Cascavel, Quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

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Maringá takes off

Conheça as letras que compõem a decolagem da Cidade Canção. E o que Cascavel e região podem aprender com a ascensão de Maringá

Eleições municipais de 2016.  Candidatos a prefeito de Maringá tensos na “Arena Acim”, a ampla sala de reuniões da Associação Comercial. Durante seis semanas, os pretensos prefeitos foram submetidos à mais rigorosa sabatina da campanha.

Assessorados nos números levantados pelo Conselho de Desenvolvimento de Maringá, o Codem, empreendedores e lideranças de entidades colocaram os prefeituráveis na parede com perguntas técnicas, balizadas em sólida base estatística captada em 48 indicadores econômicos.

Aquele ambiente de debate qualificado não tinha a pretensão de apontar com clareza quem estava mais preparado para conduzir a locomotiva do Norte paranaense, mas certamente tinha o condão de revelar quais estavam despreparados.

Maringá não chegou àquele estágio, em setembro do ano passado, delegando para os políticos a primazia da política, ou da politicagem. As forças vivas da Cidade Canção perceberam a necessidade de assumir as rédeas do município ainda no distante 1994. Ali nascia um planejamento inicial de uma década. Depois evoluiu para o Maringá 2030. Hoje a cidade trabalha sobre as bases do 2047, ano do centenário de sua fundação.

Não é conta fácil. É como você marcar um dia no calendário de 2047 e dizer: neste dia chegaremos com tal ação de desenvolvimento econômico em tal etapa. É algo que afronta a cultura nacional do improviso, do “deixa para depois”, do fortuito e do ocasional.

Construção  impensável
Você já viu empresário pedir para prefeito aumentar IPTU? Bem, não foi exatamente isso que aconteceu em Maringá, porém a sociedade civil organizada no entorno do Codem soube maturar o debate da tributação de forma que o município obtenha a receita necessária para investimento em desenvolvimento econômico.

Assim sendo, foi possível construir um entendimento em que efetivamente o maringaense paga seus tributos sobre o valor de mercado dos imóveis. Em Cascavel, para ficar em um exemplo, a tabela está defasada. Maringá, cidade de porte ligeiramente superior à Capital do Oeste, arrecadou de janeiro a agosto deste ano R$ 113,9 milhões com IPTU. Cascavel, no mesmo período, obteve R$ 36,3 milhões com o tributo.

Porém, diferente do que fazem os legislativos municipais, o Codem não deu um cheque em branco para o prefeito de Maringá. Construiu-se um entendimento, pelo qual a Prefeitura tem que investir um percentual mínimo de sua receita em desenvolvimento econômico.

E para obter o silêncio obsequioso do empresariado com o reajuste dos tributos, os gestores públicos tiveram também que cortar da própria carne. De mais de 500 cargos comissionados, a Prefeitura veio para algo em torno de 150. A leitura é simples: é inócuo melhorar a receita se o dinheiro for devorado pela lagarta gorda da folha de pagamento.

Assim sendo, Maringá dispõe este ano de mais de R$ 200 milhões para investimento. Para estabelecer um paralelo, o Governo do Paraná não tem um único centavo de receitas livres para investir. A propaganda que você vê na TV é dinheiro da Copel, da Sanepar e de outras empresas públicas com caixa para investir. A administração direta do Palacio Iguaçu repete a realidade da maioria das Prefeituras: baixíssimos recursos para investimento e fortunas dos pagadores de impostos no custeio de uma máquina obesa e ineficiente.

A Maringá exportadora
O Codem produz pactos. É uma usina de ideias, mas também de acordos institucionais. Motivou o empresariado a deixar as querelas da concorrência territorial em um segundo plano e batalhar novos mercados, fora dos limites geográficos da Cidade Canção.

A conta do Codem é simples. Cada estudante de Medicina investe R$ 10 mil mensais na economia de Maringá. Isso se dá quando ele deposita a mensalidade na conta da Unicesumar, instituição maringaense até a medula, paga o aluguel de uma quitinete ou pede um chope nas centenas de barzinhos da cidade.

É dinheiro de fora para dentro. A maioria dos estudantes são de fora, de outros estados, inclusive. E não são poucos. De cada oito maringaenses que você encontra na bela e arborizada Avenida Brasil, um é acadêmico. São 50 mil estudantes universitários. O polo universitário injetou centenas de milhões de reais no mercado imobiliário.

Antes da violenta recessão econômica que lançou o Brasil em um abismo sem fundo, Maringá soube como poucos navegar na barca da prosperidade. Cresceu por quase uma década em patamares chineses, de 8,5% ao ano. Em 2013, o cume pré-debacle, cresceu 13,4%.

Cresceu tanto, que a água derramou do copo. “Planejamos uma cidade para 400 mil habitantes”, explica o secretário Executivo do Codem, o economista João Ricardo Tonin. Para ele, densidade demográfica não é indicativo de desenvolvimento. “Almejamos uma cidade grande em bens, serviços, qualidade de vida e renda per capita, mas com os confortos e comodidades de uma cidade média”, diz Tonin.

Está difícil segurar Maringá. Já são 406 mil habitantes, e há problemas com o entorno empobrecido. Na micro-região vivem mais de 600 mil almas. Porém, no entorno maringaense, cidades como Paissandu e Sarandi já contagiam os índices primeiro-mundistas da Cidade Canção. Nestes municípios, a renda per capita é um terço de Maringá.

Trata-se de duro desafio para a cidade que decolou, mas pouco pode fazer pelos vizinhos grudados ao chão. Enfim, é possível estabelecer uma ilha de prosperidade em um entorno empobrecido? É a Maringá takes off enfrentando as dores do crescimento.

Apontando vocações e tendências high tech
Para que servem tantos indicadores, reuniões sem fim, planejamento a longo prazo? Entre outras aplicações, para apontar vocações e tendências. O Codem identificou o potencial maringaense para tecnologia de informação, setor mais conhecido no mercado como TI. E preveniu o canibalismo entre empreendedores locais, estimulando a abertura de novos mercados inclusive fora do Paraná. Hoje o setor de TI fatura R$ 700 milhões em Maringá, caminhando a largos passos para R$ 1 bi em 2020, e assina a carteira de mais de três mil trabalhadores com salários médios de R$ 3,5 mil, número que impulsiona a renda per capita. O Codem contribuiu na certificação de qualidade do software, fator que escancarou portas Brasil afora. Game over.

Quando copiar e colar não é pecado
O Codem de Maringá inspirou iniciativas semelhantes na região Oeste. Em Foz do Iguaçu e mais recentemente em Cascavel, instituições surgiram com o propósito de planejar a cidade e promover o desenvolvimento econômico (veja nas páginas amarelas desta edição entrevista com o presidente do conselho cascavelense, Edson Vasconcelos).

A organização associativista e comunitária de Maringá fez nascer outra marca importante: o Observatório Social, ferramenta pela qual voluntários fiscalizam compras públicas para melhorar a qualidade do gasto público e afastar os gatos do orçamento.

Em Cascavel, inicialmente, o Observatório foi mal recebido por gestores públicos centralizadores, que não admitem questionamentos em suas gastanças irresponsáveis. Mas hoje a estrutura está assimilada e funcional.

Maringá também foi o berço do Sicoob. A cooperativa nasceu no ventre da Associação Comercial. E depois replicou aqui no Oeste, também com nascedouro na Acic.

A pujante cidade do Norte hoje sedia a Central Sicoob, que trouxe a sede nacional da maior seguradora argentina, a Sancor, para Maringá.

“Representantes de 300 cidades já nos visitaram para conhecer o Codem. Somente nos últimos seis meses, recebemos 50 comitivas”, afirma Tonin.

É isso. A filosofia do nada criar, mas tudo que for virtuoso copiar, não é vergonhoso para ninguém. Se já está pronto, é copiar e colar. Mas antes de tudo, saber implementar em cada município e região, conforme as especificidades de cada um.

EXEMPLO DE ARBORIZAÇÃO

Maringá é a primeira colocada no ranking das 80 cidades brasileiras com mais de 300 mil habitantes, no quesito arborização urbana. São mais de 93 mil árvores, com predominância da sibipiruna, frondosa, capaz de neutralizar poluentes e atenuar a barulheira da cidade. A arborização também melhora o conforto térmico em até 7 graus. Em Maringá, as árvores gigantes, plantadas no centro seis décadas atrás produziram uma curiosa equação: diferente da maioria das cidades, as chamadas ilhas de calor estão na periferia, nas bordas da cidade, e não no centro protegido pelas copadas sexagenárias das sibipirunas.

Em tempo

Copiar e colar foi o que fizemos na capa desta edição. A inspiração veio da revista inglesa “The Economist”, de reputação internacional que ilustrou sua primeira página com o Cristo Redentor em forma foguete em plena decolagem. Depois, vale dizer, a mesma revista trouxe o pobre Cristo caindo em parafuso, quando a economia descobriu que o petismo havia passado um cheque sem fundos. Em nossa ilustração, elaborada pelo designer gráfico Jair Reinaldo dos Santos, o monumento símbolo de Maringá, a catedral Nossa Senhora da Glória.

Placar de 7 x 1 no “Clássico do Café”
Da mesma forma que alguém possa enxergar rivalidades incontornáveis entre Cascavel e Toledo, entre Francisco Beltrão e Pato Branco, também dá para dizer que Londrina e Maringá duelam na porção Norte do mapa paranaense.

E nestas disputas paroquianas, nem sempre o maior é o melhor. Londrina tem 533 mil habitantes, contra 406 mil maringaenses. Mas no que importa mesmo, Maringá “enfia” um constrangedor 7 x 1 em Londrina. Na renda per capita, Maringá crava R$ 36 mil; Londrina, R$ 26 mil. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), Maringá é a primeira do interior (suspeita-se que já tenha superado Curitiba), com índice 0.808, considerado “muito alto”.

Londrina é a 6a do Paraná no IDH, com 0.778. Cascavel tem IDH 0.782, e figura em honroso quarto lugar, atrás, pasmem, de Quatro Pontes, aqui no Oeste, com 0.791.

No ranking divulgado este ano pela revista “Exame”, das melhores 100 cidades brasileiras com, mais de 260 mil habitantes, Maringá aparece, adivinhem, em 1º lugar. Londrina é a 15ª;Cascavel, a 18ª.

O Tribunal de Contas do Estado apurou os índices de eficácia em educação. Maringá apareceu no top 10. Londrina, na posição 94.  A nota média do Ideb, que avalia o ensino basico, referenda essa posição. Maringá obteve 7,1, o melhor desempenho do Estado entre as cidades médias e grandes. E a meta do Codem é chegar à nota 8 em 2020. Maringá também aparece entre as cinco melhores cidades do interior brasileiro para empreender. Londrina é a 10ª.

Enfim, nesta batalha de números, o Clássico do Café já apresenta placar de 7 x 1 para Maringá. O gol do Londrina? Sim, é maior em população. Mas, como já dito aqui, embora a maior cidade do interior paranaense seja um belo lugar para viver e prosperar, quantidade não é qualidade.

Cascavel em Maringá
“Constituímos uma sociedade de pessoas físicas e jurídicas com o objetivo de investir na incorporação de hotéis em cidades  nas quais a pesquisa de mercado positive demanda.  De imediato procuramos Maringá, atraídos por informações confiáveis do grande potencial da cidade, a 2ª do Paraná e 15ª do País em indicadores sociais e novos negócios. Concluída positivamente a pesquisa, procuramos a melhor localização para a construção do hotel. Após exaustivas negociações com a BRMalls, maior administradora de shoppings do país, conseguimos comprar área no terreno do Shopping Catuaí Maringá, onde estamos executando as obras do hotel, com inauguração prevista em aproximadamente 20 meses.”

l Paulo Sciarra é engenheiro civil. Edificou em sociedade com o irmão Eduardo prédios icônicos de Cascavel, como as torres gêmeas do Central Park.

Maringá em Cascavel
“O namoro deste pioneiro da educação, pé vermelho, com o Oeste do Paraná, começou na década de 70 com o surgimento das cooperativas da região, onde trabalhei, sempre ligado a educação. Sou professor benemérito da Unioeste, compondo a primeira turma de docentes da instituição. No início dos anos 90, fazendo parte do grupo Objetivo, instalei o primeiro curso na área de informática do Oeste na cidade de Foz do Iguaçu. Em 2000 implantei a primeira escola de prótese dentária em Cascavel. A partir de 2006, alinhei-me ao empreendimento Unicesumar. Transformamos o polo cascavelense  no maior da instituição do interior do Brasil (atrás apenas de Maringá), com cerca de 2 mil alunos matriculados.”

l Wanderley Kendrick nasceu em Rolândia, viveu infância e juventude em Maringá, onde passou a morar em 1949, antes da emancipação administrativa.