná (MP-PR) é a de que a fraude tenha ultrapassado o montante de R$ 20 milhões.

Na proposta, Fanini diz que dinheiro de proprina abasteceu as campanhas de Richa para a Prefeitura de Curitiba e para o Governo do Paraná, entre 2002 e 2015.

Além disso, o ex-diretor afirma que o dinheiro bancou gastos pessoais do ex-governador, como viagens e a compra de um apartamento para o filho mais velho de Beto Richa, Marcello Richa.

 

Leia a entrevista na íntegra:

 

"Na proposta de delação premiada feita à Procuradoria-Geral da República, Maurício Fanini afirma que o senhor sabia e que pedia arrecadação de dinheiro de Caixa 2 para campanhas eleitorais. Cita, ainda, que, em 2015, logo após a sua reeleição, o senhor teria pedido para que ele começasse a arrecadação para a campanha de 2018 – sua campanha para o Senado, do seu irmão Pepe para deputado federal e do seu filho Marcelo a deputado estadual. Como o senhor vê essas afirmações feitas por Maurício Fanini na proposta de delação?"

"São informações levianas de um criminoso para fugir das garras da Justiça, para escapar da cadeia onde ele se encontra. Ele está tentando terceirizar o problema. Tentando uma homologação de uma delação que não tem nenhum elemento de prova. E não pode ter mesmo porque os fatos são inexistentes.

Mas eu gostaria, Carol, antes de mais nada, para que todos os telespectadores possam entender melhor esse caso, dizer o que não foi dito até então: que quem abriu essa investigação fui eu, foi o meu governo.

Quando eu recebi no gabinete uma denúncia de superfaturamento na construção de um muro no colégio Amâncio Moro, no Jardim Social, em Curitiba - por coincidência, onde eu voto - nós mandamos investigar na Secretaria de Educação. E ali se apurou que o volume era maior de irregularidades na construção de escolas.

Mandamos para a Polícia do Estado, para o órgão especializado em investigações, que é o Nurce. Todos, todos os suspeitos foram demitidos. Alguns foram presos pela Polícia do Estado, quando foi denominada a Operação Quadro Negro.

Toda a investigação nós mandamos para o Ministério Público, para a Controladoria do Estado, para o Tribunal de Contas do Estado do Paraná. Pedi à Procuradoria-Geral do Estado que abrisse ações de improbidade, onde todos os suspeitos ficaram com os bens indisponíveis, para o completo ressarcimento do dinheiro desviado aos cofres públicos.

O que também não se coloca é que esse criminoso, que tenta a homologação da sua delação, fez mais de 870 depósitos bancários na sua conta. Então, houve um conluio dos fiscais do departamento de construção de escolas, dos diretores e isso tudo veio a baixo. Então, não há como.

O que se tenta, hoje, é escapar das garras da Justiça. Tudo o que era possível o meu governo fez. Ninguém foi poupado. Todas as investigações possíveis e imagináveis foram feitas pelo meu governo. Isso também é uma maneira de retaliação e vingança porque nós não poupamos ninguém".

"Na proposta de delação, Maurício Fanini diz que foi avisado cinco dias antes pelo então procurador do Estado, Botto de Lacerda, de que seria preso. Ele afirma, no documento, que, logo que soube que seria preso, foi ao seu gabinete; que, segundo ele, o senhor estaria apagando fotos e mensagens em que ele aparecia; que o senhor teria dito a ele que teria passado o fim de semana todo fazendo isso e que era para ele fazer mesmo; e que o senhor teria dito que ficar preso por dois dias seria uma forma de dar uma resposta à imprensa e à opinião pública".

"Isso é uma mentira. Se eu tomei todos os procedimentos - foram demitidos, bens indisponíveis, ele foi preso no meu governo – eu não vou me preocupar com foto.

Se tivesse algum vínculo com esse cidadão nesse conluio, nesse desvio de conduta, não faria todas essas investigações. Mas eu não ajo assim, sou intolerante com corrupção. Nem pessoas próximas a mim são poupadas. Todos estão sendo investigados e vão ressarcir os cofres públicos".

"Ele chegou a procurar o senhor quando soube que seria preso?"

"Procurou, mas não me lembro se foi no Palácio. Ele me procurou, sim. E manifestou a todo o momento a preocupação de ser preso. E eu falei 'Olha, isso você se vira com a Justiça. As investigações estão sendo feitas, não interfiro em investigações'. Tudo o que era necessário o meu governo fez.

"O senhor era amigo de Maurício Fanini? Tinha uma relação muito próxima?"

"Tinha uma relação, sim. Tinha uma relação. Me decepcionei com ele. Quem não foi traído na vida? Quem não se decepcionou com uma pessoa próxima? Eu fui decepcionado".

"Nos documentos apresentados à Justiça, ele entregou uma troca de mensagens entre a sua mulher, Fernanda, e a mulher dele, Betina. Em uma dessas mensagens, dias após Fanini ter sido preso, em julho, Fernanda Richa disse ‘Betina, não fique brava comigo ou com o Beto'"...

"Eu vi essa mensagem. Quem conhece a Fernanda sabe do que eu estou falando: de solidariedade a uma família que estava passando por um momento de muita dificuldade. Os filhos não têm culpa dos atos que o pai cometeu. Então, foi um gesto de solidariedade.

A Fernanda não interferiu em nada para mudar qualquer situação. Tem, inclusive, uma outra mensagem ou ligação que ela pede para a Fernanda “Estou aqui na frente da penitenciária, não me deixam visitar o Maurício”. A Fernanda [diz] “Não posso interferir, quem sabe hoje não é o dia de visita”. Nós nunca interferimos em nada. Foi só uma mensagem de solidariedade".

"O senhor rompeu o relacionamento com ele?"

"Obviamente".

"E a sua esposa com a mulher dele?"

"Não se falaram mais".

"Com relação à questão de dinheiro para uso pessoal. Na proposta de delação premiada, Maurício Fanini afirma que Luiz Abi teria pedido R$ 500 mil para completar a compra do apartamento do seu filho, isso em 2013. No documento, ele diz que nunca tinha sido autorizado pelo senhor a tratar de propina com terceiros. Nas palavras da Maurício Fanini, ele teria procurado o senhor e o senhor teria dito 'Sim, pode entregar, ele, Luiz Abi, e Ezequias são os mais confiáveis'".

"Olha, eu volto a afirmar. Ele não tem como provar nada disso. Até porque os fatos são inexistentes. Ele tem muito tempo, ao longo desses nove meses na cadeia, para montar um grande enredo de uma novela mexicana.

Não tem, não acredito que possa homologar a sua delação porque não há nenhum elemento que comprove todas essas mentiras, essas falácias que ele está tentando colocar para se livrar da cadeia.

Então, essa denúncia, que, talvez, fosse a mais grave de todas, eu acabei de te mostrar antes da nossa entrevista, está aqui a escritura do apartamento do meu filho. É uma escritura pública, onde está comprovado o pagamento dos valores acertados com o antigo proprietário em transferências bancárias.

O proprietário já foi, segundo informações, prestar esclarecimentos. Transferências bancárias e também parte com o imóvel que foi dado para quitar o apartamento deste meu filho. Eu já te mostrei e está aqui a escritura que será entregue depois de amanhã, sexta-feira (8), ao Ministério Público e à Justiça. Então, é mais uma mentira que vem por terra."

"O senhor prestou depoimento sobre esse assunto?"

"Eu te disse, quando cheguei aqui, que eu pedi para depor. Eu não fui intimado pelo Ministério Público. Nesse caso, eu sequer sou investigado.

Eu pedi para depor como informante para contribuir para o esclarecimento de todos os fatos, porque não tem ninguém mais interessado do que eu, que tudo seja devidamente esclarecido, detalhadamente, o mais rápido possível para que não haja essa tentativa de destruir a minha biografia, macular a minha imagem, assassinar a minha reputação.

Isso eu não posso aceitar. Respondo com indignação."

"Ainda no documento, Maurício Fanini fala sobre viagens feitas ao exterior com um grupo de amigos e um grupo de empresários. Alguns desses empresários tiveram contratos milionários com o estado – cito um pagamento feito durante a viagem feito por um empresário que teria dito que poderia fazer aqueles pagamentos já que esperava o pagamento de um aditivo".

"Não é verdade. Até então, a notícia que se dava em toda a imprensa é que teria viajado ele e as esposas para o Caribe.

E eu sempre disse: foi um grupo grande de amigos, e não fui eu. Inclusive na coletiva que você estava presente que eu fiz ano passado.

Não fui eu que organizei a viagem. Amigos se organizaram: vamos viajar, vamos sair com a família, vamos descansar. E nós fomos. E ele pediu para ir.

E você há de convir que o malandro, para mostrar intimidade comigo, com o governante, perante aqueles que ele quer subtrair algum dinheiro, ele tem que se enfiar, se mostrar íntimo, participar de eventos, de lazer com as famílias. Isso que aconteceu.

Ele se enfiou na viagem e tudo isso é uma profunda mentira. Como dizer que deu mil dólares para o meu filho viajar? Isso é brincadeira, beira o absurdo. A minha família não precisa disso. Eu faço viagens todo ano com a minha família para o exterior.

Eu tenho condições para isso. Não ia ser dele que eu ia pegar mil dólares. Isso não existe. Beira o absurdo.

É uma tentativa desesperada de se livrar das garras da Justiça, de se livrar da cadeia. Tentando de todas as formas, com acusações das mais levianas, das mais absurdas, como essa, por exemplo."

"Muitas pessoas muito próximas ao senhor – assessores, vou citar alguns exemplos, Maurício Fanini, como o senhor disse, era seu amigo, Ezequias Moreira, seu chefe de gabinete, secretário de cerimonial, Luiz Abi, seu primo, e agora Deonilson Rodo, que era seu secretário de Comunicação e também seu chefe de gabinete – todos eles envolvidos em denúncias. Como o senhor vê próximas ao senhor envolvidas em..."

"Mas a tentativa dele é exatamente essa. Para tentar me puxar para o lamaçal onde ele se encontra, tentar envolver todas as pessoas que me cercam.

Não tem menor possibilidade disso. Ezequias, Deonilson, que ele cita, nunca participaram de capacitação de recursos para a minha campanha.

Tem um comitê que é montado exclusivamente para isso, com pessoas de confiança que sabem que a minha determinação sempre, em todas as campanhas que participei, é que os recursos vindos para a campanha, para o financiamento da campanha, tenham origem e sejam devidamente contabilizados na minha campanha.

E em todas as minhas eleições, tivemos aprovação das nossas contas. A prestação de contas mais detalhada de todos os candidatos é minha. Teve campanhas aí, não sei se 2010, 2008, para prefeito, tinha 12 mil folhas a minha prestação de contas. Então, é mais uma mentira desse cidadão.

E não pode, assim como telejornais inteiros fizeram, dar crédito para um criminoso. Dar crédito para um criminoso, um réu confesso que desviou dinheiro público e sem dizer que ele depositou na conta dele 870 cheques, dinheiro, 870 depósitos. Ele é réu confesso.

E todos os fiscais das obras, os construtores, dizem que ele que organizou isso tudo. Tem que mostrar isso e dizer que foi o governo, meu governo, que abriu toda a investigação para elucidar esses fatos. Ninguém foi poupado".

"Ele ocupava um cargo de confiança, um cargo de importância na Secretaria de Educação. Ele afirma que foi indicado pelo senhor para ocupar esse cargo. Como o senhor vê ele ter agido dessa forma, uma pessoa que o senhor teria indicado para fazer parte do seu governo e obviamente poder negociar em nome do governo, ter agido dessa forma?"

"Eu nunca imaginei que ele fizesse isso. Até então, não tinha ouvido nenhum comentário, nenhum ruído sequer que desabonasse a conduta dele. Se eu tivesse ouvido, jamais ele trabalharia comigo. Traiu a minha confiança.

Quem não foi traído? Quem não se decepcionou com uma determinada pessoa? Esse me causou uma profunda decepção, os atos que ele praticou, rasteiros.

Crime assim imperdoável: desviar dinheiro de escola pública. Tem uma escola em Campina Grande do Sul [Região Metropolitana de Curitiba] que ele atestou e pagou execução de 94, 96% da escola que está na fundação – vocês já filmaram várias vezes lá. Isso é um horror.

É um escândalo. Não é possível. Além de desvio profundo de conduta, corrupção inaceitável, é um ato de insanidade. Quem que ele queria enganar ao pagar noventa e poucos por cento de uma obra que não saiu do chão. Isso é inaceitável.

Profundamente decepcionado, e cada um tem que pagar pelos seus erros, e eu não tenho compromisso com o erro de ninguém."

 

O que dizem os citados

 

Ezequias Moreira, ex-assessor, disse que as afirmações de Fanini são mentirosas e garante que nunca tratou com ele ou qualquer outra pessoa sobre doações eleitorais. Afirma, ainda, que jamais recebeu ou mandou Fanini entregasse a qualquer pessoa dinheiro ilícito. Ezequias assegurou ser inocente e disse que processará Fanini por falsas acusações.

A defesa de Luiz Abi, primo de Richa, afirmou que todas as menções de Fanini ao seu cliente são mentirosas e que o único o objetivo de Fanini é firmar um acordo de colaboração premiada envolvendo o máximo de pessoas próximas ao ex-governador Beto Richa.

O ex-chefe de gabinete de Richa Deonilson Roldo tem afirmado que Fanini mente.

Pepe Richa, irmão de Richa, negou as afirmações de Fanini e disse que Fanini, de forma mentirosa, quer terceirizar suas atitudes criminosas.

A defesa de Fernanda Richa, esposa de Richa, afirmou que não existe nem nunca existiu qualquer relação financeira da ex-primeira-dama com as pessoas mencionadas por Fanini e que, oportunamente, vai adotar medidas necessárias para garantir os direitos que lhe foram lesados.

Marcello Richa, filho de Richa, disse que as suposições de Fanini são inverídicas e que possui toda a documentação referente à compra do seu apartamento, comprovando a legalidade e origens dos recursos.

Sérgio Botto de Lacerda, ex-procurador-geral do Estado, afirma que já prestou esclarecimentos ao Ministério Público e negou todas as afirmações feitas por Fanini. Botto de Lacerda disse que não estava em Curitiba na data citada por Fanini, como o dia em que teria antecipado sua prisão e pedido para apagar supostas provas.

O advogado de Fanini afirmou que o ex-governador Beto Richa tem o direito à defesa e tem direito de dizer que Fanini é bandido. Sobre os crimes mencionados na delação, a defesa disse que Fanini não está terceirizando, está trazendo à tona os beneficiários de seus crimes.

Vídeo e matéria completo em:

https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/beto-richa-nega-recebimento-de-propina-e-diz-que-declaracoes-de-fanini-sao-enredo-de-novela-mexicana.ghtml