Cascavel, Terça-feira, 22 de maio de 2018

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Fui eu quem trouxe a Sadia para Toledo

E o espírito pioneiro de seu Egon realmente foi longe, ganhou asas e se tornou amigo de Atílio Fontana

https://www.jornaldooeste.com.br/noticia/pudell-fui-eu-quem-trouxe-a-sadia-para-toledo

Na manhã chuvosa de segunda-feira (30), foi sepultado o corpo do segundo prefeito de Toledo e pioneiro Egon Pudell. Como forma de homenageá-lo, o JORNAL DO OESTE reproduz a entrevista feita com ele nas comemorações dos 50 anos da cidade. A frase do ex-prefeito Egon Pudell resume o sentimento de um dos responsáveis pela instalação do maior frigorífico da América Latina em Toledo. “Eu articulei, mas o prefeito era o Ernesto (Dall’Oglio) que foi quem garantiu o apoio, assim como toda a comunidade”, conta seu Egon Pudell, amigo do ex-médico e primeiro prefeito do município. Gaúcho, como Ernesto Dall’Oglio, o jovem Egon Pudell chegou em Toledo com o mesmo objetivo de tantos outros pioneiros que desbravaram o Oeste do Paraná: Ganhar dinheiro e conseguir uma vida melhor.

Casado com dona Alda Pudell, o segundo prefeito de Toledo e primeiro deputado estadual recebeu a equipe do JORNAL DO OESTE para a segunda série de reportagens sobre os pioneiros da cidade. Entre as várias lembranças de um começo difícil em Toledo, Egon Pudell lembra da primeira vez que pisou na região, no dia 7 de setembro de 1949, indicado por um dos acionistas da Colonizadora Maripá, Kurt Bercht. “Cheguei e fui embora no mesmo dia”, lembra seu Egon. Nada haver com o medo de ficar numa terra desconhecida, mas sim pelo temporal que estava se armando e, naquela época, chover significava 15 dias sem poder sair da cidade por causa das condições precárias das estradas.

A chegada definitiva aconteceu em dezembro de 1951 quando veio para morar e assumir a gerência do Empório a partir de 1952. Na época Toledo tinha cerca de 70 casas e o então distrito de Marechal Cândido Rondon estava apenas começando, assim como outros distritos, por exemplo, Dez de Maio, um dos mais desenvolvidos na época.

SADIA

Mas e a história sobre a vinda da Sadia para Toledo, deve estar se perguntando o leitor? Bom, para contá-la é preciso voltar no tempo, mais precisamente para março de 1957, quando o então prefeito de Cascavel, Otacílio Mion deu uma entrevista à Gazeta do Povo afirmando que a Sadia iria se instalar em Cascavel. A notícia causou furor na região e, durante o Congresso Brasileiro dos Municípios, no Rio de Janeiro – sede do Governo Federal – o prefeito Egon Pudell resolveu, durante um dos intervalos do encontro, ir ao Congresso Nacional, na praça da Cinelândia, para conhecer e conversar com o deputado federal Atílio Fontana, que seria decisivo anos mais tarde para a vinda da Sadia para Toledo. Sentados na galeria de honra, Fontana e Pudell puderam ouvir Carlos Lacerda fazer um inflamado discurso contra o presidente Juscelino Kubitschek.

A conversa entre os dois corria solta quando entrou a ordem do dia em terceira e última discussão dando a prerrogativa a deputados e senadores importarem veículos sem pagar as taxas alfandegárias, o que acabou sendo vetado mais tarde pelo presidente JK. O deputado Atílio Fontana resumiu sua indignação com a seguinte frase: “Isso é uma imoralidade”. “Aquilo me chamou a atenção”, relembra Egon Pudell que explicou ao deputado a importância de Toledo dentro da suinocultura e acabou sendo convidado para um jantar com o deputado.

 AMIZADES IMPORTANTES

No retorno ao Congresso dos Municípios o ousado prefeito resolveu fazer a seguinte proposição: “Que as prefeituras tenham o direito de importar um trator e uma moto niveladora sem pagar os direitos alfandegários”. A justificativa para tamanha ousadia chamou a atenção dos demais prefeitos que aplaudiram seu Egon ao expor suas razões. “Assisti pessoalmente a votação da importação de automóveis com estas prerrogativas no Congresso”, disse o jovem prefeito que todos queriam conhecer, até mesmo o então prefeito de Curitiba Ney Braga. Tanta publicidade rendeu um cumprimento ao presidente JK. Egon Pudell explicou que Toledo era considerado faixa de fronteira e que havia muitas coisas ainda para serem feitas no município e que sem ajuda seria muito difícil conseguir alguma coisa.

 Juscelino Kubitschek fez uma recomendação ao capitão que era o chefe do Departamento de Faixa de Fronteira, que compreendia os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O contato valeu o projeto de instalação da Usina do Rio Guaçu, melhoria na Usina do São Francisco e um projeto de encanamento de água e esgoto que mais tarde foi repassado à Sanepar. Durante o jantar Egon Pudell contou ao deputado Atílio Fontana que lhe deu um tapinha nas costas como que dizendo, “garoto, você vai longe”. E o espírito pioneiro de seu Egon realmente foi longe, ganhou asas e se tornou amigo de Atílio Fontana “de quem sempre tive uma admiração muito grande e do qual nunca mais deixei de ser amigo”.

PIONEIRO

Com isto a Sadia acabou adiando sua instalação no Oeste. Neste meio tempo a população cobrava a instalação de um frigorífico para atender aos produtores de suínos principalmente, até que Reinoldo Baldiche, juntamente com o sócio Egon Pudell, instalou o Frigorífico Pioneiro. Ao fim do mandato como prefeito o administrador Egon foi eleito vereador e assumiu a vice-presidência do Pioneiro, arrumando empréstimos para a compra de suínos junto ao Banco do Brasil e o Bamerindus. Problemas com o sócio forçaram Egon a vender sua parte no frigorífico, mas não para qualquer um e sim para o amigo Atílio Fontana. “Fui a Florianópolis conversar com o já senador Atílio Fontana para que ele comprasse o frigorífico.

Em poucas semanas o negócio com a Sadia estava fechado”, lembra com um sorriso de orgulho na face Egon Pudell que prefere evitar polêmicas com o amigo Ernesto Dall’Oglio, a quem elogia por ter organizado os serviços interno e externo da Prefeitura durante seu primeiro mandato. “É bom ressaltar que a ajuda da comunidade foi fundamental para a instalação da Sadia em Toledo e a colaboração do Ernesto também, que inclusive doou uma das turbinas da Usina do São Francisco”, reconhece Egon Pudell.

HISTÓRIAS PITORESCAS

Apesar de ter vivido e fazer parte da história da cidade, Egon Pudell lutava para manter sua memória em dia e contou algumas das muitas aventuras vividas na época. Como político uma das primeiras conquistas foi a doação pelo governador da época, Moysés Lupion, de um trator de grande porte que ajudou a construir muitas obras na recém-criada Toledo. “A doação veio através do Departamento de Fronteira”, conta o ex-prefeito que lembrou também de uma festa no distrito de Xaxim (risos), quando não conseguiu beber cerveja por causa do cheiro “e mais tarde me tornei um bebedor cobra de cerveja”, hábito que abandonou hoje em dia. Mas a história mais engraçada é a de um companheiro da época, que durante um jantar na residência de um agricultor no interior de Vila Nova, “ficava sentado de costas para a janela e jogava os ossos do frango pela janela para não mostrar o quanto comia. Só que ele comia bem”. (Risos novamente).

POLÍTICA

 Entre tantas atividades certamente foi na política que o nome de Egon Pudell se eternizou. A amizade com Willy Barth rendeu ao jovem administrador do Empório a indicação para disputar as eleições de 1955. “O Willy (Barth) tinha uma visão extraordinária. Para mim era como um segundo pai”, recorda o pioneiro. Vencedor, Pudell assumiu a prefeitura em 14 de dezembro de 1956 até 13 de dezembro de 1960. Durante seu mandato investiu pesado em saúde e educação, tendo construído várias salas de aulas. Em 20 de junho de 1959 foi criada a Diocese de Toledo com o apoio de Willy Barth e dos c

olaboradores da Maripá e da administração municipal (poderes Executivo e Legislativo). “O Oeste como um todo deve muito à figura do Willy Barth”, comenta Egon Pudell que foi indicado pelo desbravador para ser o sucessor de Ernesto Dall’Oglio à frente da Prefeitura. Sempre preocupado em não cometer injustiças, Egon Pudell fez questão de incluir na reportagem os nomes dos vereadores que o acompanharam nos dois mandatos, “já que eles foram importantes na construção do município”, comentou. No primeiro mandato os vereadores eleitos pelo PSD (Partido Social Democrático) foram, Clécio Zenni, Lauro Périus, Arlindo Alberto Lamb, Lothario Aloysio Anschau, Ariberto Hofstaetter e Simon Scherer, além de Gentil Oswaldo Dal’Maso, Helmuth Koch e Ernesto Dall’Oglio, todos pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro).

Durante esta legislatura ainda assumiram o cargo Profino Dall’Oglio (PTB); Sílvio Sebastiani, Waldi Winter e Ivo Welter pela UDN (União Democrática Nacional). Já no segundo mandato os vereadores eleitos foram José Ivo Alves da Rocha, Walmir Grande, Irineu Agnes, Cixtus Kaefer, Rovílio Siviero, Leonardo Euclides Coppetti e Antônio Mazurek, todos pela extinta Arena, e Alcido Leonardi e Henrique Rossoni, pelo antigo MDB, atual PMDB. O ex-prefeito fez outro pedido especial, que todos os funcionários que trabalharam com ele nos dois mandatos fossem elogiados, em especial o pai do prefeito Derli Donin, Alcides Donin, um dos primeiros funcionários públicos do município, “um homem muito bom e muito dedicado”, acrescenta Egon Pudell.

INOVADOR

A maneira progressista de governar sempre foi uma marca de Egon Pudell à frente dos cargos públicos que ocupou. Durante o segundo mandato como prefeito, de 31 de janeiro de 1969 a 30 de janeiro de 1973, seu Egon criou o Plano Diretor de Toledo, já prevendo a implantação do lago municipal e galerias pluviais e esgoto em toda a cidade. Já como deputado, de 1962 até 1966, assumiu a presidência da Assembléia Legislativa e impediu o aumento do número de vagas de deputados. Ao fim do mandato acabou se dedicando apenas aos negócios particulares até que numa das visitas a Toledo um velho amigo, o senador Atílio Fontana, pediu que Pudell fosse até a Sadia para uma conversa. “Você trouxe a organização para Toledo e não pode deixar de ser o candidato”, disse o senador, novamente despertando em Egon Pudell a vontade de comandar os destinos da cidade que havia escolhido para viver.

Durante o mandato de prefeito defendeu também a entrada da Copel em Toledo, “já que a linha de alta tensão foi de Cascavel a Marechal Cândido Rondon sem passar por Toledo”, ressalta o ex-prefeito. Com a entrada da energia elétrica com maior capacidade impulsionou o crescimento da cidade e da própria Sadia, que decidiu ampliar sua produção. A vontade de construir um futuro melhor levou Egon Pudell em duas oportunidades de volta à Assembléia Legislativa, de 1975 a 1984, quando abandonou definitivamente a política, mostrando que o município sempre teve uma forte representação política na capital do Estado. “Acho que esta força política vem da conscientização do próprio povo que prefere votar em candidatos identificados com os objetivos da cidade e da região”, define uma das principais lideranças políticas de Toledo em todos os tempos.

PASSADO E FUTURO

O rápido crescimento de Toledo não chega a assustar, porém, como ele próprio definiu, este desenvolvimento foi acima do esperado, “não só para mim, como para todos os pioneiros, foi um imprevisto”. Para Egon Pudell os últimos 5 anos foram de fundamental importância para este rápido crescimento e elogiou a administração de Derli Donin, segundo Pudell “a qual tem dado uma demonstração muito boa, melhor do que eu esperava, não que eu não acreditasse no Derli, mas não esperava esta transformação de Toledo”, destacou o ex-prefeito sem esquecer o apoio fundamental dos deputados Dilceu Sperafico (federal) e Duílio Genari (estadual). Na visão do velho pioneiro, nascido em Santa Rosa (RS), em 24 de agosto de 1929, o futuro de Toledo será brilhante e disse acreditar que tudo irá depender “da responsabilidade e da educação”.

 Egon Pudell lembrou ainda da chegada das faculdades, em sua opinião uma visão inteligente dos prefeitos que as trouxeram. “Vejo Toledo num progresso com estabilidade e segurança. Vejo um futuro muito bom para estas novas gerações”, encerrou Egon Pudell, memória viva de Toledo, mas que agora descansa para sempre na terra que escolheu para viver. E morrer!