Cascavel, Segunda-feira, 18 de junho de 2018

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Encanador do mecanismo I

Ira de ex-presidentes garante o Ibope da série de José Padilha

Cena impagável da série “O Mecanismo” (Netflix): O policial federal Marco Ruffo (Selton Mello), põe um olhar perdido na esquina de uma rua qualquer de Curitiba, local que abriga sua modesta residência.

Ouve um borbulhar. Olha para o chão, a “boca de lobo” espuma, forçando a tampa, transbordando algo que parece esgoto doméstico.

Ruffo então liga para a estatal de saneamento. Um funcionário indisposto aparece ali. Olha por cima, vê dificuldades e diz que o conserto levará dias.

“Mas se o senhor chamar o seu João, é rapidinho”, diz Alfredo, o funcionário da empresa de saneamento, passando um cartão com o fone do homem que faria cessar o esgoto a céu aberto.

Ruffo leva aquilo adiante, como para saber onde daria aquele cano malcheiroso. Seu João aparece com um carro velho e o neto adolescente, seu auxiliar.

O orçamento é alto. O encanador explica que daria algum para seu neto, que literalmente colocaria a mão na massa disforme, e molharia as mãos de Alfredo, que indicou o serviço. O chefe do Alfredo também estava na partilha.

Aqui o diretor de “O Mecanismo”, José Padilha fecha o circuito. Padilha é o mesmo de “Narcos” e “Tropa de Elite”. Sabe como poucos pôr o dedo na ferida.

O caso do esgoto – emblemático por si só – surge em um dos últimos episódios da primeira temporada. Antes da cena, desfilaram os principais personagens da “Lava Jato”, entre eles, alguns dos mais notórios pulhas da Banânia, a nossa republiqueta.

“O Mecanismo” apresenta a corrupção como um câncer em metástase no tecido social brasileiro. Ela engolfa parlamentares, ministros, empreiteiros, agentes públicos de todos os poderes, mas também abraça o João e o Alfredo do esgoto. Ou seja, eleitos e eleitores.

A série é implacável. O chicote que açoita Chico, bate também em Francisco. A série trata Lula e Aécio como bandidos, sem rodeios ou distinções.

O ex-presidente já anunciou que irá processar a Netflix. Dilma tratou “O Mecanismo” como fake news. José de Abreu, notório ator petista, cancelou a assinatura. Tudo isso, somado, só fará aumentar a audiência.

Indiferente a reação dos impolutos citados, o esgoto continua escorrendo a céu aberto. Vamos contratar o seu João?

Em tempo: essa resenha segue na próxima edição.

 (Jairo Eduardo, jornalista, editor do Pitoco)