Cascavel, Sexta-feira, 24 de novembro de 2017

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Entrevista / Edson Vasconcelos - O bom Conselho

Cascavel segue os passos de Maringá ao perceber que reclamar dos políticos não resolve

Cascavel é rejeitada pelos seus vizinhos? O trem atrofia a ferrovia? Por que mais uma entidade, se já temos tantas? Empresários em rota de colisão com a Unioeste? Estas e outras questões centrais do desenvolvimento do Oeste foram remetidas nesta entrevista para o presidente do Conselho de Desenvolvimento Sustentável de Cascavel, engenheiro civil Edson Vasconcelos. Ele não fugiu das respostas. Confira.

Com tantas entidades representando a sociedade civil, o conselho é mais uma?
O Conselho veio de uma percepção da ausência da sociedade organizada em ações globais. Na demanda específica, setorizada, vínhamos bem. Se havia uma demanda na construção civil, o Sinduscon encaminhava. No direito, a OAB sabe o que fazer; no agronegócio, o Sindicato Rural atende.  Mas no que interfere no conjunto da sociedade, o Sinduscon, Acic ou a Amic muitas vezes nem ficam sabendo.  O Conselho traz uma visão mais abrangente e coletiva, por essa razão conseguiu aglutinar 65 entidades cascavelenses.

Ou seja, a organização se perdia na fragmentação...
Sim, perdia. Ao aglutinar em um colegiado, você traz para a visão global do processo, sem perder a capacidade de diluir assuntos. Exemplo: o trade turismo interfere em todo o conjunto quando começamos a entender que o setor involui pela falta do aeroporto. Ou que a OAB, representada no Conselho, tem a oportunidade de trazer um evento para Cascavel. Pronto, o pessoal do trade e da OAB estão apresentados. O que podem fazer juntos para incrementar o turismo de eventos?

O poder público não faz essa ponte?
Começamos a nos perguntar no Conselho: como será o planejamento do ano que vem? Como será para daqui dois anos? E todos começam a entender que o formato institucional da gestão pública não foi feito para o longo prazo, tem uma falha enorme, e isso pede que a sociedade preencha essa lacuna.  

A gestão pública está sempre apagando incêndio...
A política entrou na era do populismo, talvez por causa das mídias sociais, ou do politicamente correto. Respostas rápidas são executadas no que dá repercussão na opinião pública. Demandas mais complexas, porém importantes, não entram nesta agenda. Assim, como aconteceu no passado, alguém chega aqui e diz que aeroporto é para quatro empresários ricos.

E como contraditar isso?
A tendência é as pessoas reagirem assim: “É verdade, como vamos investir dinheiro em um aeroporto para quatro milionários usar?”. Mas quando conseguimos avançar no entendimento, vamos perceber o montante de oportunidades e empregos que perdemos quando o investidor ou o promotor de um evento não consegue pousar aqui.  

O aeroporto, neste estágio inicial do Conselho, é a pauta que unifica as dezenas de entidades participantes?
O aeroporto foi o tema mais contundente, mas o que tentamos construir é um Conselho capaz de perpassar essa visão de uma obra.  Colocar essa demanda no contexto da infraestrutura, integrada ao desenvolvimento econômico.  É entender que o Conselho tem a responsabilidade de fazer um projeto, um plano de ação, mas quem executa são os diferentes atores mobilizados pelas entidades.

A ponta do sistema precisa funcionar...
Exato. O Conselho não é executivo, ele vai desenhar o futuro e sensibilizar os atores do presente. Ele ajuda a executar o plano de ações para os atores econômicos e sociais, organizados e movidos pelas entidades cumpram o previsto no planejamento.

Esse mecanismo funcionou no caso do aeroporto?
O tema aeroporto fluiu rapidamente e naturalmente. Mas não havia coesão em torno da solução. Uns falavam em deslocar para a esquerda, uns falavam que era para a direita. Diziam de manter onde está, ou tirar de lá. Então fizemos um estudo técnico incluindo demanda de passageiros e avançamos para o aeroporto regional.

Havia arestas políticas para aparar na região...
A partir do estudo técnico, começamos a conversa política, ou institucional. Era preciso aparar arestas históricas na região, de construir um entendimento. O maior obstáculo nem era esse, e sim a descrença da própria sociedade. Aqueles que lutaram lá atrás não acreditavam mais. Foi preciso vencer o ceticismo.

Colocou-se Cascavel e Toledo a mesa.
Sim, e harmonizamos isso.  Vale dizer que iniciativas como o projeto Oeste em Desenvolvimento trouxe um amadurecimento nas relações regionais. Trouxe a visão que é mais fácil “vender” na Europa o Oeste do Paraná do que uma cidade específica.

Até o aeroporto regional sair do papel, haverá disputa...
Naturalmente. Toledo não vai abrir mão de levar um voo pra lá. Cascavel, até ter o regional, terá que lutar com as armas que tem. Tanto eles não podem ser criticados por levar um voo pra lá, como nós não podemos ser criticados por reformar o que temos aqui.  

Acredita que o governador irá desapropriar aquela área entre Cascavel, Toledo e Tupãssi? Quanto vale?
Estamos trabalhando para incorporar esta causa nos planos do governo do Estado. Chegamos muito rápido a este ponto. Vencemos primeiro o atrito regional, ou seja, fizemos o dever de casa primeiro. Isso facilita uma ação do Palácio Iguaçu, porque os principais atores regionais estão do mesmo lado da conversa. Acredito que aquela área possa ser desapropriada por algo entre R$ 20 e 25 milhões.

Que fatores foram considerados na escolha da área?
São concepções unicamente técnicas - altitude, a direção do vento, capacidade modular de expansão do sítio. Veja que o problema aqui não é o tamanho. O problema é que a aeronave não desce. Quando não desce, ninguém está ligando se o vaso sanitário do aeroporto é de mármore ou de plástico barato. Ninguém se preocupa com isso, a questão básica é descer. O pior cenário é ouvir em qualquer lugar do Brasil: “Putz, lá em Cascavel é difícil descer”. Isso que nos machuca.

Perdemos eventos com a descida difícil...
Um médico de Cascavel promoveu vários fóruns de medicina. De repente, se cansou. Teve tanta incomodação com voo, constrangimento com palestrantes, que ele não se atreve a fazer mais. Quando o trade saúde do Conselho foi conversar, ele resumiu:  “Temos um magnífico polo de medicina em Cascavel, mas nada podemos fazer na área de eventos científicos até não termos um aeroporto”.


Londrina e Maringá, cada uma tem seu aeroporto. Por que Cascavel e Toledo não podem ter o seu, cada uma?
Porque não se viabiliza.  Londrina e Maringá cometeram um erro, ao meu ver. Se houvesse um único aeroporto bem estruturado entre os dois municípios, eles teriam 1,5 milhão de passageiros, mais opções de voo, tarifa mais baixa, e todos ganhariam. E isso de aeroporto no meio da cidade é prejuízo ao planejamento urbano, um risco desnecessário. Aeroportos urbanos, como os de São Paulo, são péssima referência.

O aeroporto regional do Oeste poderá se viabilizar por concessão para iniciativa privada?
Depois de feita a desapropriação, é possível desenhar um formato de parceria. Porém, isso é algo para ser balizado tecnicamente, estudado. Acredito que, em um primeiro momento, o Estado terá que prover o básico para depois avaliar a participação da iniciativa privada. O aeroporto precisa ser atrativo ao usuário, em quantidade de voos, em espaço físico, em área comercial, enfim, tem que ser viável para atrair capital privado.

Qual o número mágico que faz virar as contas de um aeroporto?
Já me falaram várias vezes que precisamos atrair 700 mil passageiros. É muito? Não, Maringá sozinha está neste patamar. Mas é importante notar – e descobrimos isso nos números levantados pelo Conselho - que existe um boicote da região ao aeroporto de Cascavel. Passageiros de Toledo, Marechal, Assis, a maioria, vão a Foz do Iguaçu.

Por que razão?
Criou-se um invólucro de rejeição. E não é birra regional com nossa cidade. Boa parte dos passageiros de Cascavel também não gosta do aeroporto e usam o de Foz.

A suposta liderança política natural da Capital do Oeste é questionada pelos vizinhos?
Não houve um processo pensado de rejeição a Cascavel na região Oeste. Houve, isso sim, uma ausência de Cascavel no debate regional.  Cascavel se isolou. E isso não se explica. Cascavel naturalmente é Oeste, como Toledo também é Oeste. Logo as cidades estarão interligadas.

Isso explica a rejeição de Toledo em pertencer à região metropolitana de Cascavel?
Primeiro que esse debate da região metropolitana veio como uma bola quadrada. Depois, consolidou-se em Toledo a ideia de um melhor entendimento com Marechal Rondon, e que este eixo entre as duas as fortalecia e criava um comparativo saudável.

Cascavel “afrouxou” neste debate com os vizinhos?
Cascavel simplesmente ignora essa comparação, não leva a sério. Mas para eles, de Toledo e Rondon, é fundamental ter esse comparativo. Eu nunca vi Cascavel fazendo restrições a Toledo. Talvez de lá para cá houve restrição. Temos que entender que o consumidor toledense não deixa de comprar em Toledo para comprar em Cascavel.  O toledense, o rondonense e o cascavelense estão comprando no Submarino. Mudou o perfil do sistema, temos que ter outra visão de região.

A ênfase que as lideranças regionais estão colocando no trem atrofia a rodovia como modal?
São visões totalmente separadas. Olhamos muito para o usuário da rodovia que vai uma vez por ano para a praia e pouco para o cara que manda cargas de milho  e soja pelo sistema mais oneroso, a rodovia. O produtor do milho não está vendo a praia. Ele está vendo a tarifa do pedágio, a perda de receita local, de produtividade. O olhar dele está no jogo mundial, se ele será ou não competitivo na exportação. O que está em jogo é nossa economia regional.

Então é tirar a carga da rodovia e colocar no vagão?
Cargas têm que seguir por ferrovia e hidrovia, passageiros pela rodovia. Tem que duplicar onde tem trafego para duplicar, terceira faixa onde é preciso, temos que aumentar a capacidade de fluxo das rodovias, sem necessariamente carregar tarifa de duplicação onde não precisa.

Entre colocar dinheiro no trem e na rodovia, você colocaria no trem?
Toda vida! Primeiro porque é uma questão de sobrevivência econômica, de manutenção de emprego. Nós, oestinos, somos setor primário, nossa vocação é essa. Até a conta da fumaça nos dá razão. O trem emite sete vezes menos fumaça que a frota de caminhões. Talvez o trem não interesse para as concessionárias. Mas precisamos ter uma visão de estado.

A Ferroeste está estrangulada, é o rio pequeno sem saída para o mar...
O ramal da Ferroeste até Guarapuava não mexe, deixa do jeito que está.  É a terceira melhor ferrovia em velocidade média comercial no país,  27km/h.  A solução é adicionar um outro ramal de Guarapuava ao porto. Hoje somos uma ferrovia que liga nada a lugar nenhum. É um ramalzinho de outra ferrovia.

É um problema de queda de braço, Norte x Oeste?
Não. A outra ferrovia, construída no tempo do Brasil Império,  não dá vazão para nós, temos que esquecê-la e deixar eles trabalharem. Já trabalham com 90% da capacidade para o Norte. As nossas energias precisam convergir para o novo trecho de Guarapuava ao porto e isso deve nos levar a pensar a ligação Cascavel a Maracaju (MS) visando agregar mais carga ao ramal.

Quem poderia entrar com a grana neste empreendimento Maracaju/Cascavel/Paranaguá?
Investidores internacionais, canadenses, chineses, japoneses. O Estado deveria entrar com alguma forma de contrapartida em algum ponto para melhorar a condição de atração de investimento privado. E o Estado tem condições para isso. Temos que rever a matriz de investimento. O governo não pode virar unicamente ordenador de despesas. O estado tem que ter recursos para investimento em infraestrutura.

O Conselho pode se espelhar no Codem, de Maringá?
Sim, há um sentimento social de participação de um sistema a longo prazo. Temos uma cultura associativista forte aqui.  Todos os que discutem ações de longo prazo percebem o quanto é difícil essa construção. Com o poder público é ainda mais difícil, pois o gestor está com o pepino na mão, com o incêndio para apagar, e acaba sendo devorado pelo urgente e o emergencial, perdendo a capacidade de planejar no médio e longo prazo.

Mas a participação da Prefeitura é fundamental nisso...
Sim, até por que o longo prazo exige investimento. Dinheiro. E é aí que o Codem ensinou e está nos ensinando. Houve um pacto pela coisa correta, inclusive no pagamento de tributos. Maringá não apoiou o aumento da receita para virar despesa de funcionalismo. Apoiou investimentos a longo prazo no desenvolvimento econômico, que beneficia o conjunto da sociedade e não apenas corporações com poder político de pressão.  

O prefeito Paranhos está aberto para essa conversa?
Sempre esteve. Ele entendeu que o Conselho pode contribuir. Saber que há 65 entidades em contato direto de ajuda a gestão pública só pode ser bom para o prefeito. A exemplo de outros prefeitos, ele também é pressionado pelo imediatista, aquele que grita mais alto. Mas o populismo traz o resultado imediato que a longo prazo não se sustenta. Paranhos está maduro, nos surpreendendo em sua forma de atuação.

Melhor assumir o risco de errar ouvindo as pessoas que ter a pretensão de acertar sozinho...
Já lemos muitos livros com respostas prontas para tudo. É o típico livro que, na vida real, vai para a gaveta.  A coisa deve ser construída, disseminada. O maior exercício do Conselho é o debate, o entender, o construir. É não permitir o Conselho fechar-se. Será que o presidente do bairro conhece o Conselho? Será que ele entende nossa posição sobre o aeroporto, ou ainda está na cabeça dele que aeroporto é para quatro empresários?

Recentemente a liderança empresarial de Cascavel entrou em rota de colisão com a Unioeste. O que houve?
Não temos nenhuma posição contra a Unioeste. Temos, sim, a deliberação tomada em plenária de apoio à auditoria e à transparência. Não entendemos a reação irada dos dirigentes da universidade quando pedimos transparência. Abrir as contas para a auditoria independente acabaria com essa boataria de desvios de conduta. Isso deveria partir deles.

As entidades estão ingerindo na autonomia universitária?
Em absoluto. Ninguém na sociedade vai fazer por eles o trabalho que é deles. Os sensatos da universidade devem trazer a público o valor daquela universidade, não os de fora. Cabe a eles ajustar as velas da embarcação para o rumo certo.  E afastar aqueles que não estão em conformidade. Vale lembrar que sistema público educacional deveria se orientar pela ponta do sistema, onde está o  aluno. E jamais se orientar pelo conjunto ideológico que criou ali um sítio de sobrevivência. Essa é a fundamentação principal que nos cabe.