Cascavel, Quinta-feira, 26 de abril de 2018

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Caçula mira o bilhão

Impulsionada por um crescimento chinês, a Primato devolve a Toledo papel de protagonismo no setor cooperativista

Se toda crise vislumbra uma oportunidade, a Primato está aí para confirmar a regra. Quando a Copagro foi à bancarrota nos anos 1990, deixando o rico agronegócio toledense órfão, surgiu a Coamo para assumir algumas áreas da “falecida”.

Porém, segmento expressivo do PIB agroepecuário de Toledo, o pessoal da proteína animal e da bacia leiteira, ficou à margem do resgate da cooperativa de Umuarama, que foca na comercialização de grãos.

Era a janela aberta para o cooperativismo se reinventar. Surgia, no inverno de 1997, a Cooperlac, depois redesenhada para Primato. Impulsionada por um crescimento chinês, a caçula das cooperativas do Oeste saltou, em apenas duas décadas, de 29 associados para quase 7 mil.

E o faturamento, acima de R$ 500 milhões, caminha a passos largos para, já no início da próxima década, beliscar o primeiro bilhão, incluindo Toledo no seleto time das cooperativas bilionárias.

O Pitoco entrevistou o gaúcho nascido na região de Santa Rosa, Ilmo Werle Welter, presidente da Primato. Radicado ainda menino em Santa Helena, o primeiro contato dele com o cooperativismo se deu já no primeiro emprego, nos supermercados da Lar em Medianeira e Missal.

Graduado na área de contabilidade, residindo em Toledo, ele preside a nova potência cooperativa do Oeste. Acompanhe a entrevista:

A falência da Copagro nos anos 90 desencadeou o nascedouro da Primato?
Em um primeiro momento, foi  necessário o sistema cooperativo se restabelecer em Toledo, a partir da falência da Copagro. Havia uma oportunidade, pois quando a Coamo assumiu o espólio da Copagro, focada no setor de grãos,  ficaram fora os produtores de leite e de suínos, onde Toledo tinha uma representação muito forte. Então surgiu em 1997 a oportunidade de se criar uma cooperativa para atender em primeiro momento aqueles produtores que estavam desamparados e trabalhavam com a parte da pecuária, suínos e leite. Essa demanda foi a porta de entrada da Primato.

Grãos e rações eram uma questão de tempo...
Sim, com o passar do tempo desenvolvemos um trabalho para preparar nossa entrada no setor de grãos. Em 2006, em conjunto com o conselho, definimo-nos inicialmente pela entrada na área de produção de rações. Foi quando entrou em operação a da unidade fabril de rações. Naquele momento já tínhamos projetado e desenhado a unidade de grãos. Porém, com os pés sempre firmes no chão, trabalhamos primeiramente com a abertura da fábrica de rações, com capacidade de produção de 16 mil toneladas. Essa unidade começou a operar em 2008. Em 2015, começamos o projeto grãos. Abrimos então uma nova fase, que nos desvincula totalmente, operando independente da cooperativa de Campo Mourão, que, diga-se de passagem, cumpriu um papel importante e é uma parceira nossa.

Foi preciso restabelecer a confiança do agricultor toledense no cooperativismo após a quebra da Copagro?
Sim, houve pessoas naquele momento que tiveram prejuízos e precisaram arcar com aquilo. Foram poucos, mas houve casos. Os credores que tiveram direito a receber foram à Justiça. Mas tivemos a felicidade da interferência da Coamo, que assumiu as unidades e conseguiu cobrir os custos de atraso.  Ou seja, o próprio cooperativismo deu solução para o problema, mostrando dessa maneira a confiabilidade do sistema.

A Copacol ou Coopavel, que estavam tão próximas da oportunidade, não poderiam ter feito as vezes da Primato e ocupado o espaço em Toledo?
A história que ouvi falar, muito embora dela eu não tenha participado, é que a oportunidade foi dada a todas elas. Porém, existia naquele momento, no inicio dos anos 1990, uma crise financeira  muito acentuada em todo o País. Por essa razão, acredito que ninguém quis dar o passo além. A Coamo teve essa oportunidade, estava melhor calçada e aproveitou, mas a oportunidade se apresentou para todas.
Como distinguir a Primato em meio às gigantes bilionárias da região?
De fato somos a menor aqui e estamos no meio das gigantes. Temos a necessidade de ir além. E esse algo a mais nos mostra lá no horizonte algumas oportunidades. Assim, implantamos o supermercado. Entramos também com nossas marcas próprias de produtos. É uma satisfação enorme ver o crescimento espetacular em termos de inclusão e de oportunidade para os cooperados, já que a grande maioria desses produtos que registramos com nossa marca são oriundos dos próprios produtores nossos, a exemplo da carne e ovos.

E como o consumidor final reagiu às marcas próprias? Elas são rentáveis?
São muito rentáveis. Sentimos nosso forte crescimento no varejo. Nós começamos a comercializar a carne produzida pelos cooperados nos supermercados em 24 de fevereiro de 2010. O faturamento no primeiro momento era algo em torno de R$ 200 mil. Hoje temos um faturamento de R$ 14 milhões mensais.

Há projeto para uma unidade do supermercado Primato em Cascavel?
Já tivemos oportunidade de estabelecer um supermercado em Cascavel. Naquele momento o conselho considerou que este passo não estava maduro ainda e não deu respaldo suficiente para viabilizá-lo. Mas é uma questão de tempo, a gente trabalha com esta perspectiva futura. Sabemos que se trata de uma praça disputada. Mas há espaço para todos. Cada um deve fazer a sua gestão, aquele que mostrar capacidade se estabelece, o resto é trabalho sério e respeito ao consumidor.

A cultura associativista do oestino está na essência desse crescimento rápido da Primato?
Sem dúvida. Nosso associado tem essa cultura, e o Oeste do Paraná como um todo produziu grandes cooperativas, fruto da força associativa de nosso povo e da confiança que o sistema cooperativo conquistou aqui. Essa força permitiu a industrialização das cooperativas, provendo-as da auto-suficiência.  Quando avançamos na industrialização, abrimos oportunidades de novos negócios na propriedade. Aí o produtor, mesmo o pequeno, tem sua oportunidade para melhorar a renda e se fixar. Esse é um traço muito forte na nossa região.

Qual a próxima inovação da Primato?
Dentro de um planejamento elaborado enxergamos oportunidades na área de peixe. Estudamos as experiências positivas da Copacol, da C.Vale, temos também empresas muito fortes no município de Toledo que são sólidas em relação a esse negócio. E a Primato tem uma demanda muito grande. Muitos associados já têm esse serviço na propriedade. Então estamos trabalhando em cima de um planejamento para no futuro industrializarmos essa matéria prima.

O modelo de gestão da caçula é semelhante ao das bilionárias?
Muito parecida com as demais. O que temos diferente, logo abaixo da diretoria executiva, é a figura de um gestor, um diretor executivo que faz parte da direção. Trata-se de um profissional com formação e conhecimento do mercado. Construímos uma gestão compartilhada entre a diretoria e o executivo. Estamos sempre muito próximos; então, nossa decisão é mais rápida. Nutrimos um sentimento de realização que nos fortalece, porque realmente aquilo que planejamos nós cumprimos.

A evolução do quadro associativo surpreendeu?
De alguma forma, sim. Tínhamos uma meta de atingir 7 mil associados em 2021, mas surgiu a oportunidade de entrarmos na região de Verê, no Sudoeste, quando compramos uma unidade fabril de rações, e tivemos uma demanda de crescimento muito grande. Hoje já chegamos a 6,6 mil associados, então nossa meta provavelmente será atingida em 2018, três anos antes do estipulado.

Quando a Primato ingressa no “clube do bilhão”?
O planejamento nos mostra que isso acontecerá no final de 2021. Naquele ano atingiremos faturamento de R$ 1 bilhão. Tivemos nos últimos anos um crescimento médio acima de 23%. Se em 2017 tivemos um crescimento de 6,62%, no ano anterior crescemos 49%. Ou seja, na média dá acima de 25%. Temos dentro do planejamento a ousada meta de crescer 18% em 2018.