Cascavel, Segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Leia mais

A revolução da maca

Os milhões da saúde para enxugar gelo

R$ 821 mil por dia, todos os dias, incluindo fins de semana e feriados. R$ 300 milhões por ano. O orçamento da saúde devora mais de 1 a cada 4 reais de tudo que é arrecadado pela Prefeitura de Cascavel.
Se você pagou R$ 1 mil de IPVA, o Renato Segalla (Finanças), recebeu R$ 500 (outra metade ficou com o Beto Richa). Dos 500, quase R$ 130 foram para a saúde. E sempre parece insuficiente.
Historicamente a secretaria de Educação foi a “prima rica” em Cascavel, dona do maior orçamento. De alguns anos para cá, a pasta ora comandada pelo Rubens assumiu esta condição.
Como a legislação estabelece que os municípios invistam no mínimo 15% com saúde, possivelmente entendeu-se que este patamar poderia atender. Cascavel gasta quase o dobro e passa apuros.
Na semana passada, ato que pode ser denominado “a revolução das macas”, a situação chegou ao extremo. A frota de ambulâncias estagnou por que as macas estavam servindo de leito na UPAs, lotadas de paciente aguardando internação.
Semanas antes, o prefeito Paranhos havia decidido tornar pública, diariamente, sempre às 13 horas, a lista dos viventes que aguardam internamento. Era um delimitador: até aqui, na UPA, a responsabilidade é do Paço. Da UPA para o clique no hospital, é problema do Beto e talvez do Temer.
O revolta das macas gerou uma reunião de emergência. Tensão, lavagem de roupa suja em público e uma solução provisória: a Prefeitura cede 10 auxiliares de enfermagem para ativação parcial da ala G2, no HU.
O time da saúde municipal, desde que Paranhos assumiu, já aumentou em 600 servidores. A maioria alocada nos PSF, equipes de saúde preventiva. Desde que o PSF existe, nos anos 90, Cascavel acumulou 23 equipes. Nos últimos 14 meses, o número saltou para 47.
O Paço avalia que saúde curativa é enxugar gelo, saco sem fundo. Miroslau Bailak, chefe da 10ª Regional de Saúde, um dos cargos públicos mais pepinosos do planeta, aponta também outros gargalos: 530 acidentes de trânsito nos últimos 80 dias.
“Não há ortopedista no Oeste inteiro para atender o que acontece em Cascavel”, desabafa o doutor. Para ele, a solução passa pela ativação do antigo Santa Catarina e seus 60 leitos. Outra ação a ser espetada na conta do Rubens.
Poderá o município alocar mais recursos na saúde sem “adoecer” outras áreas que também precisam de atendimento? É saudável encontrar resposta para esta questão, embora, saibamos, trata-se de problema de alta complexidade... E não há vagas para internamento nesta ala, só na maca...

Editorial

Há os utópicos apaixonados pelo SUS e há os realistas. Quando os generosos constituintes universalizaram o atendimento a saúde no Brasil, em 1988, eles produziram uma peça de ficção científica. Nem um país do planeta com mais de 100 milhões de almas havia tentado isso antes com sucesso. Talvez sejamos o primeiro caso. De momento, o congestionamento de macas nas UPAs e HUs da vida nos desautorizaram imaginar que a jabuticaba do SUS algum dia irá universalizar a saúde.