Cascavel, Segunda-feira, 18 de junho de 2018

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O camisa 10

Conheça o protagonista do derby mais antigo do Oeste, o “Grenal” político de Marechal Cândido Rondon

Nos anos 60 e 70, era improvável que um cidadão rondonense ousasse ascender no mundo político ou empresarial se não dominasse o idioma de Angela Merkel. Ou, na pior das hipóteses, que pelo menos arranhasse o Hunsrückisch, dialeto germânico.

Muito menos ainda um sujeito que tivesse a bebida predileta dos alemães até no sobrenome: Bier. Mas aquele jovem administrador que viajou da capital até Marechal Cândido Rondon em 1977 para uma rápida visita ao irmão vereador estava ali para quebrar paradigmas.

O jovem Ademir Bier, nascido em Erechim (RS), estudado em Curitiba - graduou-se em Administração de Empresas - levou consigo no passeio ao Oeste bravio a jovem esposa, Roseli, recém-casada, encantada pelos olhos azuis do marido. A pacata cidade germânica os recebeu de braços abertos.

“Rondon é assim, menos de 30 dias depois de conhecer alguém, já vira amigo. Com 90 dias é quase parente. O povo aqui é muito hospitaleiro”, relata Bier, resgatando as memórias daqueles anos 70.

Ele quebrou a primeira regra não escrita (do domínio do idioma), ao se tornar o mais bem sucedido corretor de imóveis de Rondon. Vendeu dezenas de lotes rurais em Nova Mutum, no Mato Grosso.

Se tem muito “alemão” hoje naquela porção Norte do Brasil, foi Ademir Bier que os assentou lá. É verdade, as condições eram facilitadas. O governo federal precisava indenizar os agricultores cujas terras receberam o espelho d’água do reservatório de Itaipu. E para isso havia o crédito fundiário e a coragem dos desbravadores.

Garoto bom de bola

Antes, porém, de pôr seus olhos azuis na “Alemanha do Oeste”, Bier viveu a infância, até os 14 anos de idade, no norte gaúcho. Lá foi alfabetizado no Colégio Medianeira, considerado de elite.  Os pais do “alemãozinho” não precisavam pagar as mensalidades. O menino bom de bola recebeu uma bolsa de estudos pelo desempenho com a camisa 10 no time da escola.
“Ademir era uma espécie de Toni Kroos, o meio-campo da seleção alemã, que erra um passe a cada seis meses”, relatam amigos de infância.  É verdade também que as amizades e admiração obtidas no campo de futebol projetaram politicamente aquele jovem corretor imobiliário rondonense.

Nos anos de chumbo, Marechal Cândido Cândido Rondon, por ser município fronteira, integrava a assim chamada “área de segurança nacional”. O prefeito era nomeado pelo regime militar. A Aliança Renovadora Nacional (Arena), o partido da ditadura, davas as cartas na paróquia. Nesse contexto, o MDB (depois PMDB) tinha atuação limitada, fazia a oposição que lhe era possível fazer num cenário onde tudo (ou quase tudo) era controlado pelo arenismo.

O troco veio em 1985, após a redemocratização do país, na primeira eleição direta para prefeito do município desde meados dos anos 1960. Compondo a chapa majoritária do PMDB, lá estava o nome de Bier como candidato a vice-prefeito de Ilmar Priesnitz.

Priesnitz, Bier e o PMDB venceram o pleito. Ali ganhava sequência  o “Grenal” de Rondon: MDB/PMDB x Arena/PDS/PFL e seus sucessores. Na eleição seguinte, em 1988, o bom de bola foi para a cabeça da chapa peemedebista, mas perdeu para Dieter Seyboth, do PFL. O PFL (ex-Arena, ex-PDS) de Werner Wanderer e Elio Rusch era muito forte no interior, em um tempo que o êxodo rural estava apenas insinuado e a maioria da população vivia na roça.

Teimoso como todo “alemão”, Bier disputou novamente, em 1992. Sagrou-se vencedor e derrubou a segunda regra não escrita: era o primeiro prefeito de Rondon que não dominava o idioma de Beethoven.

A grande Rondon

Bier foi o último prefeito da chamada “Grande Rondon”, município que abrigava os pujantes distritos de Mercedes, Nova Santa Rosa, Entre Rios do Oeste, Pato Bragado e Quatro Pontes. Todos foram convertidos em município após o mandato dele.

A partir desse ponto, o Toni Kroos de Rondon mudou de posição no campo. Ele foi eleito deputado estadual, sempre em derbies emocionantes com Rusch. “Acho que ganhei mais que ele, tenho o mandato de prefeito na biografia”, diz Bier, provocado a indicar quem é o vencedor histórico do “Grenal”.

Refeito o mapa da região, o MDB, que já ganhara um “P” a frente do acrônimo, perdia eleições nos municípios satélites da “Alemanha do Oeste”. Bier estranhou e puxou, na condição de deputado, um recadastramento eleitoral. Desconfiava-se que muitos brasiguaios, rondonenses estabelecidos no país vizinho, mantinham irregularmente os títulos eleitorais nos municípios recém emancipados. E eram eleitores cativos dos sucessores da Arena.  “Fiscalizamos o recadastramento, sumiram os paraguaios e começamos a ganhar”, conta Bier.

Vencida a “Guerra do Paraguai”, o MDB hoje tem quatro dos cinco prefeitos da micro-região: Mercedes, Santa Rosa, Quatro Pontes e Pato Bragado. Mas perdeu a “jóia da coroa”, o município mãe, hoje administrado pelo advogado Marcio Rauber, eleitor de Rusch.

Provocado a avaliar Rauber, Bier deu um chute com efeito na bola: “Me parece um cara bem intencionado”.  No Grenal de Rondon é assim, “treino é treino,  jogo é jogo”. Esfriadas as urnas eletrônicas, os “alemães” se unem para defender o município. É uma espécie fair play da política, campo em que Toledo também joga bem. Neste quesito Cascavel domina a bola no pescoço e chuta com a canela.

Adeus, mandabrasa

Após a militância de uma vida no PMDB, Ademir Bier pediu desfiliação em março último. Antes, preocupou-se em justificar o ato em sua base eleitoral, visitando prefeitos e lideranças, uma a uma, para explicar os seus motivos. Basicamente, são dois: um de ordem programática e outro pragmático. O primeiro diz respeito à insatisfação do deputado com a condução do MDB. Fragmentado em disputa fraticida entre Pessuti e Requião, a sigla esfacelou-se no Paraná. Requião ama Lula e Pessuti é apaixonado por Temer. Amores bandidos.

Soma-se a isso a tragédia nacional peemedebista, engolfada pelo Mensalão e depois pelo Petrolão. “Cansei de ouvir todos os dias nos telejornais os jornalistas noticiando o Cabral do PMDB, o Quadrilhão do PMDB, isso foi muito desgastante”, diz Bier. Para o parlamentar, faltou uma posição firme do MDB nacional. “O partido deveria ter expulsado os envolvidos”,  avalia ele, embora considere que a maioria das siglas estão contaminadas.

A opção partidária dele foi o PSD, cujo pré-candidato a governador é Ratinho Jr. O item programático do adeus ao MDB está no esvaziamento da sigla. Estima-se que a raquítica bancada de três deputados da AL vá minguar mais ainda pela condução desastrosa de Requião. Sem uma nominata que inclua os candidatos-escadinha, aqueles que somam votos na legenda, Bier correria o risco de fazer uma bela votação e o partido não atingir o coeficiente eleitoral para obter uma cadeira na Assembleia do Paraná. Pragmatismo germânico, portanto. Ele é candidato à reeleição.

I love Rose

Se não fala alemão, em inglês o deputado Bier faz uma declaração de amor à esposa. É o momento da entrevista em que os blue eyes do decano parlamentar se enchem de água. “Rose é minha companheira em todas as jornadas. Devo muito de minha carreira pública a ela”, disse. Bier faz menção também aos filhos, Fernanda e Luiz Henrique, e aos três netos: Pedro, Rogério e Caroline, “todos lindos”, derrete-se o vovô.

O que fará quando encerrar a carreira política?, é a última pergunta do Pitoco. “Quero curtir os netos e palestrar para jovens, incentivando as novas gerações a participar da vida política partidária, incentivá-los a disputar eleições, formar lideranças. Esse será meu legado”, disse.