Cascavel, Sábado, 22 de setembro de 2018

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Junto e misturado

Como a rede social alertou a ausência do Leocádio

- Partiu...quinta que o pariu! O direito não socorre quem dorme.
A mensagem foi postada no Facebook exatamente às 6h20 da manhã de uma quinta-feira, dia 8 de fevereiro.
Partiu da mente inquieta do advogado Leocádio Lustosa. O corpo sem vida seria encontrado no dia seguinte.
O coração, apontado por tantos como vasto e generoso, lhe faltou.
Fã do tenista Roger Federer, apreciador de carros esportivos, frasista incorrigível, doutor dos trocadilhos.
Para cada dia da semana, ele tinha um. “Terça por nós”, publicava nas terças. “Partiu, sabadão! Era sol que faltava”, postava no fim de semana cinzento.
Arregimentava 1.634 amigos na rede social. Amigos? Há que distinguir amigos de conhecidos, notadamente na rede social.
Quando disputou uma cadeira na Câmara de Cascavel pelo Partido Verde, em 2016, o frasista obteve 143 votos, menos de 10% dos “amigos” da rede.
Mas foram eles, os amigos do Facebook que notaram primeiro a ausência do Leocádio. A amiga Marcia Blanck apontou: “O celular silenciou. Não havia mensagem, nada de um bom dia.”
Lustosa enviava seus trocadilhos diariamente para o heterogêneo grupo, via mensageiro do Facebook.
O silêncio gritava naquela sexta-feira de Carnaval. Até que o irmão Amilton arrombou o apartamento no centro e encontrou o mano já sem vida, sentado em uma poltrona, com a TV ligada.
O advogado das notas taquigráficas partiu tomando uma Itaipava, que ainda se apresentava pela metade.
Olhar para a metade vazia do copo? Ou olhar para a metade cheia? A cena descreve bem a vida e a morte.
Partiremos em algum momento, deixando uma mensagem sem resposta no e-mail, no zap-zap, na rede...
É a incompletude da vida. Todos seguiremos devendo uma resposta, uma explicação, “juntos e misturados”, como repetia Leocádio Lustosa.
Em tempo: Vai uma leitura fria da consternação gerada pela morte? Com a palavra o escritor francês Gabriel Meilhan (1.736/1.803):
“Acreditamos ficar tristes pela morte de uma pessoa, quando na verdade é apenas a morte que nos impressiona.”