Cascavel, Quarta-feira, 15 de agosto de 2018

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Apertem os cintos, a rodovia sumiu

Desvio da 163 produz vila fantasma em Santa Maria

Carlos Zaffari

O desânimo parece ter tomado conta dos pequenos empresários e comerciantes de Santa Maria, distrito de Santa Tereza do Oeste. Desde que houve a inauguração de um trecho duplicado da BR 163, em outubro do ano passado, todo o fluxo da rodovia foi desviado e o movimento do comércio simplesmente sumiu de uma hora para outra. O resultado que se vê hoje é comerciantes abandonando a vila em busca de novas oportunidades.

Com a duplicação, o acesso à pequena vila está sendo feito por dois viadutos, um ao norte e outro ao sul. O trânsito pesado, entretanto, passa literalmente por cima e leva para longe toda a fonte de renda que antes alimentava a comunidade. A cena era impensável até alguns meses atrás: é possível deitar-se sobre o leito da rodovia sem ser importunado.

 Uma década atrás, quando o então governador Requião cogitava estabelecer um “pedágio de manutenção estatal” na 163, a contagem de tráfego feita pelo DER chegou a 8,6 mil veículos/dia naquela rodovia. Hoje seguramente passa de 10 mil. Era essa frota imensa que irrigava o caixa de vendedores de frutas e tudo quanto é “bugiganga” nas margens da 163.

O empresário Lirio Carletto conhecia bem a multidão que transitava naquele trecho. Por muitos anos, ele e a família mantém uma churrascaria e o posto de combustíveis no distrito. Carletto contou informalmente que eram atendidas, em média, 250 pessoas no almoço. Nas primeiras semanas após a inauguração da nova estrada, o movimento caiu 70%.  

Carletto investiu pesado em divulgação, colocou outdoors às margens da estrada, fez anúncio em rádio e conseguiu trazer de volta parte da clientela. Hoje ele diz que já recuperou mais da metade dos clientes. Em outros estabelecimentos, porém, houve dispensas e muitos comerciantes passaram a trabalhar apenas com a mão de obra familiar.  

Assim como Carletto, outros comerciantes apostam as fichas na conclusão de uma alça de acesso que está sendo construída. Para quem trafega pela rodovia, a obra vai oferecer mais facilidade. Ainda assim não é difícil encontrar aqueles que procuram alternativas e alguns já pensam em fechar as portas.   

“Às vezes me sinto como um grão de areia no oceano”
O prefeito Élio Marciniak tem perdido os cabelos com as queixas. E busca uma solução. Ele reafirma que a duplicação trouxe progresso e, principalmente, segurança. Destacou uma série de benefícios e recomendou aos queixosos que é preciso se reinventar.  

Disse que pretende estimular a industrialização do distrito. Élio esteve em Brasília, por duas ocasiões, e tenta negociar algumas concessões com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A construção da alça de acesso no lado norte da vila, por exemplo,  foi uma das pedidas do alcaide, já que ela não existia no projeto original.

O prefeito conta, entretanto, que tem lutado praticamente sozinho em busca de alternativas. Em várias ocasiões tentou reunir os empresários e comerciantes do distrito para discutir os problemas individuais e buscar uma solução conjunta, porém houve baixa participação. Algumas  reuniões acabaram inviabilizadas por falta de quórum. “Estou lutando para que a comunidade não tenha reflexos e retome o desenvolvimento. Mas às vezes me sinto como um grão de areia no oceano”, desabafa. Ou seja, a rodovia sumiu e o pessoal jogou a toalha.

Santa Maria hoje é Lindoeste amanhã
O viaduto norte da BR-163, para acesso a Lindoeste, será construído a cerca de um quilômetro de onde está o portal de entrada (a direita, para quem segue no sentido Capitão Leônidas Marques).

A informação foi confirmada pelo DNIT ao prefeito José Romualdo, após uma série de inquietações da população.

A fundação para a construção dos pilares já está pronta e parte da estrutura de concreto, que será utilizada nas paredes do aterro, também está no local.  

Jardim de pedras no quintal dos Kondrat
A obra de duplicação da 163 gerou cenas curiosas, como esta: o “jardim” de pedras na residência da família Kondrat, em Capitão Leônidas Marques.

Clairton Kondrat, descendente de alemães, prosa típica dos agricultores da região, viveu 41 anos na casa de madeira que em breve vai ao chão. Ele foi avisado que o novo leito da rodovia ficaria a centímetros da varanda. E também foi indenizado. Mas lastima: “Perdi meu pé de caqui, meu pomar”.

Os Kondrat têm três alqueires no local e se dedicam à produção de leite, extraído de 20 vacas. Não foi fácil entrevistá-lo. “Você tá gravando por quê? Tá todo mundo desconfiado aqui”, revelou ele. A esposa não quis papo com a reportagem. “Quem é você?”, cortou ela, interrompendo a ordenha.

O agricultor não acredita que a obra trará valorização imobiliária. “Isso é conversa fiada”, disse. No entanto, Kondrat reconhece que haverá mais segurança para os usuários da rodovia, incluindo ele próprio. “Vi muito acidente com morte aqui”, relata o alemão que “cultiva” pedras no quintal.

Em tempo: A família está construindo uma residência em alvenaria nos fundos da atual.