Cascavel, Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

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O gigante acordou?

Programa cascavelense de piscicultura é finalista em concurso nacional; Cascavel tem imenso potencial, mas “importa” 95% do peixe que consome

Cascavel está entre os cinco maiores territórios municipais do Paraná. Olhando o copo meio vazio, é possível enxergar a titânica missão  de manter 3 mil quilômetros de estradas rurais em condições de escoar a produção. Para ligar os dois pontos extremos do torrão cascavelense, é necessário vencer 100 quilômetros. É o mesmo que percorrer, pela BR 277 a distância entre a “Capital do Oeste” e São Miguel do Iguaçu.

Olhando a metade cheia do copo, a leitura pode ser outra: o potencial de intercalar outras atividades produtivas nesta vastidão. A piscicultura é uma opção historicamente negligenciada por aqui.

Um estudo das bacias hidrográficas de Cascavel e seu potencial hídrico, realizado aqui pela C.Vale, chegou a um número espetacular: é possível designar 600 hectares para espelhos d’água e ali “semear” tilápias, peixe de carne nobre, frequentador dos pratos mais saudáveis.Com tantas aguadas e vasto território, Cascavel poderia tirar dos açudes até 6 mil toneladas por temporada. Hoje o município produz apenas 5% do que as 317 mil potenciais boquinhas cascavelenses consomem.

Anzol na água - A escassez dos escamosos pode estar no fim. Técnicos da Emater, Secretaria Municipal da Agricultura e Sindicato Rural Patronal formaram um grupo e lançaram o anzol, chamando para si a responsabilidade.

Eles revisitaram um programa que já existia. Introduziram nova metodologia, reuniram uma centena de potenciais produtores e puseram o pé na estrada. Foram 102 visitas técnicas, onde se analisava desde caraterísticas da terra e a topografia até a aptidão dos agricultores, passando pela disponibilidade da água.

Vários ficaram na primeira peneirada. 26 agricultores estão em processo final de habilitação, outros 12 labutam com a papelada. E alguns já estão produzindo.

Volta às aulas - Entre os novos piscicultores está a professora que foi para a roça, Nereide Tebaldi Dola. Em quatro gestões, ela foi diretora da escola do distrito de São João. Após 33 anos nas lides da educação, aposentou-se. Ou melhor, apenas mudou de ramo.

Talvez ela rale agora mais do que antes da aposentadoria. Colocou 62 mil tilápias em três tanques na pequena propriedade recém herdada em São João.

Nereide, a professora, precisou voltar aos “bancos escolares”.  Afinal, o peixe só entrava na vida dela já prontinho, no prato. Era preciso entender as particularidades da criação.

Os técnicos auxiliaram no licenciamento ambiental, capacitação para financiamento do Pronafinho e principalmente no manejo dos bichos. Ou seja, ensinaram a professora a pescar.

Ela é uma aluna dedicada, apesar de algum receio de pegar na mão o peixe de cerca de 600 gramas para as fotos desta reportagem.

Pescar e suar - A atividade, diferente do que o ofício de pescador possa sugerir, é trabalhosa. Com os peixes ainda pequenos, ela precisava tratá-los quatro vezes por dia. Cada sessão consome pelo menos uma hora. “Aproveitei para fazer minhas caminhadas”, disse Nereide.

Fato que a preocupa é o preço que os potenciais compradores estão acenando pelo peixe vivo: R$ 4,10 o quilo.

O custo para implantação dos tanques e o custeio se somam nesta etapa do processo. Foram R$ 265 mil na construção dos açudes e outros R$ 80 mil designados para o custeio. Os peixes têm fome. Alimentá-los custa R$ 800 por dia.

A última compra de ração gerou uma fatura de R$ 12 mil. É para testar mesmo a aptidão empreendedora da professora. Os parentes já andam meio assustados com o arrojo dos Dola.

Na construção de açudes, a Prefeitura ajuda com algumas horas-máquina, porém as “amarelas” são insuficientes para atender todos.

O que rende mais:
frango ou peixe?


“É um negócio rentável”, diz o zootecnista da Emater, Sergio Haroldo Henn.“Comparando com a rentabilidade por quilo de frango produzido após deduzidas todas as despesas, temos resultado de 5% líquidos na avicultura contra até 30% na piscicultura, seis vezes mais”, afirma o especialista. Ele destaca que municípios como Maripá já colocam suas tilápias em mercados distantes, como o Nordeste brasileiro. E que as grandes cooperativas da região entraram no segmento, sinalizando para o mercado a viabilidade do setor.

Outro fator que torna Cascavel mais competitiva, segundo o zootecnista, é a presença da inspeção municipal. O Cisme carimba o peixe e permite que a produção seja comercializada em todo território nacional.

O único frigorífico de peixes do município, da família Marmentini, está se capacitando para atender a expansão da produção. A capacidade de abate vai saltar de 30 toneladas semanais para 100 mil quilos a cada sete dias. Será que agora o município do território gigante e das generosas aguadas acordou?

Em tempo: o Programa de Piscicultura de Cascavel está entre os 15 selecionados pelo Prêmio Municiência, voltado para incentivar e reconhecer ações inovadoras nos municípios.

“Colheita” em junho ou julho
l Oxigenar a água, principalmente à noite, é uma das tecnologias implementadas pelo projeto, e que possibilita ampliar a povoação do açude, permitindo um salto de até quatro vezes na produção. Os açudes da professora Nereide dispõem de aeradores.

l Ela pretende “colher” a primeira safra de tilápias em junho ou julho,  quando os peixes pesarão, em média, 750 gramas cada. Nesta dimensão, ela terá 45 mil quilos nos três açudes somados. Se vender o quilo vivo por R$ 4,10, obterá uma receita de R$ 184 mil.

l Nereide terá investido mais de R$ 100 mil em ração e precisa quitar parcelas do financiamento do açudes. Ela está ansiosa para adiantar a quitação. O prazo é de 10 anos (um de carência) a juros camaradas.

l Detalhe: o peixe não está entre os pratos preferidos da professora e ela não aprecia prepará-lo.  Mas negócios são negócios, preferências gastronômicas à parte...