Cascavel, Sexta-feira, 24 de novembro de 2017

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João, do porão ao pincel

Endurecer-se sim, perder a ternura jamais

João do Porão era o nome mais temido dos tablados. Forte, disciplinado, professor de judô. Mas sempre guardou consigo, mesmo que isso passasse despercebido, um lado terno, sensível.
Era assim quando recolhia meninos de rua, engraxates em sua maioria, para aulas no “0800” de artes marciais. Porém, o João ficou conhecido mesmo foi na gastronomia.
Era dele o restaurante das “celebridades” da aldeia nos 90 em Cascavel. O ponto, ali na rua Paraná, perto do Tuiuti, era frequentado por prefeitos, deputados e a nata empresarial da cidade.
De dois anos para cá a vida do João mudou muito. As articulações do joelho esquerdo, ressentidas por 35 anos de lutas no sentido literal da palavra, exigiram intervenção cirúrgica. Uma superbactéria, infecção hospitalar, visitou o João. E após inúmeras outras tentativas, restou a “solução final”: a amputação. João foi para a cadeira de rodas, e sumiu da roda social.
Querido na vasta família – ele tem seis filhos – e privilegiado dono de um leque imenso de amigos, João não teve muito tempo para entristecer.
E na melhor filosofia guevarista, “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás”, ou inspirado no clássico “Os brutos também amam”, o João foi do porão dos brutos para o pincel dos artistas.
Para tanto, ele buscou apoio na filosofia oriental, absorvida nas lutas marciais. “Aprendi na luta, que ao cair é preciso levantar rápido para não levar outra pancada”, relata.
Vasculhando na internet, João do Porão estudou pintura abstrata. E passou a produzir quadros em seu recanto colado a mata na região do Country.
Inspirado no canto de diversas espécies de pássaros em seu entorno, sabiá, canário terra, a saracura, desenhou paisagens e presenteou amigos com os quadros. O braço forte do ippon, do wazari, virou a mão amiga do pincel. João se reinventou. “Adaptei minha casa, trouxe a suíte para o térreo, coloquei a horta em caixas, mais perto de mim, só não dou conta de arrumar as calçadas da cidade”,  afirma o novo artista, agora apresentado para os desafios impostos aos cadeirantes.
É isso, João percebeu que a cidade foi feita para gente ereta de duas pernas, e principalmente, para os seres dominantes do planeta, aqueles feitos de aço, motor e quatro rodas. “Antes eu pensava: esses caras que reclamam das calçadas são uns chorões. Agora vejo que eles têm razão. É um desafio se locomover de cadeiras de roda na cidade”,  afirma.
Apesar do caminho difícil, João não se queixa. Ele prefere apontar os avanços de acessibilidade no centro, a partir das obras do PDI, e de melhorias pontuais com as rampas.
Esse é agora o espírito do João que foi do porão ao pincel e reuniu os amigos recentemente para celebrar seus 80 anos. Cabeça leve, mãos aos pinceis. 

Editorial

Aqueles que perdem a mobilidade tem dois caminhos para seguir: se lamentar pelo infortúnio pelo resto de seus dias, ou perceber que há vida após a ocorrência e adaptar-se a ela. É preciso fazer a legislação avançar no que diz respeito as calçadas.  Uma alternativa é a Prefeitura licitar a execução da obra e enviar a fatura ao dono do imóvel a título de contribuição de melhoria. Muita gente só irá perceber o degrau na calçada em frente ao seu imóvel, quando habitar uma cadeira de rodas.