Cascavel, Sábado, 22 de setembro de 2018

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DEPUTADO à moda antiga

Ele exerceu três mandatos espartanos e dignos a bordo de seu Fuscão branco. Sem privilégios, sem negociatas

O parlamento brasileiro, segundo o 1º secretário da Câmara, Fernando Giacobo, é o mais caro do planeta, depois do americano. Emprega 20 mil pessoas, a maioria com elevados salários e pouco serviço.

Salário de R$ 33.7 mil, auxílio-moradia de R$ 4.2 mil ou apartamento de graça, verba de R$ 92 mil para contratar até 25 funcionários.  R$ 30,4 mil a R$ 45.2 mil por mês para gastar com alimentação, aluguel de veículo e escritório, divulgação do mandato, entre outras despesas. Dois salários no primeiro e no último mês da legislatura como ajuda de custo, ressarcimento de gastos médicos. Esses são alguns dos benefícios de um deputado federal brasileiro, que somam R$ 168,6 mil por mês. Juntos, os 513 custam, em média, R$ 86 milhões ao contribuinte todo mês. Ou R$ 1 bilhão por ano.

O Congresso Nacional e os demais poderes, Judiciário e Executivo, são máquinas de triturar dinheiro público. “Em tempo de ajuste fiscal, o Congresso Nacional não para de aumentar as despesas. A Câmara dos Deputados e o Senado Federal têm orçamento previsto de R$ 9,4 bilhões para 2018. Isso quer dizer que o trabalho dos parlamentares brasileiros custará o equivalente a R$ 1,1 milhão por hora”, informa o portal Contas Abertas, com números do ano passado.

Sempre foi assim? Não. Acompanhe o depoimento do professor Paulo Marques, incrivelmente lúcido e ativo aos 86 anos de idade, homem  que exerceu três vezes o mandato de deputado federal nos anos 1970/80 representando a região de Cascavel.

Paulo Marques, que recebeu o Pitoco em seu sítio encravado dentro da cidade, entre a BR 467 e o bairro Tropical, é do tempo em que o parlamentar era recebido como autoridade em sua base. Do tempo em que o Congresso tinha respeito. Com vocês, o deputado à moda antiga.

Pitoco - Qual estrutura o senhor dispunha para exercer o mandato de deputado federal?
Paulo Marques -  A estrutura era mínima. Vivíamos uma ditadura militar, mas a estrutura enxuta do Congresso vinha da democracia que a antecedeu.  Nosso objetivo principal era retornar à democracia e o combate ao regime. Fui eleito em 1972, juntamente com o Álvaro Dias, que exercia ali seu primeiro mandato na Câmara.

E a estrutura disponível?
Difícil acreditar, mas eu tinha uma sala em um anexo pequeno, inicialmente de 2,5 metros por 4 metros, dividida em duas partes, uma para o deputado, outro para a assessora, a Terezinha. Tínhamos também um office boy, que nem era funcionário da Câmara, acho.

Só? E os assessores de campo?
Não tinha assessor de campo.  Nada fora de Brasília, nada no Paraná.  O exercício do mandato do deputado se dava no plenário e nas comissões técnicas. Presidi a Comissão de Educação, participei da Comissão de Agricultura e ainda da Comissão de Relações Exteriores porque domino o idioma inglês.

É possível exercer o mandato com gabinete tão enxuto?
Não só é possível como o fizemos. E com atuação agressiva, questionando a legitimidade do regime, enfrentando a PF, buscando caminhos para retomar a democracia. Fiquei 12 anos, sempre com uma única funcionária e sem carro oficial.

Como eram os deslocamentos para visitar sua base?
Tínhamos, a cada 15 dias, passagem de avião de Brasília para a capital do estado. Quem morava no interior, como era meu caso, tinha que se virar. Então eu voava até Curitiba e depois até o aeroporto de Foz do Iguaçu, com este último deslocamento pago do meu bolso. De Foz eu vinha dirigindo meu Fusca branco, ano 1975, que tenho até hoje.

Como o senhor vê essa estrutura bilionária à disposição dos deputados de hoje?
Permita-me usar uma única palavra para resumir isso: vergonha.  Nada disso é necessário para exercer um mandato parlamentar. O papel de visitar o eleitor na base dispensa assessor. Tem que ser tarefa do próprio deputado, como eu fazia pessoalmente.

Parcela considerável do eleitorado hoje flerta com ideias autoritárias. Alguns inclusive saudosos da ditadura. Isso se deve à desmoralização da democracia pelos maus democratas?
Reflete o descrédito total da classe política. Nem gosto de falar de política, tenho vergonha, não me sinto bem.  Eu prefiro ser chamado de professor. Quando alguém, por respeito ao meu passado, me chama de deputado, fico incomodado, embora eu tenha orgulho do trabalho que fiz em Brasília.

E o seu PMDB?
Está associado com o que está aí, vergonha nacional! Partidos políticos não representam mais nada. Ainda sou filiado ao PMDB, não me desfiliei e nem me expulsaram. Há muitos anos não participo de nada, mas acompanho tudo pelo Jornal Nacional. O PMDB está inundado de corruptos.

E já foi diferente?
Sim! Fui amigo pessoal de Ulisses Guimarães. Quando ele vinha a Foz, logo perguntava, “cadê o Paulo Marques?”.  Essa turma da velha guarda tinha outra missão na política, que em nada se parece com os protagonistas de hoje, movidos por negociatas.

O senhor indicava gente para cargos nas muitas estatais da época?
Eu não, até porque estava na oposição. Mas o pessoal da Arena, que dava sustentação à ditadura, indicava, sim. Nunca foi diferente isso, nem na ditadura.

O momento político do Brasil pede um governante duro, um Messias, um ditador?
Não devo nada ao Temer, nem o conheço. Mas analisando friamente a situação nacional, a solução é concluir o mandato dele, que traz relativa estabilidade na economia. Que ele conduza com cautela o mandato até o final e o Brasil eleja em 2018 um governante sem compromisso com esquerda ou com direita, mas antes de tudo compromissado com a nação.

Repito: a pátria precisa ser revisitada pelos brucutus?
A pior de todas as democracias é melhor que a melhor de todas as ditaduras.  Ou você conhece algum país desenvolvido governado por ditadores? Problemas da democracia se resolvem com mais democracia.

O senhor ainda acredita no Brasil?
Nos governos do PT a corrupção evoluiu de tal maneira, que descambou para o desastre e a pouca vergonha. Vai precisar de tempo para mudança. O PMDB também está cheio de corrutos. Perdi a fé nos partidos.

Não tem jeito, então?
Esses dias, conversando com um dentista da Prefeitura, ele me apresentava o Partido Novo. Já tenho 86 anos, não posso participar do Novo (risos). Mas vejo na sigla ideias certas de mudança. Porém, o eleitor não está preparado para esta proposta. Parece que quanto mais exerce o voto, mais despreparado o eleitor fica. É difícil construir um partido assim com a mentalidade que existe no eleitorado.

Lula ou Bolsonaro?
Nem um, nem outro. Isso de polarizar Lula com Bolsonaro é muito pobre, tem que acabar.

“Agente” da CIA ou perigoso “comunista”?

O berço cosmopolita do professor Paulo Marques gerava alguma estranheza entre os “capiaus” da política naquele grotão onde estava relegada a Cascavel do início dos anos 1970.

Filho de europeus, fluente em inglês, tendo lecionado com o contracheque pago pelo “imperialismo americano”,  Marques era mesmo um sujeito distinguido no meio cultural (da soja e do milho) da época.

Havia até quem, na governista Arena, tida como a maior agremiação partidária do Ocidente e contaminada pela paranóia  exacerbada daqueles dias (o Brasil vivia sob uma ditadura), desconfiasse que o professor era um agente infiltrado da CIA, órgão de inteligência do Tio Sam. Outros viam nele, por sua militância na oposição, a figura de um perigoso “comunista”.
De fato, Paulo Marques, como o Rui Barbosa do início do século, era o “embaixador” da poeirenta Cascavel nos Estados Unidos. Tanto assim, que foi convidado para a condição de observador parlamentar junto à Assembleia da ONU, realizada em Nova Iorque, em 1981.

Por aqui, na Rádio Colméia, duas músicas faziam sucesso: o “Pára Pedro, Pedro pára”, que embalava a campanha a prefeito de Pedro Muffato, e outra, digamos, de origem na estrebaria: “Onde a vaca vai, o boi vai atrás...”. Na boca dos eleitores de Marques, segundo recorda o jornalista Heinz Schmidt, o refrão ficava assim: “Onde o Paulo vai, o povão vai atrás...”

E foi mesmo. Paulo Marques exerceu mandato de vereador e depois três de deputado federal (nos anos 1970 até meados de 1980), sempre bem votado. Até onde se sabe, sem que tenha dado carteiraço de “agente” da CIA para obter votos.

Quem é ele?

Filho de portugueses, Paulo Marques é um leitor inveterado.  Recentemente leu “1.808”,  livro histórico de Laurentino Gomes. Assina quatro jornais, entre eles o Estadão e o Pitoco há quase 20 anos.

Acompanha com especial interesse o noticiário internacional. Não é para menos, morou quase cinco anos nos Estados Unidos, em Nova York, após a morte da mãe, quando ele tinha 22 anos de idade. Lá trabalhou como chofer e lavou pratos em lanchonetes. Depois lecionou português, contratado pelo Departamento de Estado americano.

Quando veio para Cascavel, em 1961, deixou no passado uma vida glamurosa na cosmopolita Rio de Janeiro, ex-capital da República, onde morava à beira-mar, em Ipanema.

Em 1964 comprou o sítio Quero-Quero na “estrada velha para Toledo”, local que ampliou para 27 alqueires, e hoje leva uma vida bucólica, criando ovelhas, tilápias e belos patos brancos entre magníficos espelhos d’água. “Daqui só saio para o cemitério”, costuma repetir. Pela força e vitalidade do professor, então vai demorar para sair.

Recentemente, Paulo Marques desmembrou 12 alqueires da área em parceria com a construtora BellaCasa e produziu o loteamento denominado Tropical III. É a partilha com os filhos do patrimônio que acumulou honestamente ao longo de uma vida marcada pela correção e dignidade.